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Carlos Zorrinho 13/08/2020
Carlos Zorrinho
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A esquerda e o centro político

Em quase meio século de democracia, o Partido Socialista esteve muitas vezes à altura de enfrentar com sensibilidade os momentos mais difíceis no plano económico e social.

Com Rui Rio a levitar e os salvados do passismo a migrarem em cadência acelerada para os braços da extrema-direita populista e nacionalista, o futuro do regime político em Portugal vai voltar a definir-se, como sempre se definiu desde a revolução democrática de 1974, no centro político. 

No centro político e não no centro ideológico porque, como amargamente testemunharam, entre outros, Lucas Pires, Adriano Moreira ou Freitas do Amaral, o centro ideológico foi chão que nunca deu uvas na nossa democracia. Já o centro político tem sido o espaço alargado de confluência onde todos os Governos se ancoraram e cuja conquista viabilizou as maiorias absolutas ou quase absolutas até hoje alcançadas pelo centro-direita e pelo centro-esquerda em Portugal.
Continuando a governar com a sua forte matriz de esquerda democrática sem descartar o centro político, o Partido Socialista poderá consolidar uma década histórica de modernização democrática do regime. Se não o fizer, o vazio ao centro conduzirá a uma transformação do regime em moldes difíceis de antever, em que todos os cenários são possíveis, incluindo um retrocesso democrático agudo.

Centro político não significa bloco central. É possível conquistar o centro político com programas de esquerda e também com programas de direita, mas dificilmente se conquista com arranjos ou coligações de sobrevivência e sustentação do poder que não geram empatia e só existem para ser quebrados na primeira oportunidade. O bloco central não faz sentido exceto em contextos, que esperemos não ocorram, que reclamem soluções extremas de “salvação nacional”.
Numa democracia saudável existem valores comuns e valores diferenciadores que permitem a livre escolha e a formação das alternativas. Ganhar o centro político implica ter bem claros e expostos os valores diferenciadores, para merecer a confiança dos cidadãos e se poder ser avaliado em função disso como o guardião mais capaz dos valores comuns que, de forma dinâmica, dão corpo, textura e identidade à comunidade nacional. 

Enquanto parte do PSD não resiste à chamada atávica de um poder que, a existir, será contrário à sua história e ao seu programa e outra parte aposta numa espera mais ou menos paciente pela simples alternância, o Partido Socialista tem, na recuperação da crise provocada pela pandemia, um desafio de afirmação que exige mais uma vez uma demonstração clara da sua identidade progressista, aberta, tolerante, mobilizadora dos setores mais dinâmicos da sociedade, enquadrada por uma vocação europeia e europeísta que é parte central da sua matriz ideológica e da sua história.
Em quase meio século de democracia, o Partido Socialista esteve muitas vezes à altura de enfrentar com sensibilidade os momentos mais difíceis no plano económico e social. Cumpriu essa missão tanto melhor quanto, não se descaracterizando política e ideologicamente, estabeleceu pontes de cooperação na sociedade portuguesa que lhe abriram as portas do apoio maioritário do centro político, condição fundamental para governar à esquerda e com parcerias à sua esquerda quando as circunstâncias o recomendarem.

Eurodeputado


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