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George Orwell. Revisitando clássicas distopias: 1984

George Orwell. Revisitando clássicas distopias: 1984

Pedro Miranda 11/08/2020 14:18

A mais recente ocasião em que, no nosso espaço público, o Orwell de “1984” foi convocado prendeu-se com uma monitorização (ou higienização) a promover, pelos poderes públicos, nas redes sociais quanto a notícias inventadas/falsas em tempo covid – se bem que, de modo mais intenso, porventura, na última década e meia, se tenha apontado aos gigantes tecnológicos o rótulo de Grande Irmão por, supostamente, conhecerem, como ninguém, os recônditos de cada indivíduo. Muitas vezes citada, mas muito menos lida, a distopia orwelliana vai conhecendo sucessivas reedições a nível global e o Verão pode ser ensejo para ler, ou reler, este clássico. Eis um guião possível.

 

1. Num mundo (aparentemente) dividido em três grandes Super-Estados - Oceânia, Eurásia e Lestásia -, em estado de excepção (e de guerra) permanentes, encontramo-nos em Londres (ou Pista Um), a terceira província mais populosa da Oceânia, em Abril de 1984, acompanhando, especialmente de perto, a vida de Winston Smith, um homem de 39 anos, funcionário do Partido, o SOCING (Socialismo Inglês), liderado pelo GRANDE IRMÃO (que nunca surge como indivíduo mas como representação/encarnação/símbolo do Partido; é certo que, logo no início da narrativa, Smith vê um grande quadro com um indivíduo de 45 anos, farto bigode, rosto enorme, com a legenda, por baixo desta imagem, O GRANDE IRMÃO ESTÁ A VER-TE, mas em nenhum momento se estabelece o GRANDE IRMÃO com(o) uma dada identidade física).

2. Dentro do Partido, há, ainda, uma subdivisão entre Partido Interno - o Cérebro do Estado (e que constitui 2% da população), a verdadeira nomenklatura, e o Partido Externo, as mãos, os executores, os membros comuns da organização (mais numerosos). Neste traçar da hierarquização social, sobram os Proles, a grande massa da população (85% desta), vista sempre com superioridade, sobranceria, arrogância por parte do Partido (dos seus membros). Os proles, dentro das abreviaturas desejadas pelos comandos (do sistema), significará, já se vê, proletários. Enquanto que nos bairros dos membros do Partido Interno, há tabaco de qualidade, vinho (bom) ou doses generosas de chocolate - e o telecrã pode ser desligado -, já os membros do Partido Externo vivem em apartamentos em degradação, sofrem do racionamento do chocolate e bebem gin de qualidade altamente duvidosa. Não há vinho.
Os proles dedicam-se ao jogo, ao álcool, tidos como incapazes de pensar e pouco acima da animalidade, a quem é, inclusive, permitido praticar religião (em caso de necessidade) e a quem não é necessário vigiar (de modo apertado).

3. A Oceânia é governada por 4 Ministérios: i) o Ministério da Verdade - com a tutela das notícias, divertimentos, Ensino e Belas-Artes; ii) o Ministério da Paz - que tem a tutela da Guerra (e recorde-se que o estado de guerra é permanente); iii) o Ministério do Amor - responsável pela lei e ordem e o Ministério da Riqueza: trata dos assuntos económicos.

4. Os três slogans do Partido são: Guerra é paz; Liberdade é escravidão; Ignorância é força. 

5. Como facilmente se depreende dos números imediatamente precedentes, um dos princípios fundamentais do partido será o duplopensar (o Ministério da Paz faz a Guerra, liberdade é escravidão). Era preciso dar às palavras um sentido duplo, invertendo-se, não raro, o seu significado original. Um outro exemplo de duplopensar: a ração de chocolate foi reduzida a 20 gramas (semanais). Passados poucos dias, novo comunicado, em letras garrafais: o governo conseguiu aumentar a ração de chocolate para 20 gr semanais.

6. A língua oficial da Oceânia - sendo que Portugal é colocado, nesta divisão por três Super-Estados, e na única vez em que é mencionado, acidentalmente, na obra, na Eurásia; como se verá ao longo do enredo, a suspeita de que o próprio Partido invente (tenha inventado) estar em guerra, lance mísseis contra a própria população para instigar o medo, é muito forte, e os órgãos oficiais do Estado tanto avançam a notícia de que a Eurásia é o inimigo e o aliado a Lestásia [aqui identificada, essencialmente, com o Oriente Asiático], como, horas depois, indicam, precisamente, o inverso [a Lestásia inimiga e Eurásia aliada] - é a Novilíngua. A importância desta é tal que o autor dedicar-lhe-á um Apêndice. Durante a acção, vemos o intelectual Syme a coordenar a décima primeira edição do Dicionário de Novilíngua. Um verdadeiro ortodoxo, pensa Winston Smith, mas demasiado inteligente, com uma linguagem acima do que será permitido para poder fazer vida (no partido). Com efeito, Syme desaparece, não mais se ouve falar dele, é, digamos, utilizando o vocabulário de 1984, vaporizado. Syme não só deixa de existir (para o presente e para o futuro), como quaisquer vestígios seus pretéritos são removidos: uma das características principais do Partido é reescrever a história. Syme nunca existiu. 

O grande objetivo desta Novilíngua - que vem para substituir e apagar a Velhilíngua - passa, sobretudo, por reduzir palavras. Pensar é pensar por/com palavras. Sem palavras - ou reduzindo-as ao mínimo - não se pensa. A inconsciência (desejada) pode, então, emergir. Há, pura e simplesmente, um conjunto de vocábulos que desaparecem: honra, justiça, moralidade, ciência, religião, democracia, internacionalismo. Assim se restringe o campo do pensamento (o campo do pensável).

A utilização de abreviaturas, por seu turno, evitaria sentidos mais amplos que muitas palavras evocam. Mau passa a ser imbom, num curioso exemplo, se pensarmos como, nos últimos anos, se impôs, no nosso espaço público, a expressão inverdade (em vez de mentira).

7. O fato-macaco é usado como uniforme do partido. Um helicóptero sobrevoa prédios a espreitar as janelas das pessoas. Não havia maneira destas saberem se estavam a ser observadas. E, na derradeira parte da narrativa, quando Winston Smith está preso, compreende como todas as suas palavras dos últimos 7 anos tinham sido escutadas pelo Partido, e como todos os seus pensamentos tinham sido reconstituídos. Apesar de ser membro do Partido (Externo), apesar de trabalhar no Ministério da Verdade, também Winston estava sujeito à Polícia do Pensamento. Aliás, logo no começo da trama, o narrador indica-nos que se vivia "no pressuposto de que tudo estava a ser escutado". 

Na Mansão Vitória em que vivia - tudo era Vitória, tudo tinha esta marca ou apelido, desde o Gin aos Cigarros, ou uma Praça; apartamentos decrépitos eram chamados Mansão e a Vitória existia num mundo de perpétua guerra, mesmo que imaginária -, Winston estava sujeito aos ditames do telecrã, que tanto debitava os objectivos do Nono Plano Trienal como apitava para os funcionários se levantarem, colocava-os a fazer ginástica e tudo observava, dentro de cada casa (onde tinha lugar). Os membros do partido não deviam frequentar certas lojas (o "mercado livre"), embora a falta de inúmeros produtos fornecidos pelo Partido fosse manifesta. Nada era ilegal, porque não havia leis.

8. Smith trabalhava no Departamento do Arquivo. Podia redigir notícias sobre o envolvimento de ex-camaradas, agora caídos em desgraça, com o inimigo, as suas traições ao Estado, o modo como haviam matado membros do Partido, etc. Mesmo que nada disto fosse verdade. A verdade deixa de existir. O homem novo que o Partido quer construir implica que a verdade seja aquilo que o Partido diz que é a verdade. Dois e dois são cinco se o partido disser, mas podem ser três ou quatro numa outra ocasião. Na prisão, torturado, vilipendiado, sujeito a todo o tipo de maldades, Winston disputará a existência da verdade, mas entre lavagens cerebrais de efeito "psicológico" e a alusão a quase lobotomias (no condicionamento cerebral, com uma nova terapia, a nossa memória de Laranja Mecânica e a sua Terapia Ludovico fazem sentir-se), acabará mesmo, no derradeiro instante, a amar o GRANDE IRMÃO.

A ciência desaparece - com excepção das coisas materiais. O exterior não existe. Só existe o interior das pessoas. Se se modificar este, a realidade externa nada importa. Depois de civilizações baseadas no amor e na justiça, a nova civilização a criar será baseada no ódio e no medo. O'Brien, o carrasco de Winston, dir-lhe-á que a sua esperança nos proles nunca dará em nada; estes, nunca se levantarão, nunca se irão revoltar, e o Partido reinará para sempre. Até porque, acrescenta, ao contrário de comunismo ou nazismo, a quem se poderia aparentar, não terá pruridos em defender o poder pelo poder, sem justificar este com qualquer intenção maior, mesmo que inventada. 
Acabará a amizade, pais não se darão com filhos, estes serão retirados das mães à nascença "como os ovos das galinhas", os sentimentos serão arredados, todo o entusiasmo e ocupação é para ser devotada ao partido. 

9. Emmanuel Goldstein é o inimigo do povo. Ele é o renegado, o apóstata; outrora, quase ao nível do GRANDE IRMÃO na hierarquia do partido, passaria a estar ligado a atividades contra-revolucionárias, condenado à morte. Fugiu. Com rosto judeu, denunciava a ditadura do Partido e exigia a conclusão da paz com a Eurásia. 

Mas existiria, realmente, Goldstein, bem como a sua Fraternidade (uma sociedade secreta que estaria para minar o Estado e o Partido, que eram, em realidade, a mesma coisa)? Num tempo em que nada parece o que é, tal pergunta nunca será categoricamente respondida. Winston, por exemplo, pensara em Julia como membro da Polícia do Pensamento e teme, durante um largo período, aproximar-se - no entanto, será com ela que terá um caloroso idílio. O'Brien tem no olhar uma cumplicidade com Winston e a sua mundividência - porém, ele será o algoz de Winston.

10. Todos os dias, o Partido tem os seus "Dois Minutos de ódio", com uma propaganda negra dirigida a Goldstein. Conquanto esta seja, não raro, ridícula, porventura concorrerá para o cada vez maior afastamento de Winston do Partido. Da falta de adesão (intelectual e emocional) a este, ao GRANDE IRMÃO. Os dias passam e Winston não aguenta mais deixar por expressar os seus sentimentos. Fá-lo sabendo correr o risco de ser apanhado, mas decide-se a escrever um diário. É certo que, naquela época (o 1984 imaginado, décadas antes, por Orwell), a caneta é um "instrumento arcaico", "raramente usado". Winston estava, de resto, habituado a ditar tudo ao falaescreve e não a escrever à mão. Não querendo ser ouvido pelo telecrã, e pensando encontrar ângulo que este não alcançaria, coloca no caderno comprado à revelia - o Estado, por exemplo, podia demorar anos a aprovar uma troca de janela, eis um exemplo de uma burocracia imensa e ineficaz - os traços do que pensava e sentia. 

11. O Partido tinha regras puritanas. O seu combate ao prazer era claro. A Liga Juvenil tinha campanhas anti-sexo. E este, quando existia, devia ser, ele também, burocrático: para procriar e destinado a cumprir os objectivos do Partido.
As ligas, as Juventudes desempenhavam um importante papel na socialização das pessoas. Desde cedo era-lhes instigado o ódio aos inimigos do Povo. Os Parsons, o casal vizinho de Winston - que não vivia com a mulher que já tivera, mas também não alcançara o divórcio; Smith desistira da relação quando a sua mulher, no ato sexual, se referia a este ter como objetivo o bem do Partido - tinham dois filhos. A mais nova, com sete anos, espreitando o pai pela fechadura, durante a noite, ouviu-o, em sonhos, gritar: "Odeio o Grande Irmão!". Denunciou o pai, por Pensarcrime, ao Estado. O pai, preso, um ortodoxo tolo, estava orgulhoso da filha.

O Partido pretendia que se tratasse toda a gente por camarada (e não dizer, por exemplo, "a senhora do António"). Havia espectáculos públicos de enforcamentos uma vez por mês, com a populaça em delírio. Nos ecrãs de cinema, os filmes eram igualmente de cariz militarista e ofensivos - no início, numa cena de um filme, num cinema, temos a descrição num ataque à bomba a barcos de refugiados, curiosamente, quase numa analogia com o nosso presente. 
Ao contrário de outros regimes que faziam heróis e mártires, o Partido só matava os apóstatas - em regra, pelas costas e um tiro na nuca - quando estes se tivessem conformado, por completo, tanto intelectual como emocionalmente, ao Partido e seus princípios. É o que ocorrerá com Winston, supõe-se (embora não cheguemos a ter notícia da sua morte), quando finalmente cede e é colocado no café castanheiro - um café onde não era de bom tom um membro, fiel, ir, dado que era lá que se encontravam muitos ex-membros do partido, caídos, entretanto, em desgraça - no qual joga xadrez, bebe muito gin e dali ainda dá um salto ao Departamento do Arquivo.

12. Durante a acção, apenas o Times aparece como órgão de comunicação, o jornal oficial. Isto além das notícias, comunicados, ordens dadas pelo telecrã. 

13. Os pais de Winston haviam sido levados e desaparecido décadas antes, vítimas de purgas. Este, tivera também uma irmã, com a qual, pelo menos segundo os seus sonhos e revisitação do passado, não era, propriamente, muito dado a partilhar. Surgia como egoísta, nessa nubelosa do passado, Smith.

14. Sete e um quarto era a hora de levantar para trabalhadores de escritório, com os subsequentes exercícios físicos, determinados e ditados pela voz que vinha do telecrã. 

Já na oficina, Winston dará vazão, reescrevendo notícias do Times com vários anos, meses ou dias, à ideia do partido de que quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado (p.40).

O ideal de cidadão seria celibatário, abstémio, não fumador, apenas preocupado com os objetivos do Partido e com o Inimigo (p.54). Objectivos do Partido por este sempre superados, com grandes cifras e grandes feitos (p.67). De propaganda, claro. Nas ruas, nas casas, no refeitório o mesmo cheiro, terrível, ao guisado de uma comida pouco recomendável e repetitiva. Mas ter pessoas uniformes também era um desígnio. Exibir no rosto feições impróprias era extremamente perigoso: rostocrime. Eram também usadas cornetas acústicas para se escutarem pessoas à porta destas (p.71). As mulheres do partido nunca se pintavam (p.73). Já sabemos: quando se fala em inimigos, fala-se muito de Goldstein e da Fraternidade. Desta, dir-se-á de modo moderno, que se bastará com a ideia; é em torno desta que sempre sobreviverá, mesmo que os membros, em realidade, não se conheçam entre si (no que faz recordar certos grupos terroristas hodiernos).

Todos os casamentos entre membros do Partido tinham que ser aprovados. Fazer filhos: "o nosso dever para com o partido". Amor era algo quase impensável. O treino e a socialização acabara com os instintos naturais. Estas (neo)pessoas eram como que inexpugnáveis. As mulheres do Partido não usavam perfume. O senso comum era uma heresia (p.89). Tudo o que fosse antigo, tal como o Belo levantava suspeitas (p.104). "Todos os documentos foram destruídos ou falsificados, todos os livros reescritos, todos os quadros pintados de novo, todas as ruas, estátuas e edifícios rebaptizados, as datas foram alteradas" (p.164)

15. A perigosa Júlia afinal era uma pretendente de Winston. Munindo-se de um esquema ardiloso, deixa a este um papelinho a dizer "AMO-TE". Smith nem queria acreditar, mas, dali a nada, está a sentir o corpo ao fim de muito tempo, está a ter sexo com Júlia (descrito com uma sobriedade pouco comum nos nossos dias), está, enfim, a romper com os ditames do Partido (que odeia). Num mundo totalitário, onde todos os aspectos e dimensões da vida são públicos (e capturados pelo Partido), incluindo aí os pensamentos e os sonhos, um ato sexual, ademais com prazer, mantido com uma ativista e funcionária do Partido, era um ato iminentemente político (p.136): "odeio a pureza, odeio a virtude. Só desejo que não haja uma única alma virtuosa. Quero toda a gente corrupta até à medula" (p.135). Eis um grito de liberdade e uma formulação que mostra conhecer que a revolução devora os seus filhos (em nome de uma pureza sempre ulterior de quem tem a forca na mão a cada momento). 

Júlia afirma que "dentro de nós eles não entram", até porque "o mais fundo do coração, cujo funcionamento até para nós constitui um mistério, há-de ser sempre inexpugnável" (p.177). Algo que O'Brien, na prisão, na qualidade de carrasco, irá desmentir, dizendo que "a natureza humana está nas mãos do partido"; criar uma natureza humana à medida, está nas mãos do partido, mostrando-se como o pós-humano estava já aqui postulado. 

16. Winston procura O'Brien, no bairro do Partido Interno a que este pertence. Julga-o um amigo. E confessa-se apostado em derrubar o regime, entrando para a Fraternidade, de que O'Brien, supostamente, faria parte. Este garante-lhe que dali a dias lhe envia o livro de Goldstein, uma espécie de Bíblia para os membros da sociedade secreta. Neste - que mais tarde viremos a saber ter sido escrito, em parte, pelo próprio O'Brien - pode ler-se: "num mundo onde toda a gente poucas horas trabalhasse, não lhe faltasse comida e tivesse automóvel ou mesmo avião, as formas mais óbvias e talvez mais importantes de desigualdade teriam desaparecido"(p.200). O que não calharia a um humano que precisa dessas formas de distinção. 

O cidadão da Oceânia estava proibido de aprender línguas estrangeiros, porque se contactasse estrangeiros veria que eram iguais a si - aqui fica a denúncia do nacionalismo. De notar, ainda, que nos três Super-Estados o sistema/regime político é idêntico: na Eurásia, o Neobolchevismo, na Lestásia, o Culto da morte. Entre eles, a guerra seria uma espécie de Old Firm, uma rivalidade e um jogo de win-win (-win). O Partido rejeita e avilta os princípios originalmente defendidos pelo movimento socialista, mas fá-lo em nome do Socialismo. 

17. Quando estão em mais um momento de intimidade, Winston e Júlia são detidos. Virão a ser fortemente espancados na cadeia. Obrigados a confessar a verdade e a mentira - "nada no mundo tão terrível como a dor física. Perante a dor, não há heróis" (p.246). Assim, Winston "confessou-se crente religioso, admirador do capitalismo, pervertido sexual" (p.250). Delitos que dão conta de um ambiente e de um mundo mental em que estas eram das maiores ofensas que podiam ser cometidas. 

Num livro dividido em três grandes partes - a primeira, em grande medida, a explicar o funcionamento social e apresentar-nos Winston; a segunda dedicada à aventura amorosa entre Winston e Júlia, até ao momento em que são detidos; a terceira focada na prisão e no tratamento de Winston -, o capítulo final mostra-nos um Smith deixado em liberdade - percebemos que por ter aderido intelectual e emocionalmente às verdades do Partido -, passando, mesmo, ato derradeiro no neo-humano (transformação intelectual e biológica, em que a questão da verdade e do amor entre humanos é colocada de parte, dela se abdica), a amar o GRANDE IRMÃO.

Quando é levado para a sala 101 - a mais perigosa; aqui cada um é confrontado com aquilo que mais detesta; no caso de Winston, um ataque de ratazanas, em preparação, levando a pessoa a dizer que quer ali quem mais ama, no caso Júlia, para que todo o sentimento e afiliação com o outro desapareçam -, acaba, definitivamente, por trair a amada (no sentido que, até então, aquele amor permanecia intacto e ao implorar que para ali fosse levada Júlia como que se quebrava esse elo), na vitória de um sistema que proclamava que "já ninguém se atrevia a confiar na própria mulher, no filho ou nos amigos. E no futuro suprimiremos esposas e amigos. Os filhos serão tirados às mães à nascença, como se tiram ovos às galinhas. O instinto sexual também será suprimido. A procriação transformar-se-á numa formalidade anual, como a renovação dos cartões de racionamento. Aboliremos o orgasmo (p.273)". Assim, não haverá lealdade a não ser ao Partido, nem amor a não ser ao GRANDE IRMÃO. Não haverá riso, nem arte, nem literatura ou ciência. Não haverá curiosidade ou gozo de viver (p.275). "Nós criamos a natureza humana. Os homens são infinitamente maleáveis"(p.275).

A novilíngua estará completamente em vigor em 2050  - e o nosso tempo de abreviaturas e de pouco mais de cem palavras, e, não raro, de políticos que não se importam do seu valor ou as usam com duplo pensar, adulterando o seu significado original, já terá, de facto, faltado menos.

[a partir da tradução de Ana Luísa Faria, Mil Folhas, 2002; 1984 foi publicado, originalmente, por George Orwell, em 1949]

 

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