29/10/20
 
 
António Cluny 11/08/2020
António Cluny

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Pensamentos de verão III

Para muitos dos nossos cidadãos, o uso das plataformas informáticas e o acesso aos serviços por via informática constitui um pesadelo real, isolando-os ainda mais da sociedade e dificultando o exercício efetivo dos seus direitos.

Bruscamente neste verão, o meu computador desconectou-se do sistema que o liga ao meu serviço e me permite o teletrabalho.

Com o apoio, distante, dos técnicos informáticos, lá se remediou uma solução, apesar de tudo, capaz de servir o essencial das minhas ingentes necessidades profissionais.

Tendo uma certa idade, mas não sendo propriamente novo nestas andanças informáticas, não deixei, ainda assim, de me sentir tenso até a situação ficar resolvida, mesmo porque me é imprescindível manter o contacto com os meus colegas de trabalho portugueses e estrangeiros.

Se, com a minha idade, é já enervante ter de ir incorporando sempre mais e mais novidades de processamento informático quando ainda mal se dominam as anteriores inovações, mais complicado tudo se torna, quando alguma anomalia surge capaz de nos impedir o normal uso dos computadores e programas que estamos acostumados a utilizar.

Tudo produz uma irritação imensa e, por vezes, um sentimento de verdadeira impotência.  

Só quem não se deparou com o acesso a sites absolutamente incompreensíveis e de resposta lenta e imponderável, ignorará o nervosismo que tal situação causa.

É o que acontece, frequentemente, também, aos utentes obrigatórios de tais meios digitais no relacionamento com os serviços públicos ou privados.

Que, em geral, a informatização dos serviços e o seu uso público e generalizado soluciona inúmeras dificuldades, facilitando enormemente a vida dos utentes e das administrações, é unanimemente reconhecido.

Que a educação para tal uso é, contudo, muito limitada e foi acessível, em geral, apenas a gerações mais novas que, com os meios informáticos, se habituaram a lidar desde muito cedo, é também uma realidade.

Apesar disso, a expansão da informatização dos serviços e o uso dos meios informáticos cresce diariamente e hoje é já muito difícil imaginar viver sem eles.

Contudo, não podemos esquecer também a realidade nacional e o nível de escolarização de uma grande parte da população mais idosa do país.

Também eles são cidadãos.

Para muitos, o uso das plataformas informáticas e o acesso aos serviços por via informática constitui, na verdade, um pesadelo real, isolando-os ainda mais da sociedade e dificultando o exercício efetivo dos seus direitos.

Aquando das minhas dificuldades com a desconexão do meu computador tive, ainda assim, a possibilidade de contar com o apoio de um conjunto de técnicos credenciados.

Apesar disso, não deixei de me enervar e maldizer todo o sistema que me obrigou a passar horas infindas em frente de um ecrã, ensaiando, com os técnicos, múltiplas tentativas de resolução dos problemas criados.

Imagino, pois, o que sucederá com muitos cidadãos da minha idade que não podem ter qualquer possibilidade de apoio personalizado para resolver as suas dificuldades na utilização dos sites a que são obrigados a recorrer.   

Ora, foi exatamente neles e na maneira de solucionar as suas dificuldades que pensei quando este meu recente problema aconteceu neste verão atípico.

Num momento em que o desemprego aflige tantos jovens com formação informática, não seria possível, no âmbito das freguesias, criar uma espécie de curador dos cidadãos com dificuldades de acesso aos serviços informatizados?

Um curador – como que um médico de família -  responsável por um conjunto de cidadãos previamente identificados e que os ajudasse a resolver os seus problemas de acesso aos serviços de todo o tipo: fiscais, jurídicos, sanitários, registrais, etc.

Tal solução ajudaria, por certo, os mais velhos, proporcionaria trabalho remunerado aos mais novos, facilitaria a informatização dos serviços e, de algum modo, poderia, até, ajudar a repovoar o interior com jovens qualificados.

Nada, afinal, de verdadeiramente novo: quem não se lembra do papel benévolo dos carteiros de outrora a ler as cartas dirigidas a destinatários analfabetos?    

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