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Waldemar Bastos. Morreu um dos maiores músicos da língua portuguesa

Waldemar Bastos. Morreu um dos maiores músicos da língua portuguesa

Diogo Vaz Pinto 10/08/2020 21:13

Como um embondeiro exuberante com as raízes fundas nas tradições da música tradicional angolana, a copa do trabalho de Waldemar Bastos via-se em todo o mundo.

Tinha seis anos e foi de assobio que fez saber que o rádio lhe mexia com o mecanismo interno. A mãe foi a testemunha. Também ela cantava por casa um desses concertos infindos que encostam aos dias, tomando-lhes o pulso, e deu-se conta que o filho além de ouvido tinha extensão. O pai tocava órgão e violoncelo, instrumentos a que o miúdo se chegava sempre que podia. Chegado o Natal, ofereceram-lhe um acordeão, e isso bastou para que Waldemar Bastos fosse descobrindo por si as notas, como quem afaga algum torso maestoso. Isto foi ainda em São Salvador do Congo, hoje M’Banza Congo, uma zona rural de Angola, onde o músico nasceu. Seis décadas depois, morre um dos músicos lusófonos com maior expressão internacional. Foi na madrugada desta segunda-feira, em Lisboa, onde vivia, estando há um ano em tratamentos oncológicos. Casado, o músico deixa dois filhos.

Pouco depois de os pais saberem que Waldemar preferia o recreio musical para fugir daquela vida apagada que impunha o regime colonial português, o casal de enfermeiros viu-se enviado para Cabinda, e foi então o filho começou a ter aulas com um professor. Não era só ele, o irmão também quis, e outros dois miúdos compunham essa pequena classe. Mas Waldemar tinha o privilégio de não precisar de grandes estudos nem de memorizar. Ao passo que os outros marravam, ele só precisava que a pauta lhe fosse dada ao ouvido para a saber de cor. E, uma vez que as pautas tinham de vir de barco, encomendadas em Portugal, o professor lembrou-se de aproveitar os dotes do aluno, que as tocava no violão enquanto o professor capturava as notas no papel.

Numa entrevista que deu ao “Diário de Notícias”, em 2016, Waldemar reconhecia que este fora o dom que Deus lhe deu e a partir do qual foi puxando um destino, empenhado menos em ser um artista comercial, do que em transmitir aquela confiança da verdadeira beleza, que aparece como “uma centelha da pátria celestial”. Nesses dias, estava a fazer uma inversão, retornando à graça singela do violão, preparando-se para gravar um disco acústico, isto depois de ter dado a volta ao mundo, elevando pelo caminho a música tradicional angolana como repertório digno de ser tocado pela orquestra sinfónica de Londres ou pela Orquestra Gulbenkian. Waldemar recordava-se então como tinha começado em Cabinda em conjuntos de baile e grupos de rock. Foi o mais longe que podia – “dei a volta ao meu sonho musical”, reconhecia ele. “Agora regressei à fonte, ao violão, tenho mais maturidade e consigo transmitir de uma forma mais profunda e orgânica a minha alma”. O músico descrevia a sua alma como “atlântica”, e definia a sua sonoridade como afro-luso-atlântica. Sendo angolano, depois de, na década de 1980, ter abandonado uma das delegações culturais do seu país, as quais, após a independência, em 1975, viajavam por diversos países do bloco soviético, o músico foi para a Alemanha Federal antes de ir viver para o Brasil. Foi aí que gravou o seu primeiro disco de estúdio, em 1983, “Estamos Juntos”, tendo contado com a ajuda de Chico Buarque, que conhecera no projecto Kalunga, e que também surge entre os artistas convidados, juntamente com Jacques Morenlenbaum, no álbum que logo seria um marco. 

Naquela entrevista, Waldemar fazia questão de relevar na sua identidade a mestiçagem, que começava pela cultura portuguesa, pelo lado paterno, e a africana do lado materno, com influências de música clássica, dos ritmos que o foram impressionando no Brasil e depois quando, em meados dos anos 1980, se radicou em Portugal. Naquela revisitação que estava a fazer, destacava ainda a influência dos blues, do jazz e alguma sensibilidade pop. Galardoado com o prémio de New Artist of the Year nos World Music Awards em 1999, o músico acabou por bater de frente com o regime de José Eduardo dos Santos, acusando-o de perseguição por estes se recusar a dar-lhe o seu apoio. "Foram poucas ou nenhumas as vezes em que me deixaram cantar no meu país", alegou em 2016 no Facebook, acrescentando que se sentia vigiado "todos os dias, palmo a palmo, pela polícia secreta e "bufos" ao serviço do regime no poder em Angola". Questionado sobre se lhe era permitido visitar o país, respondeu que sim, mas que persistia um “ódio de estimação”, que expulsava quem quer que não correspondesse à imagem que a ditadura queria passar, dentro e fora do país. “O importante agora é ter uma música sensual, para dançar, e romântica e criar um núcleo de artistas que fazem parte da corte. Lá e alguns deles postos cá.”

Antes ainda das eleições legislativas de 2017, que elegeram João Lourenço e puseram fim ao reinado da família dos Santos, Waldemar acreditava na mudança, e embora deixasse claro que não tinha quaisquer ambições políticas, incluía-se entre “a geração dos que ajudámos à libertação, e depois fomos coarctados”. O motivo de esperança prendia, para o música, com a própria natureza daquele continente e das suas gentes, que acabariam sempre por desejar viver em liberdade. “África é portentosa, Angola é portentosa, basta olhar para a selva, para a natureza, os rios caudalosos, as montanhas, a selva do Maiombe, a vegetação, os animais. Angola é aquilo que se chama África em força - elefantes, leões, tigres. Não é possível derrubar um embondeiro, ele fica com as suas raízes. Felizmente, nós, cantores da alma, não deixámos morrer isso, e ainda mais agora com as novas tecnologias.”

A partir do momento em que houve sinais de abertura no regime, a relação de Waldemar com as autoridades melhorou, e, em 2018, com a atribuição do Prémio Nacional de Cultura e Artes, a ele e a Bonga, foram vistos como uma tentativa de sanar as velhas feridas com os nomes mais significativos da cultura angolana e que o antecessor de João Lourenço tinha irradiado.

Retomando o fio às mais de quatro décadas da carreira de Waldemar Bastos que o consagraram como um dos mais destacados intérpretes lusófonos no plano da “world music”, depois do álbum da estreia, o seguinte, gravado já em Portugal, surge quase uma década depois, em 1989, e é uma carta de amor para o seu país: “Angola Minha Namorada”. Nas explorações sucessivas que foi experimentando, o músico insistia que o traço que tudo unia era a sinceridade da sua busca. Em entrevista ao Público, deixava claro que não estava interessado em participar na lógica de produção de uma cultura de consumo: “Não me meti na música com ânsia de fazer discos e aparecer na capa dos mesmos. Meti-me na música pelo encontro com o belo. Não consigo fazer nada em cima do joelho, gosto de burilar as coisas com tempo, por isso demorei sempre seis ou sete anos a lançar novos discos. O meu tempo de maturação é esse. Quero apresentar trabalhos de forma sincera, com preocupação pelos detalhes. Quando uma pessoa tem isso como verdade para si própria, os outros acabarão por sentir.”

Em 1995, seis anos depois do anterior registo, surgiu a oportunidade de gravar para o selo de David Byrne, a Luaka Bop, que lançou no mercado o disco “Afropea – Telling Stories to the Sea”, uma antologia onde o nome de Waldemar Bastos surge ao lado de Bonga, Cesária Évora e Dany Silva, entre outros. E dois anos depois, a mesma editora lança “Pretaluz” [Blacklight], disco registado em Nova Iorque e que foi produzido por Arto Lindsay, o qual fez de Waldemar um valor firmado no plano internacional com o The New York Times a considerar o álbum “um dos melhores discos de world music da década”.

Em Portugal, Waldemar foi uma presença sempre bastante discreta. Em 2001, foi o único musico não português a cantar nas homenagens a Amália Rodrigues, por ocasião da transladação do corpo para o Panteão Nacional, sendo a sua admiração pela fadista reciprocada por ela, e tendo os dois chegado a manter alguma convivência. Waldemar alegrava-se com os sinais de continuidade, à medida que as novas gerações se desembaraçavam de certos preconceitos provincianos, mostrando apreço e até reverência pelo legado musical dele e de outros músicos da mesma safra. E, no entanto, preocupava-o a “siatuação de lacuna” que via em Angola, notando na já referida entrevista ao “Público” que “os artistas que eram detentores da, chamemos-lhe assim, alma Angolana, e que transportavam todo esse legado foram mortos no 27 de Maio [em 1977]. Aí abriu-se uma grande lacuna e as gerações seguintes ficaram órfãs. Foi aí que se introduziu no país a música da Martinica – que acabará por originar bem mais tarde a kizomba – tornando-se quase hegemónica, numa acção que não parece ter sido inocente. A esse propósito, um dia, em conversa com um empregado de mesa, tive um diálogo revelador em que ele às tantas dizia a propósito da maior parte da música que se ouvia em Angola: a gente dança-a, mas não a sente”.

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