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Miguel. “Não somos os únicos a saber o que custa perder em casa”

Miguel. “Não somos os únicos a saber o que custa perder em casa”

DR Afonso de Melo 10/08/2020 21:45

Esteve presente em dois Campeonatos da Europa: 2004 e 2008. No primeiro ia marcando na final, logo no início, e saiu lesionado. 

Já instalado no posto de defesa direito, depois de ter passado umas épocas lá mais na frente, a extremo, Miguel surgiu nos convocados de Luiz Felipe Scolari para o Euro 2004 como jogador do Benfica. Quatro anos mais tarde, no Europeu da Áustria-Suíça era jogador do Valência. Entretanto, jogou igualmente, o Mundial da Alemanha em 2006. Era, basicamente, um dos indispensáveis do selecionador brasileiro que chegou a Portugal como campeão do Mundo e, nos dois anos que se seguiram, levou a seleção nacional à final do Campeonato daEuropa e à meia-final doCampeonato do Mundo, numa sucessão de resultados que nunca se repetiram durante a história da equipa que leva ao peito os cinco escudos azuis da Batalha de Ourique.

 

Logo no início do jogo daquela desgraçada final contra a Grécia falhaste a baliza por um triz. Um lance pela direita. Fugiste a toda a gente e remataste rasteiro. Podia ter sido outra história não é?

Podia e devia ter sido outra história... Foi por pouco, mas enfim. Acho que nós merecíamos outro desfecho. Mais: o país inteiro merecia outro fim de festa!

 

Ainda por cima, passado pouco tempo, saíste lesionado. Uma costela partida, salvo erro. Foi frustrante? (Bem, não foi assim tão pouco tempo como isso. Miguel recebeu um golpe duro no tórax, aguentou-se como pôde e durante o tempo que pôde, e sairia aos 43 minutos, substituído por Paulo Ferreira, logo quando estava a ser um dos elementos mais desequilibradores do conjunto).

Foi. Foi mesmo muito frustrante para mim. Mas acho que a frustração não se resumiu a nível pessoal. Foi também uma frustração a nível coletivo...


Porquê?

Porque me sentia bem e achava que podia ajudar e muito! Estava num momento muito bom, tinha liberdade para atacar. Mas, enfim, faz parte futebol. É isso mesmo. Somos habituados a lidar com situações como esta.


Havia coisas muito bonitas naquela equipa. Uma delas era que no banco, como teu suplente, estava um bom amigo, o Paulo Ferreira. Verdade?

Absolutamente! O Paulo Ferreira é uma das pessoas mais incríveis que conheço... Somos amigos desde os nossos 15 ou 16 anos e sempre tivemos uma excelente relação. Pouco importava se lutávamos pelo mesmo lugar. A nossa amizade está muito para além disso.


Disseste-lhe alguma coisa quando ele entrou para o teu lugar?

Olha, se queres que seja sincero, penso que lhe desejei sorte e pouco mais. A verdade é que estava com dores insuportáveis.


Como viste o resto do jogo, do lado de fora?

Daquela forma sempre muito complicada de se ver um jogo desde fora. É muita adrenalina, sofremos muito mais... É absolutamente horrível. Preferia estar lá dentro a fazer o que mais gosto. Ainda por cima sentindo que tudo me poderia ter corrido bem.


Que sentes ainda por dentro em relação a essa final perdida?

Até hoje sinto uma enorme mágoa por não termos conseguido aquele título tão merecido e tão importante para todos nós, jogadores e adeptos. Uma tristeza profunda. Mas... que fazer? Olhar para o futuro. A vida continua! Bola para a frente!


Que significou para ti esse Campeonato da Europa?

Foi um dos momentos mais lindos da minha vida! Representar a nossa seleção num grande evento, ainda por cima realizado em Portugal!!! Bufff... não há palavras que cheguem para descrever o que senti naquele momento. 


Qual o momento mais bonito que viveste ao serviço da seleção nacional? Sabes dizer um?

Sinceramente, amigo, é difícil. Vivi tantos! Mas acho que os momentos mais bonitos foram os que passei junto daquele grupo fantástico de 2004 a 2006, em Portugal e na Alemanha! Tínhamos um grupo muito unido, muito amigo, éramos muito fortes... Os jogos entre Portugal e Holanda nas meias finais do 2004, emAlvalade, e depois o Portugal-Holanda de 2006, em Nuremberga, marcaram-me muito! Inesquecíveis!


O Euro-2004 mudou a tua vida de alguma forma?

Claro que sim! Sem qualquer dúvida! Foi então que comecei a acreditar mais nas minhas capacidades e a mentalizar-me que a minha posição definitivamente seria lateral-direito... Fez-me crescer muito como pessoa e como atleta, felizmente!


Afinal, o que é que nos faltou para ganhar a maldita final contra a Grécia?

Na minha opinião, sorte e nada mais... É certo, e não vou negá-lo, que foi um jogo menos conseguido da nossa parte, sobretudo se comparado com alguns dos anteriores. Mas fomos, sem dúvida, a melhor equipa em campo! Tivemos oportunidades mais do que suficientes para virar o resultado. Mas, nem sempre quem joga melhor ganha. É uma frase gasta do futebol mas ao mesmo tempo uma realidade que ficou demonstrada nesse jogo...


Durante esse Europeu, sentiste mais alegrias ou a frustração apagou essas alegrias?

De maneira nenhuma! Nem pensar nisso! Tive muito mais alegrias, graças a Deus! Foi um mês extraordinário e muito feliz!


Consegues dizer-me o momento que mais te marcou?

Não amigo, houve tantos. Não sou capaz de descrever nenhum em especial. Tudo naquele Europeu marcou a minha vida!


Ainda consegues ver alguns desses jogos na televisão, agora que já se passaram dezasseis anos?

Consigo, sim. Mas confesso sem problemas: o único que não gosto de ver e não vi na totalidade até agora é o da final. Há qualquer coisa que me impede de estar a reviver aquela tristeza...


Durante a tua vida normal do dia-a-dia, ainda há gente que te aborda na rua para falar desse tempo fantástico de 2004?

Não tenhas dúvidas! Muita gente! E eu fico-lhes sinceramente agradecido por se lembrarem desses dias maravilhosos. O problema é que, em seguida, também me põem a pensar mais uma vez naquela final perdida e vem uma tristeza por dentro...


Sentiste que, de alguma forma, a vitória de Portugal sobre a França na final do Europeu de 2016 serviu de compensação para essa tristeza de que falas?

Com toda a sinceridade, não posso dizer isso... Quando falamos de 2016 temos de reconhecer que o mérito é todo dessa geração de jogadores, da equipa técnica, dos dirigentes e do resto do staff que conseguiu um momento único. Obviamente estive presente nessa final e fiquei muito contente com o desfecho desse jogo! Vendo bem, não somos os únicos a saber o que é perder uma final no nosso país perante o nosso público...

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