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Euro-1996. O Cavalo Negro e o dia em que o futebol regressou a casa...

Euro-1996. O Cavalo Negro e o dia em que o futebol regressou a casa...

UEFA Afonso de Melo 10/08/2020 17:58

Trinta anos após a saga dos Magriços de 1966, Portugal estava em Inglaterra como “outsider”. O sonho que Poborski estilhaçou...

Algo de cabalístico pairava no ar nesse momento de fazer as malas. Era o número.O seis. Era o lugar. A Inglaterra. A saga dos Magriços no Campeonato do Mundo de 1966 ainda é, quer se queira quer não, o momento mais alto da selecção nacional. Sim, bem sei que houve a final de 2004, e a meia-final de 2006 (outra vez o diacho do seis), segunda das nossas duas únicas presenças em meias-finais de Mundiais, e houve a vitória do Stade de France em 2016 (e o seis continua a soar-me nos ouvidos como um chamado de feiticeira de Ivan Lins), título de campeão daEuropa e tudo e tudo. Mas não há nada para comparar, dizia outro cantor brasileiro, Roberto Carlos. Não há nada para comparar entre um Campeonato doMundo e um Campeonato da Europa, entre o gigantismo do primeiro e aquele jeito de nos sentirmos sempre em casa, no segundo. Eu, que estive em cinco Mundiais e seis Europeus, não tenho dúvidas nem nunca terei, embora sejam precisamente os Europeus que aqui me trazem neste ano em que deveria estar na Hungria e na Alemanha, para começar, e fiquei em casa, como ficámos todos, desarmados e vulneráveis perante esse mal que se entranhou em nós como um fedor, deixando-nos cada vez mais longe uns dos outros.

Por todo lado se cantava a música dos The Lightning Seeds, Frank Skinner e David Baddiel: “It’s coming home/It’s coming home/It’s coming/Football’s coming home/Three Lions on a shirt/Jules Rimet still gleaming/Thirty years of hurt/Never stopped me dreaming...” A Inglaterra que sonhava com um título para juntar ao único que ganhou até hoje, Portugal com a sua equipa de moços que se espalhavam pelas grandes equipas da Europa, Rui Costa, Figo, Paulo Sousa, Fernando Couto, e mais João Pinto e Sá Pinto, porque o seleccionador António Oliveira sentia que podia enganar mais facilmente os adversários sem ter um ponta-de-lança fixo, a estreia frenteà Dinamarca, em Sheffield, em Hillsborough, local da tragédia de Abril de 1989, 96 mortos, um futebol encantador. Chamavam-nos o Black Horse, o Cavalo Negro, aquele em quem ninguém aposta mas tem tudo para surpreender e ganhar a corrida. Não ganhámos. Como a Inglaterra não ganhou.

 

Viagens contínuas 

Depois dos jogos de Portugal, emSheffield, em Nottingham e em Birmigham, onde no Villa Park, um tal de Poborski se escapuliu a Oceano antes de fazer aquela espécie de chapéu a VítorBaía (que durante oEuropeu assinou pelo Barcelona), eu partia na febre de outros jogos, sobretudo os jogos de Inglaterra, todos em Wembley, frente à Suíça (que era treinada porArtur Jorge), à Escócia, à Holanda, à Espanha e à Alemanha, vencedora sensaborona à custa de desempates por grandes penalidades e de uma bizantinice chamada Golo de Ouro que servia para derrotar equipas ainda cheias de chama por via de um mero golpe de sorte ou de azar.

Sempre gostei de seguir a Inglaterra por todas as competições em que trabalhei, até nos Mundialitos, que eram aqueles torneios quadrangulares que serviam para, um ano antes, experimentar e afinar a organização dos Campeonatos do Mundo e da Europa, como sucedeu em 1995, em Inglaterra, e em 1997, em França. Vi uma espécie de duende diabólico chamado Gazza, Paul Gascoigne, marcar à Escócia um golo irrepetível, de uma beleza estonteante, bola de repente por sobre a cabeça de um adversário e o remate imediato mal a lei de Newton a mandou descer do lugar para onde subira com a certeza de que matéria atrai matéria na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distâncias. Ouvi Wembley cantar em coro numa fé inabalável de que a taça voltaria a ficar em casa, trinta anos mais tarde: "It’s coming home/It’s coming home/It’s coming/Football’s coming home..." E Wembley que ainda é Wembley mas já deixou de ser Wembley continuará para sempre dependurada na parede branca da sala das minhas mais ternas memórias.

Portugal partiu nessa tarde de Birmingham preso a insuficiências insanáveis, ainda no tempo de ter mais jogo do que golo. Partiu com a promessa de António Oliveira de que iríamos ser campeões do mundo daí a dois anos e nem estivemos em França em 1998. Partiu depois de dobrar a cerviz a um homem extraordinário, Miroslav Blazevic, fanfarrão como poucos, “trener svih trenera” dos croatas, treinador dos treinadores, Boban, Suker, Mario Stanic, Alen Boksic, Prosinecki, Jarni, Vlaovic, esses sim quase, quase campeões do mundo em França, ainda assim longe da convicção do seu técnico de que formavam a melhor equipa do universo.

O futebol voltou a casa mas não ficou. Não ficou sequer a imagem de um grande Europeu, táticas demasiado amarradas, empates em exagero. Rod Stewart foi ao centro do relvado de Wembley cantar Flower of Scotland, mas a Escócia foi para esquecer. Pelé, a meu lado, na tribuna de imprensa, lamentava-se: “Nunca joguei em Wembley. Ficou a ser a maior falha da minha carreira!” Portugal também não chegou a Wembley, como trinta anos antes. Deixava no ar uma promessa de que viriam aí tempos novos pejados de gente nova. Seria preciso esperar mais quatro anos. Na final, os ingleses estavam do lado dos checos. Ver alemães ganhar a taça em casa fez-lhes pior ao fígado do que uma garrafa de rum.

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