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Juve Stabia. O voo cadente das vespas de Castellammare

Juve Stabia. O voo cadente das vespas de Castellammare

DR Afonso de Melo 06/08/2020 22:12

No fim da tabela da Serie B do campeonato italiano, outra Juventus (agora apenas chamada Juve) é a antítese da equipa de Cristiano Ronaldo. Numa terra de paixão pelo futebol, continua perdida em problemas atrás de problemas.

No calcio há uma Juve – diminutivo de Juventus – campeã a caminhar para o infinito, já com nove scudetti consecutivos e sem que se veja fim para um poder tão prepotente, e uma Juve só Juve, que já foi Juventus também, de nome orgulhosamente próprio, hoje por hoje caída para o desconforto da Serie C. Desconforto é como quem diz. Afinal, estamos a falar de um grupo que nunca passou da cepa torta, para usar a expressão popularucha que vai de Alfandega da Fé a São Paio de Gramaços. Não deixa, por isso, de ter uma história curiosa ao longo da qual vale a pena viajar. 

Castellammare di Stabia, uma das áreas metropolitanas de Nápoles, debruçada sobre a beleza azul do golfo e com o perfil do Vesúvio desenhado no horizonte. Em 1907, dois irmãos apaixonados pelo jogo dos ingleses, Romano e Pauzano Weiss, trataram de fundar um clube: Stabia Sporting Club. Momento histórico! Era o primeiro clube de futebol a nascer no sul de Itália. Em breve, os seus jogadores estavam em campo. Para defrontar aqueles que vieram depois, seguindo o seu exemplo: o Torre d’Anunziata, o Nápoles iii (o Nápoles de agora só surgiu em 1926) e os ingleses do Black Prince. 

A guerra Só após o final da Grande Guerra é que o total amadorismo do clube sofreu um abalo. Depois de ter estado à beira de subir à Serie B, o clube foi comprado por uma famosa personagem de Nápoles, o advogado Bonifacio, que promoveu a fusão com os vizinhos do Sport Club War, passando a chamar-se Football Club Stabiese. Torna-se uma pequena potência regional, conta com uma estrela de brilho cintilante, Romeo Menti, que seria contratado pelo Torino e morreria na tragédia de Superga, e acabará por ser a SocietàSportiva Juventus Stabia. Outra Juventus, tão, tão longe da de Turim em todos os aspetos.

Em 1951, em Florença, a Juventus Stabia vive a alegria incontida de vencer um playoff frente aoFoggia e assegurar a subida à Serie B. Atingira o momento mais alto da sua existência. Durou pouco. Dois anos mais tarde estava de regresso à terceira divisão e viu-se envolvida numa crise económica que a ameaçava seriamente de extinção. Ainda havia mais fundo para onde cair. A Serie D engoliu a Juventus na época a seguir. Os adeptos arrancavam os cabelos de desespero. Sempre fiéis, sempre guerreiros, entravam numa fase de desistência e o Estádio de San Marco ia ficando cada vez mais vazio.

A vida dos pequenos clubes como a Juve Stabia está sempre mais pejada de momentos difíceis do que de momentos gloriosos. Esta época, uma terrível fase de campeonato obrigou a um novo tombo, classificada em 19.o lugar num conjunto de 20 clubes, apenas à frente do Livorno, com 41 pontos em 38 jogos. “Arrivederci!” é a palavra certa no momento certo. Veremos para quando será o regresso à Serie B.

Mas já houve pior, acreditem.

Durante o ano de 2001, Castellammare não teve equipa. A Juventus Stabia, que em 1996 alterou o nome para Associazione Calcio Juve Stabia, num daqueles arremedos pouco corretos de declarar falência e escapar às dívidas para, logo em seguida, abrir nova organização sem cadastro financeiro, estava tão nas lonas que não conseguiu encontrar condições para inscrever a sua equipa nos campeonatos nacionais. Os azuis e amarelos, cores que adotou desde o tempo dos irmãos Weiss, as cores, afinal, de Castellammare diStabia, recuperaram alguma energia e voltaram a lutar pelas subidas. Na época passada foi já com a corda na garganta que evitaram a despromoção, graças a uma vitória na última jornada sobre aVibonese (2-1). Mas os sinais eram claros e ninguém se surpreendeu com esta nova descida à Serie C.

As vespas de Castellammare podem viver inquietas, mas picam muito pouco. Por muito agressiva que pareça a bichinha no emblema no qual se apõe a uma bola de futebol, num traçado bastante confuso, está presa na armadilha de erros administrativos contínuos e destrutivos.

A velhaJuventus do Sul está a anos-luz da sua homónima do Norte. Apesar de ter nascido e sido criada numa região de Itália onde o futebol se torna uma manifestação quase religiosa. “Stabia va in vantaggio esplode lo stadio/ Vivo per questi colori che porto nel cuor/ Quando scenderai in campo sarò sempre al tuo fianco/ Onore a questa maglia gloriosa che porto nel cuor”, cantavam os tifosi. Agora, pouco mais lhes resta do que um silêncio triste... 

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