23/9/20
 
 
Carlos Gouveia Martins 06/08/2020
Carlos Gouveia Martins

opinião@ionline.pt

Criativos, integradores e práticos. É isso, Senhores Líderes

Todos escrevem, dizem e reiteram em discursos que “vivemos uma nova-normalidade”; que “o mundo mudou” e ainda o chavão de que “não estávamos preparados para isto, tudo será diferente”.

Como os quase oito mil milhões de habitantes deste planeta: Concordo com essas verdades de La Palice. Aliás, não tenho a mais pequena dúvida de que nada será como foi até inícios de 2020. Exceto a maioria dos dirigentes políticos.

E, se tudo mudou, como se diz e repetem todos, porque não muda a forma de pensar e de se fazer política também? Porque continua uma larga globalidade generalista a criticar “por criticar” como se estivesse em 2019? Porque se diz “uma mão cheia de nada” só para o soundbite ou para a capa de jornal? Porque se escreve tanto – com ajuda das redes sociais – sem nada se propor?

Falta criatividade para responder com soluções e é mais fácil manter-se o facilitismo da crítica vazia, do número mediático em torno dos “drinks” da cultura sem dar solução aos milhares que com ou sem descontar estão sem um euro mês após mês.

Difícil é sustentar o porquê de se mudar o “Normal-antigo” e pensar-se numa forma criativa em como os processos de revisão dos PDM’s devem incorporar esta nova sociedade, como devem ter já estratégias de mobilidade integrada e aposta numa mobilidade suave. Difícil é ter criatividade neste país e pensar em como os benefícios fiscais podem servir de fator estratégico na resposta aos desafios para os gestores de empresas que, por vezes, devido a alguma falta de conhecimento ou atenção sobre apoios existentes através dos benefícios fiscais, não lhes permitem otimizar e reduzir a carga fiscal que é em Portugal muito alta. É estas soluções, mais difíceis que soundbites, que os portugueses procuram. Com criatividade.

A criatividade não é dom adquirido. Não é fator indissociável a quem está na causa pública, infelizmente. Alguns têm, porém, a larga maioria dos “de hoje”, não tem.

Mas foquemo-nos nos que têm criatividade. Sempre foi, na história, através desses que foi possível efetuar a mudança. Em tempos de necessidade, como os que vivemos, precisamos ainda mais da criatividade e capacidade de inventar soluções de quem lidera.

A criatividade tem o poder de espalhar a tolerância, de defender a liberdade, de fazer com que pequenas ideias pareçam a “última bolacha do pacote” no ranking das excelentes ideias. A criatividade pode tornar políticos elegíveis da mesma forma que transforma partidos inelegíveis.

Com criatividade, pode-se fazer um confronto passar de uma tragédia a uma simples farsa ou vice-versa. A criatividade, para quem a tem, põe frases feitas nas nossas bocas, do “all you need is love” ao “yes we can”, sem nos apercebermos.

A criatividade individual de quem lidera – em época de escassez de líderes - é uma necessidade total para fazer frente à dificuldade económica que se avista com o vírus SARS-CoV-2 a andar por cá.

A criatividade pode servir de “cola” para as ideias boas, mas, nestas fases, é fundamental sobretudo para percebermos o que funciona. O que pode alterar o rumo da história. O que pode servir de solução.

Mais importante que a teoria socialista ou a tese capitalista, será sobretudo a “teoria do que funciona”. É fundamental termos uma geração capaz de, mantendo bons e meritórios argumentos ideológicos, ser uma geração e uma sociedade prática: decidir o que funciona adaptado a cada caso.

Não é perder o norte ideológico. É ganhar noção da realidade.

Não temos de ver só se determinada solução se encaixa no perfil socialista ou capitalista. Isso é muito curto. Até há coisas no ultrapassado comunismo que podem ter mérito, e não custa a quem está a anos-luz dessa mesma ideologia, como estou, referir que Castro conseguiu montar um país com total acesso à saúde para toda a população ou ainda vermos que a esperança média de vida em Cuba é igual que no país vizinho e poderoso, os EUA. Os demagogos poderão já criticar e dizer que a economia em Cuba parece que parou na década de 50? Verdade. Mas mesmo um relógio parado dá horas certas duas vezes ao dia.

Temos de ser práticos e ver como se atinge objetivos. Em épocas de necessidade, é esse o foco, o prático é superior ao teórico.

Há os que defendem o mercado livre sem intervenção do Estado. Há os que entendem que o Estado tem de ser “Pai” de tudo e “Mãe” de todos. Há os que olham para a produção nacional como solução. Há os que vêm o futuro assente meramente na Inovação privada de multinacionais. Há os fãs das Liberdades individuais. Há os que só têm olhos para a iniciativa privada a funcionar, acreditando que é por aqui que se cresce e criar emprego. Há os que veem fora da caixa e pensam já, como na Escócia ou Nova Zelândia, na felicidade das pessoas como complemento ao PIB.

Mas, sobretudo, em pleno 2020 no “Novo-Normal”, o caminho de hoje pode nem sempre ser só a duas cores como “branco” ou “preto”. Pode ser “depende”. Depende dos problemas sociais que queremos resolver. Depende do território que estamos a avaliar. Depende da capacidade de resposta e do tempo que existe. E isso talvez seja, neste “novo-normal”, a normalidade de caminho para alcançarmos um maior sucesso para cada sociedade em particular e para o mundo, em geral, que precisa de se reerguer de forma estratégica e estrutural.

Vivemos numa fase em que é fundamental incluir, agregar e aproveitar cada vantagem que haja. Unir a parte social, a moralidade, a cultura social e a ética, assim como as comunidades, a iniciativa privada, mas também o Estado. Tudo junto, creio, é a única resposta possível para haver estabilidade.

Só com criatividade, capacidade de “ser-se prático” nas soluções e com desprendimento de siglas ou cargos é que será possível criar novas soluções para o que vivemos hoje. Só sendo criativos é que vamos escrever páginas totalmente em branco de como se ultrapassar uma Pandemia que paralisou os cinco continentes. Só com líderes que inovem é que vamos resolver o que nos deixa e deixará a COVID-19.

A coerência de pensamento não deixa de existir. Há quem acredite, onde me incluo, que o capitalismo foi a maior força motriz deste planeta e tem a supremacia absoluta desde 1989 quando o comunismo entrou em declínio após cerca de setenta anos de domínio sociopolítico. De facto, a queda do Muro de Berlim a 9 de novembro de 1989 catapultou o capitalismo na história. Uma história de oportunidades, de liberdades e que fez prosperar e inventar este mundo que hoje conhecemos. Um mundo assente na iniciativa privada, que privilegia quem toma o risco de criar e inventar, aqueles que envolvem e incubam ideias para a melhoria de onde o público já não chega, para incluir e evitar o que segrega, para potenciar a qualidade da prestação de cuidados de saúde em detrimento apenas de limitações ideológicas de esquerda. Um mundo capitalista que pressupõe um sistema jurídico-constitucional baseado na propriedade privada, nos contratos e no Estado de direito. “Só” isto.

A criação de oportunidades prende-se com a inclusão e não com a exclusão. Para se defender um modelo económico capitalista não se tem de ser objetivamente “anti” todos os demais modelos, do socialismo ao comunismo. Para se defender A não se tem de ser Anti-B. Pode-se entender o estudo do economista francês Thomas Piketty em que assume a ideia de que a desigualdade irá agravar-se de forma inevitável no contexto de mercado livre. Mas, defendendo o capitalismo, podemos entender ainda que o economista britânico John Maynard Keynes tenha questionado se o capitalismo alguma vez poderia beneficiar todos, assumindo que “O Capitalismo é a extraordinária crença de que os piores dos homens, motivados pelos piores dos propósitos, trabalharão, de alguma forma, em benefício de todos”. Mas, e do lado oposto, podemos ver como Churchill defendia que o capitalismo era claramente melhor que o socialismo, quando disse inclusive que “o vício inerente ao capitalismo é a distribuição desigual de benesses; a virtude inerente ao socialismo é a distribuição por igual das misérias”. Esclarecedor. Esclarecedor e vindo de um líder a quem podemos dizer que, no seu conjunto todo político do seu país, a política externa britânica desde a sua época de 1940 tem sido meramente “acrescentos a Churchill”. Alguém que antecipou os nossos atuais dilemas nos seus discursos, com décadas de avanço. Alguém que hoje debateria facilmente como agregar, como fez no seu país em plena Grande Guerra, para se chegar à melhor solução.

Barack Obama, no outro lado do Atlântico, e mais recentemente, numa clara e arrojada forma de pensar criativamente no sentido de agregar, defendia o célebre “Can work together” entre as várias ideologias. Não é dono da razão, nem é mais que outro alguém, mas é mais um líder que também pensa desta forma. Da forma que vê e sente que há matérias sociais e garantias fundamentais embora o capitalismo seja aquilo que tornou, na sua ideia, o seu país como sendo o único capaz de ser considerado “a terra das oportunidades”.

A criatividade, a forma de se ser prático e ver onde está a solução primeiro e até onde vai a ideologia depois, deve ser o caminho para se chegar às respostas que 2020 nos trouxe em forma de pergunta pandémica.

Saber que 2020 nunca aconteceu. Que a solução não virá de respostas já feitas nem de meras guerrilhas ideológicas numa fase em que todos contam.

Saibam os nossos líderes ter a criatividade, a estratégia e a visão que os meramente moldados às siglas e aos partidos tardam em ter.

Carlos Gouveia Martins

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