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Beirute. Uma cidade assombrada por rumores entre o desespero da tragédia

Beirute. Uma cidade assombrada por rumores entre o desespero da tragédia

AFP João Campos Rodrigues 06/08/2020 08:38

Enquanto se apuram as causas da colossal tragédia no porto de Beirute, que se estima ser a maior explosão não nuclear da História, talvez com um décimo da potência da bomba de Hiroxima, muitos libaneses mostram o melhor de si. Uma enfermeira salvou três recém-nascidos, logo após colegas seus perecerem, e muitos abrem a porta a estranhos desalojados.

Beirute conhece bem o estrondo das explosões, os gritos dos feridos, o choro pelos mortos, o desespero de quem procura pelos seus familiares entre os escombros, mas nunca viu algo assim. A catástrofe que se sucedeu esta terça-feira à tarde foi atribuídas pelas autoridades libanesas a 2,7 mil toneladas de nitrato de amónio – um material utilizado como fertilizante ou para fabrico de bombas – armazenadas há anos. Podem ter sido apreendidas num navio moldavo, o Rhosus, propriedade de um empresário russo, que em 2014 teve problemas mecânicos em Beirute a caminho de Moçambique, avançou a AP. A explosão – que se estima ter sido a maior explosão não nuclear da História, com aproximadamente 10% da potência da bomba de Hiroxima – praticamente apagou do mapa o porto, devastando os bairros nos arredores e danificando edifícios por toda a cidade. Estão já contabilizados cerca de 4 mil feridos e mais de uma centena de mortos, mas muitos outros continuam desaparecidos, talvez ainda debaixo dos escombros. Perto de 300 mil pessoas terão ficado desalojadas.

Numa cidade assombrada pelos fantasmas da guerra civil libanesa (1975-1990), as ruas enchem-se de rumores quanto às causas do desastre. “Estamos amaldiçoados”, disse ao Guardian um jovem com uns 20 anos, que sangrava profusamente de um corte no pulso. No Líbano, onde a instabilidade faz parte da vida, há milícias fortemente armadas por todo o lado e várias confissões religiosas – sunitas, xiitas, cristãos maronitas e drusos – dividem desconfortavelmente o poder, esta catástrofe pode ser apenas o início da tragédia. “Mesmo que isto tenha sido um acidente, era a última coisa que podia acontecer”, continuou a vítima.

Nunca há boa altura para um desastre, mas esta é particularmente má. Não só são tempos de pandemia de covid-19, como o país enfrenta a pior crise económica da sua história recente, estava à beira da escassez de alimentos e com as tensões políticas em alta: um tribunal apoiado pela ONU anunciou que na sexta-feira iria revelar o seu veredicto quanto a quatro membros do Hezbollah – um grupo extremista xiita, principal apoiante do atual Governo – acusados do assassinato à bomba do antigo primeiro-ministro sunita Rafik Hariri, em 2005.

Alguns salientam que há muito que o Hezbollah é acusado de usar o porto de Beirute para contrabandear armamento. Outros lembram uma série de misteriosas explosões no ano passado, em depósitos de armas das milicias xiitas iraquianas, parte da rede de alianças do Irão, à semelhança do Hezbollah – à época, dirigentes israelitas admitiram estar por trás do sucedido. Mais recentemente, entre junho e julho, explodiram uma série de instalações militares iranianas, incluindo uma fábrica de rockets perto de Teerão e um centro de desenvolvimento nuclear em Natanz: também envolveram mão israelita, contaram altos funcionários norte-americanos ao New York Times. “A estratégia americo-israelita está a evoluir – alguns argumentam que está a regredir – para uma série de ataques clandestinos que se aproximam de atos de guerra”, escreveu o jornal.

Imediatamente após tragédia em Beirute, Telavive apressou-se a negar ter algo a ver com o assunto, oferecendo até ajuda humanitária. Mas nem todos acreditaram. “Há suspeitas”, revelou um oficial libanês de alta patente, anonimamente, ao Washington Post. Afinal, nas últimas semanas, drones e aviões israelitas têm sido observados com mais frequência a sobrevoar a cidade. “Mas não haverá nenhuma conclusão até que haja uma investigação completa”, salientou.

O próprio Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, relatou que os seus generais pensavam que o desastre fora resultado de um ataque, uma bomba – foi rapidamente desmentido pelos seu Departamento de Defesa. E mesmo que o hipotético alvo fosse armamento do Hezbollah no porto de Beirute, a milícia xiita provavelmente não o admitiria. “Alguns media e políticos aproveitaram-se para exigir ‘proteção internacional’ sobre o Líbano, o que levaria ao desarmamento dentro do Líbano”, queixa-se um artigo de opinião no canal libanês Al-Mayadeen. Entretanto, as autoridades já se movimentam para colocar sob prisão domiciliária todos os responsáveis do porto de Beirute, avançou a Al Jazeera. Durante todo o dia, no Twitter, um hashtag que se traduz como “pendurem os nós de forca” esteve entre os mais populares no Líbano.

“Ou algo no porto explodiu por si mesmo ou foi um alvo”, resumiu ao Guardian Riyadh Haddad, morador do bairro de Gemmayze, conhecido pela sua vibrante vida noturna e um dos mais próximos da explosão. Hoje, é um mar de escombros, carros virados ao contrário, prédios transformados em pilhas de betão e metal. “Olha para isto. Como é que recuperamos?”, questionou Haddad, apontando para a sua casa devastada. “Não há dinheiro, trabalho, energia, combustível. E agora isto. Vai ser um toque de despertar ou vai haver guerra?”.

 

Heroísmo em tempos sombrios

A maré de feridos que sobreviveu à explosão, deparou-se com pelo menos quatro hospitais tão danificados que não os puderam receber: profissionais de saúde, desesperados, tiveram de tratar os seus pacientes em parques de estacionamento, numa altura em que já faltavam os recursos médicos mais básicos e a pandemia de covid-19 acelerava no Líbano.

No meio do pandemónio, não faltaram atos de heroísmo. Uma enfermeira do hospital de São Jorge – onde morreram pelo menos 12 pacientes, dois visitantes e quatro enfermeiras – resgatou três recém-nascidos, entre estilhaços das janelas, antes que ruísse o teto da unidade. Foi fotografada com os três bebés nos braços e o telefone encostado ao pescoço, enquanto pedia ajuda.

“Foram 16 anos de fotojornalismo e muitas guerras. Não posso dizer que alguma vez tenha visto o que vi hoje”, escreveu nas redes sociais Bilal Jawich, que captou a cena. “Notei na calma da enfermeira, que contrastava com o que a rodeava”, acrescentou à CNN. “Parecia que ele tinha uma força escondida, que lhe deu o autocontrolo e a capacidade para salvar estas crianças. As pessoas destacam-se nestas circunstâncias violentas e sombrias”.
Não foi caso único. Desde os socorristas que resgataram um jovem que ficou soterrado durante mais de dez horas, entre aplausos e gritos de apoio, até à mulher filmada a aspirar a casa quando se deu a explosão, que se atirou sobre uma menina para a escudar com o próprio corpo. Muitos libaneses mostraram o melhor de si, numa altura em que há tantos desalojados, muitos deles obrigados a depender da bondade de familiares, amigos, vizinhos ou até de estranhos. “A nossa casa está aberta a todos os que não têm abrigo”, lia-se num do muitos posts que inundaram a página Open Houses Lebanoun, criada esta quarta-feira no Instagram. 

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