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Consultores da DGS insistem que regra deve ser testar todos os contactos de alto risco

Consultores da DGS insistem que regra deve ser testar todos os contactos de alto risco

Mafalda Gomes Marta F. Reis 05/08/2020 09:30

Subdiretor-geral da Saúde defendeu esta semana que nova norma de rastreios é clara. António Diniz, pneumologista e um dos consultores da DGS que contestam que não seja regra testar todas as pessoas que tiveram contacto próximo com alguém infetado, mantém a posição. “A norma é tudo menos clara”, diz ao i. 

 

Devem ser testadas, por regra, todas as pessoas que têm um contacto próximo e considerado de alto risco com alguém infetado com covid-19 ou em alguns casos é suficiente o isolamento? O novo subdiretor-geral da Saúde, Rui Portugal, defendeu esta semana que a recente norma sobre rastreios de contactos, que deixa a decisão a cargo da avaliação da autoridade de saúde, ou seja, dos médicos que avaliam cada caso, é “clara e os médicos percebem claramente uma norma neste sentido”. António Diniz, pneumologista e um dos consultores da Direção-Geral da Saúde que contestaram formalmente o articulado da norma junto da DGS, mantém a posição e considera que é um erro a atual estratégia porque, mesmo que as pessoas fiquem em isolamento, se estiverem infetadas podem ter tido contacto com terceiros que, desta forma, poderão escapar ao sistema de vigilância. 

O tema não é consensual entre os médicos e, depois da contestação da ordem, a Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública defendeu já a norma, que dá autonomia aos médicos na decisão, considerando que não há uma alteração no que tem sido feito até aqui e que o facto de a norma não impor a obrigatoriedade de testar não implica que poderão vir a fazer-se menos testes, como argumenta a ordem. António Diniz e Filipe Froes, também consultor da DGS e coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos, já solicitaram, no entanto, mais uma vez à DGS que o articulado seja revisto, defendendo que a regra não ser testar todos os contactos próximos não está devidamente fundamentada.

Ao i, António Diniz insiste que, com o atual articulado, existe o risco de deixar escapar da vigilância outras pessoas que poderão ter sido infetadas e que, mesmo assintomáticas, podem continuar a propagar o vírus, e considera, por isso, um erro a estratégia. “A nossa posição é que, ao contrário do que está escrito na norma, nos contactos de alto risco deve ser realizado o teste laboratorial molecular, ressalvando-se depois que pode haver situações excecionais, avaliadas pelas autoridades de saúde, que excluam a realização do teste. Mas a regra deve ser fazer, e a exceção não fazer.”

O médico, antigo coordenador do Programa Nacional para a Infeção VIH/Sida, ilustra a preocupação com um exemplo: no caso de um coabitante de alguém diagnosticado com covid-19, se se tratar de uma pessoa que, por algum motivo, já estava mais em casa e não saía, por exemplo, para trabalhar – portanto não tinha uma rede de contactos próximos –, pode não se justificar fazer o teste. No entanto, se se tratar de alguém que ia trabalhar e tinha uma rede de contactos, ficar apenas em isolamento sem fazer o teste significará que, caso esteja também infetada, ainda que sem sintomas, não seja determinado o isolamento e eventual rastreio à sua rede de contactos próximos. “Neste momento, a regra é tudo menos clara, porque está sujeita a diferentes interpretações. Tomámos posição porque, para nós, isto é relativamente simples. É verdade que alguns países não o fazem, por exemplo, o Reino Unido, mas a Austrália e a Irlanda recomendam o teste a todos os contactos de alto risco”.

“Teste é um ato médico” 

Na conferência de imprensa desta segunda-feira, o secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, e Rui Portugal recusaram que a nova norma leve a uma redução dos testes ou altere a política de testagem do país. O subdiretor-geral da Saúde defendeu que o teste é um ato médico que deve ser avaliado caso a caso pelos médicos, de resto, como em qualquer patologia, explicando alguns critérios que podem pesar na hora de decidir ou não prescrever um teste a um contacto de alto risco, como a profissão (um profissional de saúde comporta maior risco) ou o meio socioeconómico, exemplificando que em meios menos privilegiados, em que há maior dificuldade de garantir o afastamento, pode justificar-se o teste, sendo depois necessário avaliar qual o momento mais indicado para o fazer. “Não pensamos que seja boa prática que uma pessoa que esteja a coabitar com alguém que seja positivo tenha de ir a correr fazer o teste imediatamente a seguir. O que é preciso é estar confinada. Até porque é preciso garantir que o transporte para o teste é feito em segurança, porque não sabemos se a pessoa pode ou não contagiar”, explicou. “Tudo neste momento conta, sobretudo quando começamos a ter, felizmente, números mais baixos e todas estas variações vão ser mais notadas”, concluiu.

Numa entrevista ao SOL, o médico, que desde junho liderou o gabinete de crise de resposta à covid-19 em Lisboa, já tinha defendido, no entanto, a visão de que estão a ser feitos alguns testes sem critério no país, como se se fosse beber um sumo, sem utilidade para quebrar cadeias de transmissão, que prejudicam a imagem externa do país. “Se eu testar todos os coabitantes, se todos forem positivos, todos os dias tenho 100 novos casos. Em termos de corte de transmissão, é inútil. E, com isso, não tenho voos dos ingleses a vir”.

Também ao Expresso afirmou que a norma poderia levar a uma imagem menos catastrofista da situação no país. António Diniz defende que o timing para a realização do teste pode ser discutido, mas contesta que não exista a definição de que a regra deve ser testar e que se associe ao debate o argumento da imagem externa do país. O médico admite também que se pode debater a questão de haver testes a ser realizados sem prescrição médica, mas defende que são temas distintos. “O facto de haver pessoas a fazer testes sem ser por indicação médica é outra situação que se pode discutir, mas não invalida o que dizemos. É juntar tudo no mesmo bolo. Também se pode discutir quando deve ser feito o teste, se é só um ou vários, mas, na nossa perspetiva, todos os contactos de alto risco. Pode haver exceções e quem deve tomar a posição é a autoridade de saúde, através de uma avaliação fundamentada. Não querem pôr isso na norma por causa da imagem do país, como se a imagem do país não saísse debilitada por, daqui a uns tempos, podermos ter uma situação pior ou se se começar a ver que se fazem menos testes”, diz.

Segundo o último relatório semanal do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC), publicado no domingo, Portugal manteve-se, na última semana, o sexto país europeu com mais testes por 100 mil habitantes, atrás de Luxemburgo, Dinamarca, Chipre, Áustria e Irlanda. O gráfico no site do ECDC mostra uma ligeira redução (ver gráfico) depois de semanas em que houve uma tendência crescente de testes, mas o país continua no patamar dos 900 testes semanais por cada 100 mil habitantes. A DGS indicou ao i que no mês de julho foram 431 178 testes à covid-19, 215 437 no SNS (2,6% positivos), 184 145 em laboratórios privados com convenção com o Estado (6,0% positivos) e 31 596 na academia (2,1% positivos). Foram, assim, quase meio milhão de testes num mês, quando só a meio de junho o país passou a barreira do milhão de análises feitas desde o início da pandemia. Em junho tinham sido feitos 352 mil testes.

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