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Itália. Cem golos no campeonato? Nem 69 anos depois!

Itália. Cem golos no campeonato? Nem 69 anos depois!

Afonso de Melo 04/08/2020 14:35

A Atalanta ficou a dois golos de entrar para a história dos marcadores centenários.Foram três – Milan, Inter e Juventus –, todos na mesma época de 1950-51.

Foi por pouco, mesmo por muito pouco. AAtalanta – a mais interessante de todas as equipas do calcio, nesta opinião pessoalíssima e, portanto, discutível – esteve à beirinha de dois momentos únicos. O primeiro, mais íntimo, se assim lhe quisermos chamar: na última jornada, em Bérgamo, frente ao Inter, perdeu por 0-2 e deixou fugir um segundo lugar na Serie A que nunca houvera conhecido. O segundo, mais histórico: com a impressionante marca de 98 golos marcados no campeonato de Itália, ficou a apenas dois da mítica marca dos 100. Tão mítica, aliás, que só foi ultrapassada por três vezes e todas, vejam lá, na mesma época, a de 1950-51. Formidável!

Há uma frase com o seu quê de bíblico que se aplica ao futebol: “Primeiro era o golo; depois vieram os italianos!” Ao fim de séculos, ainda há quem os amaldiçoe mais as suas táticas fechadas: o catenaccio, que não passou de um plágio do ferrolho suíço de Karl Rappan, o líbero, os confrontos cobardes no qual aproveitam os erros alheios como sanguessugas vorazes, os anos e anos a fio em que influenciaram de tal forma o association que o golo se tornou uma raridade ao valor do próprio ouro.

Ainda hoje, multiplicando-se as décadas, a grande maioria dos jogos de Itália são maçadores e, tirando os aspetos técnicos, bolem com a paciência de um Job. Por isso, quando a Atalanta Bergamasca Calcio, conduzida por Gian Pero Gasperini, deitou às malvas o medo de sofrer golos e desatou a jogar um futebol ofensivo como poucos – marcou nada menos do que mais 17 golos que o Inter e 22 que a Juventus –, percebemos que havia algo de novo no calcio. E não apenas, porque os rapazes de Bérgamo estarão em breve em Lisboa para defrontar o Paris Saint-Germain nos quartos-de-final da Liga dos Campeões, com ambições legítimas de irem mais longe.

 

Viagem no tempo

À medida que a Atalanta ia marcando golos atrás de golos e se aproximava do número mágico dos 100, foi tempo de recordar quantas vezes tal proeza tinha sido realizada no Campeonato de Itália. E a resposta não deixa de ser extraordinária e um tudo-nada confusa: três em um. Isto é, já houve três clubes capazes de ultrapassar a centena de golos – no caso, Milan, Inter e Juventus, os inevitáveis três gigantes –, mas fizeram-no exatamente na mesma época, a de 1950-51. Convenhamos que tem muito de surpreendente e uma dose muito razoável de cabalismo, não é?

Nesse ano, o Milan terminou a prova em primeiro lugar, colou o scudetto nas camisolas e atingiu um número recorde de 107 golos apontados em 38 jornadas. Sessenta pontos, provenientes de 26 vitórias e oito empates (com quatro derrotas, que essas não valem pontos), serviram por um triz para bater o grande rival Inter sobre a meta – Inter esse que também não se deixou ficar muito para trás (somou 59 pontos), mas atingiu a brutalidade idêntica de 107 golos marcados. A Juventus, terceira, a cinco pontos do Inter, também ultrapassou a tal mítica barreira dos 100, com 103 golos marcados. Poucos campeonatos italianos foram tão produtivos como esse, para não dizer nenhum.

Ajudava, e muito, a categoria dos jogadores de ataque que todos os três possuíam. No Milan, o capocannoniere era um sueco chamado Gunnar Nordhal que, só à sua conta, assinou 30 golos. No Inter, a estrela era um húngaro, István Neyers, que marcou 30 também. Mais abaixo, o juventino dinamarquês Karl Aage Hansen sagrou-se terceiro na lista dos marcadores, com 24 golos.

Mas não eram só eles, muito longe disso. No campeão Milan havia ainda gente como Carlo Annovazzi (18 golos), Nils Liedholm (13), Renzo Burini (13) ou Gunnar Gren (9), que contribuíram para goleadas homéricas como 9-0 ao Palermo, 9-2 ao Novara, 7-2 aoComo e 7-4 aoAtalanta. O Inter possuía o holandês Faas Wilkes (23 golos) e Benito Lorenzi (21), que formavam um trio assassino com Hansen. Que o digam a Roma (6-0), o Pro Patria (6-0) e a Udinese (6-0). A mais atrasadaJuventus tinha outros dois dinamarqueses, Jon Hansen (20 golos) e Karl Aega Praest (15), além de Gianpero Boniperti (22). Não chegaram. As duas derrotas frente ao Inter (0-2 e 0-3) e o empate e derrota contra oMilan (1-1 e 0-2) condenaram a Velha Senhora a cair para o terceiro posto. Mas a época de 1950-51 ficou para sempre na memória dos adeptos. Por ser aquela em que os grandes de Itália desprezaram de vez a maldição dos 100 golos marcados que aAtalanta esteve vai não vai para repetir este ano... E bem merecia tê-lo feito para prémio do seu futebol apaixonante.

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