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“Não é linear que com esta norma se passe a testar menos”

“Não é linear que com esta norma se passe a testar menos”

Marta F. Reis 03/08/2020 10:26

Presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública defende nova norma, mas aponta falhas na testagem. 

A nova norma da Direção Geral de Saúde sobre o rastreio de contactos de pessoas infetadas com covid-19 gerou este fim de semana críticas da comunidade médica. Para Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, neste momento são mais preocupantes os casos de pessoas com sintomas de covid-19 a quem não está a ser feito o teste, defendendo que no caso dos rastreios de contactos os médicos de saúde pública devem ter autonomia na avaliação, como preconiza a norma.

Ao i, o médico diz que a associação tem tido conhecimento de casos em que o SNS24 não encaminha pessoas com sintomatologia de covid-19 para os locais de atendimento médico ou testes, o que contraria os procedimentos para os casos suspeitos. “São situações de que temos conhecimento amiúde. Se temos conhecimento de casos, seguramente haverá mais”.  Sobre a nova norma, que está a gerar críticas por não determinar a obrigatoriedade de testes a todos os contactos de alto risco com alguém infetado, Ricardo Mexia diz não acompanhar os receios da Ordem dos Médicos e de colegas como Filipe Froes e António Diniz, que admitem que podem ficar casos por despistar e comprometer-se a quebra de cadeias de infeção. A DGS negou este fim de semana, após notícia do Expresso, que o país vá reduzir testes, considerando que, como até aqui, a realização de testes depende da avaliação de risco da autoridade de saúde. Ao mesmo jornal, o responsável do gabinete de crise de covid-19 em Lisboa, entretanto nomeado subdiretor-geral da Saúde, dizia no entanto que esta norma levará a uma visão menos catastrofista do país. Em entrevista ao SOL, Rui Portugal já tinha defendido também a visão de que estão a fazer-se testes sem fundamentação em termos de saúde pública, nomeadamente a cohabitantes de infetados, considerando que os testes feitos como se fossem “beber um sumo” prejudicam a imagem externa do país. 

Para Ricardo Mexia, a norma corresponde ao trabalho de avaliação que é feito pelos médicos de saúde pública, admitindo no entanto que o argumento da imagem do país usado por Rui Portugal “fragiliza” o que devia ser uma posição estritamente técnica, aliás como a realização ou não dos testes.  “Não é esse o argumento, mas duvido que haja algum médico de saúde pública que defenda o contrário, é uma questão de autonomia técnica. O argumentário de que isto vai fazer com que se teste menos não é verdade, porque não havia norma antes. O que agora há é uma orientação e os médicos de saúde pública são técnicos diferenciados na sua área para fazer essa avaliação. Eu também não digo como se devem tratar pneumonias nos hospitais. Na nossa prática não mudou nada de substantivo e não é linear que com esta norma se passe a testar menos nem mais, porque é o que já era feito”, diz.

O que está então em causa? 

“Se for contacto de alto risco com vantagem do ponto de vista clínico ou epidemiológico testar, por exemplo uma pessoa que esteve com muitas outras pessoas ou tem uma atividade que não vai cumprir a quarentena, deverá fazer o teste para saber se está positivo ou não. Outra situação é um indivíduo de 70 anos, que do ponto de vista clínico pode ter indicação por estar em maior risco”, exemplifica o médico. Um caso diferente será de um jovem saudável, assintomático, que tem de ficar na mesma em isolamento 14 dias, explica.

Este domingo registaram-se 153 novos casos de covid-19 no país e mais uma vítima mortal. Apesar da diminuição dos casos, houve um aumento expressivo nos contactos em vigilância, mais 487 do que no dia anterior, sendo agora 36 148. Questionada sobre este aumento pouco habitual num dia em que os novos casos diminuíram, a DGS esclareceu que a maior variação aconteceu na Madeira. “Tem havido um incremento de casos, mas foi sobretudo porque foram atualizados alguns dados na vigilância”, referiu.

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