25/11/20
 
 
António Galamba 03/08/2020
António Galamba

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Os vidrinhos

Quem alimentou a escalada foi quem viu no modelo uma oportunidade de ganhar audiências, de agitar polémicas e de manter uma constante tensão latente que dividia os adeptos. 

Vai por aí grande comoção em alguns setores com o fim dos programas televisivos com gladiadores desportivos a propósito do futebol, sendo maior a indignação de alguns vidrinhos a norte, verdadeiros catalisadores da degradação verbal, do olha para o que eu digo e não para o que eu faço e de outros exercícios de efetivo condicionamento com longa história e maior proveito.

O problema é que o vitrinismo, da execução das montras televisivas, e o “vidrinismo” dos alegados indignados criaram, alimentaram e viveram da criação agora enjeitada: os programas de debate em torno do futebol. Quem alimentou a escalada foi quem viu no modelo uma oportunidade de ganhar audiências, de agitar polémicas e de manter uma constante tensão latente que dividia os adeptos entre os que defendiam a resposta à letra e os que sustentavam o alheamento da prática, num impulso acabrunhado. Não pode agora o diretor de informação da Impresa e da SIC vir armado em sonso imputar a terceiros a criação e o resultado da criação quando é um dos representantes dos criadores. Os vitrinistas televisivos destes programas, como os que alimentam novelas, rumores e afins em relação à vida dos clubes e dos mercados de transferências, não olham a meios para entreter, atrair públicos e vender os seus conteúdos. Até que se chega a momentos de rutura e sacodem a água do capote. O exercício televisivo, como outros comportamentos na órbita do futebol, estava em divergência com a relevância económica e social do espetáculo, mas perdurou demasiado tempo – aliás, em linha com a permissividade da federação, da liga e das autoridades com práticas que evidenciam haver complacência com a aplicação diferenciada das normas entre o Sul e o Norte. 
E depois há os dos vidrinhos. Diziam que o Benfica tinha cartilhas, mas é no Porto Canal que emerge a comoção pelo fim da exposição dos seus manequins televisivos, alguns dragões de ouro por serviço à toxicidade, em sustentação das narrativas estratégicas das diretas às indiretas, como aconteceu com o produto truncado do cibercrime – aliás, nascido na seletividade de expor e disponibilizar a norte informação comercial e até médica dos profissionais e de uma sociedade desportiva concorrente cotada em bolsa. Pois é, reduzir a exposição televisiva ao canal do clube pago com o dinheiro de munícipes da envolvente não será a mesma coisa, mas é da vida.

Os vidrinhos a norte, indignados com a falta de posto dos apaniguados do seu clube, viveram e geram um contexto de ilusão, de toxicidade e de construção de uma perceção de que a sul estavam os que mandavam em tudo e os outros eram uns coitadinhos. Mas quem invadiu um centro de treino de árbitros sem que houvesse consequência, quem insultou titulares de órgãos de soberania em tarjas no estádio, com multas ridículas, quem divulgou o alegado produto do maior ciberataque ocorrido em Portugal a um clube e quem condiciona o normal pulsar do funcionamento da justiça, ao ponto de serem centralizadas investigações que a descentralização não permite por ser um queijo suíço? Os de sempre, da mão invisível e do guarda Abel.

Emergem vidrinhos com voragem enquanto se assiste ao esforço de branqueamento de um cibercriminoso pelo sistema judicial português, só porque resolveu manter uma colaboração seletiva com as autoridades e disponibilizar conteúdos dos seus ataques ilegais e criminosos decorrentes de violações de direitos, liberdades e garantias. E tudo isto acontece enquanto pontos do sistema nacional de saúde sofreram ataques informáticos em plena pandemia e se discutem com invulgar zelo as preocupações sobre a utilização de uma aplicação para rastrear os possíveis contactos com pessoas infetadas por covid-19. É pedir a um cibercriminoso que ele trata disso e o sistema judicial, depois, perdoa.
Há muita leviandade e oportunismo dos vidrinhos. É gente que tenta a sua sorte junto dos incautos. Pode ser que pegue. Apostam numa espécie de maniqueísmo de geometria variável em que uns são os bons e os outros os maus, em que o senso e o Estado de direito acabam por ser coisas acessórias quando convém.

Há vidrinhos a norte, mas também a sul, onde a ânsia do “vidrinismo” clubista de colocar protagonistas, egos e protagonismos na montra alterna o bota-abaixo sem memória com o esforço de colagem à história não participada, em que o alinhamento com as narrativas externas e os processos erradica a presunção de inocência e o vale-tudo tende a instalar-se, numa prática que diverge da narrativa para se aproximar do modus operandi de outras latitudes. Olha para o que eu digo…

A sociedade com memória e sentido de futuro convive bem com os vidrinhos e com o “vidrinismo”. Faz a triagem, dá-lhes luta e faz a opções ponderadas que se impõem. É assim na vida, será assim nos clubes, nas televisões e nas empresas. Ter sorte dá muito trabalho mas, mesmo com muito trabalho, nem sempre se tem sorte. Infelizmente, aos vitrinistas e aos das montras, sem trabalho, pouco mais lhes sobra do que lhes vão mudando as roupagens, circunstância após circunstância, até que sejam trocados por outros manequins.

 

NOTAS FINAIS

MONTRA EM EXECUÇÃO // Um dos principais desafios no horizonte será o de sustentar políticas de mitigação dos impactos económicos e sociais até que o dinheiro de Bruxelas chegue, com brutal redução da receita e inversa brutalidade da despesa. E, depois, ter capacidade de executar e fazê-lo bem, sem truques de mobilizar obra já feita e com os olhos postos na capacidade multiplicadora dos investimentos.

PROMOÇÕES // Há negócios de fast-food, há negócios com avenças jurídicas e há negócios de rádios falidas mas, num país como Portugal, com a nossa dimensão e riqueza, há quem ache que se pode gerir um clube de futebol sem fazer negócios e sem ter um sentido empresarial, enquanto se resgata para o universo do património do clube e dos sócios a propriedade do estádio e a televisão. São alternativas “nunca me engano e raramente tenho dúvidas”, desmentidas pela realidade das vidas.

RECLAME // As crises que tivemos nas últimas décadas não resultaram em fenómenos extremos de desespero individual, mas o acumular de situações, de desmandos de abuso de poderes – em especial, o regabofe no sistema bancário – e as incontornáveis projeções da pandemia na vida das pessoas terão certamente implicações mais radicais e extremas. Há muita tensão acumulada que tende a ser exteriorizada sem brandos costumes.


Escreve à segunda-feira


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