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A Flor da Felicidade. "Não acredito que nos conheçamos uns aos outros"

A Flor da Felicidade. "Não acredito que nos conheçamos uns aos outros"

31/07/2020 21:55

No universo do mais recente filme da austríaca Jessica Hausner, uma flor geneticamente modificada por uma cientista propaga um vírus que força seres humanos a um estado de felicidade constante. Será que a queremos?

A felicidade é um labirinto. Um labirinto de verdades, como seremos todos, seres humanos. “Existirá algo como a verdadeira personalidade de uma pessoa? Qual é a nossa verdadeira personalidade? Fingimos o tempo todo, vivemos cheios de sonhos, desempenhamos diferentes papéis”. Para aqui chegar, a este lugar em que a verdade final será aquela que cada um quiser tomar, consciente (hiperconsciente) de que haverá outras, juntou a cineasta austríaca Jessica Hausner a personagem de uma mulher, Alice (Emily Beecham) — mãe às voltas com a culpa que carrega por pretender ao mesmo tempo ser uma cientista dedicada, uma cientista concentrada na criação de uma nova flor geneticamente modificada — com a hipótese de um vírus que, penetrando no organismo de um ser humano, o fizesse feliz. Daí ao título com que chegou esta quinta-feira às salas de cinema nacionais será um passo: “A Flor da Felicidade”. Na versão original, é “Little Joe” esta que é a sua sexta longa-metragem. Joe é também o nome do seu filho, interpretado por Kit Connor, e mais não será preciso dizer para que se perceba a teia em que afinal a felicidade, o que ela seja, se move. A isto junte-se o vírus, aquele com que agora vivemos, com o qual Hausner não sonhava quando no ano passado estreou “A Flor da Felicidade” em Cannes. Nem nós quando, no outono passado, no último Leffest, onde o filme teve a sua primeira exibição em Portugal, nos sentámos com ela para esta conversa.

 

No final do filme, está muito presente esta ideia de que talvez a felicidade tenha a ver com deixar algumas coisas ir, aceitar. “A Flor da Felicidade” leva-nos a questionarmo-nos sobre o que será a felicidade: são estas personagens felizes? Poderemos dizer que são felizes sabendo que se trata de um estado induzido por um vírus? Esta flor é criada com o objetivo de fazer as pessoas felizes, elas são infetadas e…
… passam a ser felizes.

 

Exato. Mas ao mesmo tempo questionamo-nos sobre se o que é necessário não é apenas desapegarmo-nos de algumas coisas. 

Sim. Depende de como queremos interpretar o filme. Se quisermos interpretá-lo de um ponto de vista psicológico, essa é uma resposta interessante. Talvez ela tenha entendido algo sobre si própria, talvez a única coisa de que precisasse era deixar ir o seu filho ou os seus sentimentos de culpa. É a interpretação psicológica, que me parece correta. Se quisermos pensar que ela inala o pólen e que é por isso que de repente está feliz com o que tem…

 

… com a vida como ela é.

Sim. Mas o que achei interessante de início, quando comecei a escrever a história do filme, foi o facto de o final ser uma espécie de final feliz. É irónico, claro.


Vejo-o como uma espécie de final feliz possível, a partir desta ideia de felicidade possível. 

É muito sobre isso. Percebemos ao longo do filme que ela carrega sentimentos de culpa por não dar mais atenção suficiente ao filho ao estar tão focada no seu trabalho e no final compreendemos que talvez seja isso que ela quer: focar-se no seu trabalho. Nesse sentido, torna-se a pessoa que sempre quis ser, o que é irónico porque, por outro lado, é a flor que está a mudar as pessoas, que já não são mais elas próprias. É todo um labirinto, que nos leva à verdadeira questão: existirá algo como a verdadeira personalidade de uma pessoa? Qual é a nossa verdadeira personalidade? Fingimos o tempo todo, vivemos cheios de sonhos, desempenhamos diferentes papéis. Não há apenas uma Jessica, isso não existe: sou várias Jessicas.


Essa ideia de labirinto é muito justa. Estamos sempre nele, por todas as interpretações, todas as metáforas para a vida, a felicidade, que podemos encontrar neste filme. Todas as dúvidas e todos os possíveis enganos. Podemos falar sobre essa questão que acaba de levantar, podemos falar sobre como tudo o que fazemos volta para nós, de alguma forma, e pode afetar-nos de formas que não estamos a prever. Porque esta cientista que cria a flor é a dada altura a única não infetada com o vírus, e tem de lidar, consciente, com as consequências da sua criação. Como é que foi sendo construída esta teia?

Há uma história muito específica neste filme e já não me lembro do que surgiu primeiro. Quando estou a escrever um filme há vários pensamentos que me interessam e que vou seguindo. Durante esse processo, vou fazendo pesquisa e pensando sobre diferentes histórias possíveis, e vou mais atrás de umas do que de outras. Ainda assim, posso reduzi-lo a duas ideias que tinha. Por um lado, a protagonista feminina, uma cientista, e isso era um aspeto importante — queria que fosse uma cientista dedicada e ao mesmo tempo mãe, porque não o vejo isto muitas vezes em filmes. Vejo mães e vejo cientistas, não vejo ambas numa personagem, e queria fazer um statement sobre a maternidade. O outro aspeto estava relacionado com a natureza dos corpos. Se pensarmos em questões de identidade, este é um cenário bastante sci-fi: pensarmos que uma pessoa deixa de ser ela própria e que agora a pessoa que está sentada à nossa frente é uma impostora. Esse era outro lado de toda a ideia porque questiona o nosso conceito de nos conhecermos uns aos outros. Não acredito nisso. Achamos que nos conhecemos uns aos outros, mas nunca conhecemos. Descobrimos um dia que o homem que amamos é completamente diferente do que julgávamos, que o filho que temos não tem nada a ver connosco. Estamos sempre a tentar criar laços uns com os outros e constantemente a ser confrontados com o facto de tal não ser totalmente possível, porque cada um vive no seu próprio mundo.


Pegando nessa forma de olhar os filhos, podemos também pensar que esta mulher está a ver o filho crescer e que simplesmente decide substituí-lo por algo que consiga controlar. E está de certa forma a substituí-lo por esta planta a que chama “Little Joe”. E a própria flor acaba, de alguma forma, por assumir esse papel. 
É um ponto de partida interessante dizer que esta mulher cientista adora o seu trabalho. Se falarmos em maternidade, continuamos a fazer uma distinção entre mães e pais: continua a ser suposto a mãe amar a sua criança acima de qualquer outra coisa, enquanto ao pai é permitido pela sociedade amar a sua criança e amar o seu trabalho, se tiver um trabalho. Ser-se pai e ao mesmo tempo um cineasta ou um cientista dedicado está certo; para uma mãe ainda é suposto que os filhos sejam a primeira prioridade na sua vida. Isto é o que estou a questionar. 


A Jessica tem filhos?

Sim, tenho um filho. E quando me tornei mãe deparei-me com este conceito, que me pareceu muito estranho. Estão a usar-se medidas diferentes para mães e para pais e tenho a sensação de que devíamos usar a mesma. Porque os pais, como as mães, amam os seus filhos. E é possível dedicarmo-nos a uma profissão ao mesmo tempo. 


Todos temos direito a ter vida própria. 
Exatamente. Mas isso é o que diz e o que eu digo. Se olharmos à nossa volta, não é isso que vemos acontecer. O que acontece é que as mulheres vivem com a consciência pesada, com sentimentos de culpa. Acho que é uma voz interna que vem do que as pessoas dizem.


Quando idealizou esta personagem, uma mulher cientista, foi imediato que seria uma criadora de plantas?

Isso veio depois. No início era uma personagem feminina que está a inventar qualquer coisa. Chegámos a pensar numa maçã sem sementes, que é uma coisa que gostava que existisse, mas uma maçã tem de ser mordida deliberadamente. Pareceu-me mais elegante esta ideia de uma flor, porque o cheiro é inalado sem que nos apercebamos. E isto era importante para a dramaturgia. 


O facto de ser algo que não está sob o nosso controlo. 

Que podemos nem sequer perceber, que acontece simplesmente. Foi assim que fomos dar à planta. 


E há mais um aspeto, uma camada, se quisermos, de que ainda não falámos: esta planta não consegue reproduzir-se por si.

Bom, isso é feito na manipulação genética. A maior parte das plantas criadas por manipulação genética são inférteis exatamente pelo motivo que a personagem explica no filme: como forma de prevenção, para que as plantas não se propaguem para a natureza. Porque nunca podemos ter a certeza de que não há efeitos negativos. 


Também isso é questionado. E é aberto um espaço para a discussão sobre a legislação em vigor sobre a modificação genética de plantas.

A União Europeia continua a ter regras apertadas para a manipulação genética. Se o virmos desse prisma, a história passa-se provavelmente no futuro. Na Inglaterra dos dias de hoje não seria permitido vender plantas geneticamente manipuladas com hormonas no cheiro. Em países como os Estados Unidos ou a China isso pode ser feito, mas não na Europa. 


O universo visual de “A Flor da Felicidade” é um universo artificial, como esta flor, Little Joe, hipnotizante mas aterradora ao mesmo tempo, por aquilo que sabemos que esconde. Também neste universo, nesta perfeição aparente, há algo de desconfortável.

Tentei criar um universo muito artificial porque as minhas histórias não ambicionam passar-se num lugar ou num tempo específicos. É por isso que tento criar universos que não dos deixam perceber onde ou em que tempo ao certo estamos. Tem muito a ver também com esta ideia de parábola, com estar a tentar contar uma história universal sem grandes ligações a um onde ou quando. 


O objetivo era apenas o de nos deslocar para um lugar, um plano fora do real.

Para um universo surrealista. 


No final, depois de ter perdido tudo — o filho, o homem que ama…

… ela não o perde. 


Perder no sentido em que o “tinha” de início. Mas perde o homem que ama…

… mas eles beijam-se.


Mas até esse momento é estranho, porque nesse ponto não sabemos de que lado está. Se está infetada também ela pelo vírus ou se está simplesmente a fingir. E é depois disso que descobrimos que… é feliz. Assistimos a tudo isto e chegamos ao final sem percebermos o que lhe aconteceu, o que se passou aqui afinal.

Há várias possibilidades de interpretação. Todo o filme é baseado nesta ideia de que há várias verdades, que não há uma verdade única que seja realmente verdade. Toda a ideia foi construir uma história com verdades contraditórias e envolver o espetador num sentido em que continuamos a querer saber. É frustrante, porque não há uma resposta, e o espetador fica a pensar depois de ter estado a seguir uma história em que estava à espera de encontrar uma resposta no final. O filme foi todo construído de forma a expor ambiguidades, verdades paradoxais.


E, neste complexo emaranhado de possibilidades, de caminhos ou de respostas diversa, não se perde. No final podemos, se quisermos, escolher uma resposta, uma verdade — a nossa verdade. Sabemos que pode haver outras, mas agarramo-nos a uma. Como se precisássemos dela.

Chamar-lhes-ia verdades contraditórias. É um universo complicado, sim, mas que ao mesmo tempo é muito simples: conheço realmente a pessoa que está sentada à minha frente?

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