11/8/20
 
 
Manuel J. Guerreiro 31/07/2020
Manuel J. Guerreiro

opinião@ionline.pt

Direita à portuguesa (com ou sem todos)

A direita portuguesa não mais se reencontrou consigo própria, levando o maior partido (PSD) a fazer um acto de negação histórica daquilo que tinha sido esse passado recente e seu legado, saindo dessa discussão interna uma solução claramente oposta e fratricida que “centrou”, para não dizer, “esquerdizou” o seu posicionamento político-ideológico programático.

Não é novidade para ninguém que – tal como vaticinado pelo Sr. Presidente da República, logo imediatamente após as eleições europeias de há pouco mais de um ano – existe, de facto, uma crise na direita política portuguesa. É francamente notório. É absolutamente indisfarçável.

E mais estranho se torna essa evidência, quantos mais partidos apareceram (e tanto quanto sei continuam a aparecer) a disputar essa mesma área política, hegemonicamente dominada durante 46 anos e, por vezes, de forma ambígua por apenas duas forças partidárias e fundadoras do regime constitucional de 1976, às quais se pode juntar, intermitentemente, uma terceira que posteriormente deu origem a uma quarta. Refiro-me, naturalmente, ao Partido Social Democrata (PSD) e ao Centro Democrático Social (CDS) e ao Partido Popular Monárquico (PPM) que esteve na Aliança Democrática (AD) e também no Governo e ao Movimento Partido da Terra (MPT), ambos fundados pelo enorme Gonçalo Ribeiro Teles, arquitecto paisagista e político português pioneiro a colocar na agenda política nacional questões do foro ecológico e ambiental e a quem, aproveito a ocasião, para publicamente homenagear!

Como é evidente, não considero como força política partidária a ter em conta, aquela caricatura de “morto-vivo” que resultou do processo de “vampirização” do Partido Renovador Democrático (PRD).

A direita política portuguesa em sentido amplo, i.e., toda a área não socialista, estava, porquanto, distribuída e representada por estas siglas partidárias. Reformistas e liberais, conservadores e democratas-cristãos, monárquicos e nacionalistas e até mesmo populistas e radicais, andavam todos, mais ou menos, juntos nestes partidos. Em todos eles, com especial enfoque nos dois maiores, havia abundantemente de tudo um pouco. Diferindo assim, entre eles, a predominância liderante de cada corrente ideológica. Mas não nos enganemos se pensarmos que no PSD não havia monárquicos, conservadores e até populistas e nacionalistas juntamente com reformistas, liberais e também social-democratas. O mesmo se pode dizer do CDS, onde liberais sempre conviveram com conservadores e nacionalistas.

Com o fim abrupto e original do Governo de Pedro Passos Coelho e de Paulo Portas – não por qualquer desentendimento na coligação que venceu as eleições legislativas de 2015, mas sim pela acção directa de uma maioria parlamentar conjuntural que se uniu em torno desse grande desígnio e objectivo político – a direita portuguesa não mais se reencontrou consigo própria, levando o maior partido (PSD) a fazer um acto de negação histórica daquilo que tinha sido esse passado recente e seu legado, saindo dessa discussão interna uma solução claramente oposta e fratricida que “centrou”, para não dizer, “esquerdizou” o seu posicionamento político-ideológico programático, aproximando-se vertiginosamente do seu principal adversário e pondo seriamente em risco a viabilidade futura da própria alternância democrática, pelo menos com a configuração tradicionalmente reconhecida pelos eleitores.

Daqui resultou uma cisão que deu origem a várias novas formações políticas e partidárias. Diria mesmo que todos os novos partidos de direita que têm vindo a surgir nos últimos tempos, têm uma inegável ligação umbilical ao velho PPD/PSD.

E desses novos partidos e movimentos políticos oriundos de sectores próximos, muito próximos ou extremamente próximos do PSD, há também uma clara e inequívoca referência comum a todos eles que se reveste da maior importância política, ideológica e programática: nenhum reclama a social-democracia como seu farol identitário!

Assumem-se, como é natural, uns mais do que outros numas coisas e menos noutras e vice-versa, “personalistas”, “reformistas”, “liberais” e “solidários”, ou até mesmo, no caso de um deles em particular, “conservador”, “nacionalista” e radicalmente “anti-sistema”, apesar de eu achar que tudo isso é muito mais coreografia do que ideologia, resumindo-se toda a sua razão de existir e consequente acção política concreta a uma só palavrinha: populismo!

Seja como for, esta é a realidade da direita à portuguesa (com ou sem todos).

Acresce, porém, que tal como na vida, a política prossegue o seu caminho e, apesar dos regulares estudos de opinião, barómetros e sondagens valerem o que valem, a verdade é que são reveladores de uma tendência de realidade que se tornará efectiva se nada, entretanto, for feito ou alterado.

Nesta dialética haverá, pois, quem ganhe muito e quem ganhe pouco com essa trajectória tendencial e haverá, certamente, quem perca, talvez, de forma definitiva e irreversível. E nesse sentido, creio ser urgente clarificar ideias, conceitos, programas e objectivos, com vista a se poder convergir - tanto quanto possível - de forma identitária, unindo esforços, acrescentando valor, consolidando crescimento e afirmação política traduzidos por um maior reconhecimento e adesão popular como nunca ocorreu, à direita, em Portugal. Sendo esta, aliás, uma oportunidade única que não deve nem pode, de maneira alguma, ser desperdiçada. De resto, será em função desse resultado que se aferirão como positivas e, nesse caso, úteis, ou negativas e, então, desastrosas, todas as fracturas expostas a que a direita democrática portuguesa se auto-submeteu.

As próximas eleições presidenciais, não tendo especial importância para coisa alguma além do escrupuloso cumprimento do calendário democrático e constitucional, serão, contudo, uma excelente oportunidade para se pôr em prática um primeiro exercício do que acabo de referir…      

Jurista.
Escreve de acordo com a antiga ortografia.          

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