19/10/20
 
 
José Paulo do Carmo 31/07/2020
José Paulo do Carmo

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Alice no País das Maravilhas

Um presente envenenado, quando podiam, ao invés, aproveitar esta oportunidade única para legislar sobre o horário das atividades noturnas e para reformar toda a política do entretenimento. Mas não, é mais fácil fechar os olhos. Enquanto isto as festas ilegais continuam, as casas de férias pejadas de miúdos a criar o pânico e a estragar o descanso dos outros são uma realidade.

 

Há cerca de 25 anos os meus Pais tomaram a decisão de trocar as agitadas férias de verão num hotel em frente à praia, em Espanha, pela tranquilidade de um aldeamento pacato e recatado no Algarve. Tenho a impressão de que este ano foi a primeira vez que não viram vantagens na troca. Com o encerramento das discotecas e bares, grupos volumosos de miúdos (que por norma ocupam casas e apartamentos ultrapassando 3 ou 4 vezes a sua lotação para ser mais barato e para ficarem todos juntos) e que antigamente passavam as suas férias a dançar noite após noite são agora “obrigados” a fazer as suas festas em casa. Como a falta de noção é apanágio da juventude, gritam, riem e ouvem música aos altos berros como se não existissem vizinhos e a vida acabasse amanhã.

Isto veio alterar todas as dinâmicas familiares e não falta quem se queixe do fim do sossego, numa altura em que o Governo se predispôs finalmente a legislar sobre o regresso dos espaços de diversão noturna. Pelo que dizem, os mesmos poderão abrir desde que cumpram horários e regras de um qualquer café ou pastelaria. Até as 20h, enquanto os restaurantes aumentam o seu horário até às 24h. Volto a perguntar: será que o vírus usa relógio? Agora o tal novo normal leva-nos para um pastel de nata e um galão (que nem sequer é o Miguel...) numa discoteca, no máximo até às 20h, para depois de forma ordeira e regrada então, sim, irmos jantar a um sítio sem confusões como uma qualquer casa de prostituição... cof cof, peço desculpa, restaurante. Alguns deles tão cumpridores que até têm quartos privados para comer a sobremesa.
Assim vai o país do faz de conta. Onde António Costa faz do Coelho Branco do relógio. Como diz, e bem, António Barreto numa entrevista recente: “Na dimensão da política da imagem, do efémero, Costa é um grande executante”. Tudo o que traz popularidade dá para uma fotografia, seja a F1 ou os ventiladores vindos da China. Tudo o que não dá, encosta-se a um canto. Agora, para que o empecilho pare de chatear, deixam-se abrir estes espaços com a publicidade de um gradual regresso à normalidade que não fará mais do que atirar para cima dos aflitos empresários ainda mais custos e despesas. Estou para saber quem vai pagar a conta no fim. Sim, porque muitos dos que estão e vão abrir insolvência deixam dívidas noutros que até se estariam a aguentar, criando um efeito dominó.

Um presente envenenado, quando podiam, ao invés, aproveitar esta oportunidade única para legislar sobre o horário das atividades noturnas e para reformar toda a política do entretenimento. Mas não, é mais fácil fechar os olhos. Enquanto isto as festas ilegais continuam, as casas de férias pejadas de miúdos a criar o pânico e a estragar o descanso dos outros são uma realidade e acumula-se profissionais de mão cheia a contar tostões por quererem trabalhar mas não poderem. Ninguém pediu para estes espaços abrirem “nos moldes tradicionais”, o que se pede aqui é que se criem condições para que estes estabelecimentos possam abrir, até num horário reduzido e com regras bem específicas. No mínimo até ao horário dos restaurantes, digo eu... Esta nova proposta é gozar com esta gente. Apetece levantar o dedo do meio e responder “obrigado, por nada”, paguem vocês os subsídios de desemprego que, para nós, já chega.

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