11/8/20
 
 
Mário João Fernandes 31/07/2020
Mário João Fernandes

opiniao@newsplex.pt

#FreeRuiRio

Coisa misteriosa, a mente humana. Não se revela no autoconhecimento e escapa bastas vezes ao conhecimento a partir do exterior.

A generosidade humana não conhece limites. Acicatada pela desgraça alheia, consegue mobilizar multidões, um like de cada vez, milhões de almas generosas ao final de cada dia. No já longínquo dia 20 de Janeiro de 2017, a cerimónia de tomada de posse de Donald Trump como 45.o Presidente dos EUA deu ao mundo a prova de que Melania está prisioneira das forças do mal. Hollywoodescamente sorridente durante umas dezenas de segundos, a recém-primeira-dama, mal se viu livre do olhar do consorte, suspirou longamente e afivelou uma expressão profundamente infeliz. Sempre generosos, os americanos partiram em cruzada pelas redes sociais desfraldando a bandeira “Save Melania”. Ao resgate moral juntou-se rapidamente o espírito comercial, com a multiplicação dos produtos de merchandising em torno da frase “Melania: blink twice if you need help!”.

A vontade de ajudar não se limita ao universo da política, como prova a recente campanha “Free Britney”, destinada a revogar o regime de inabilitação e a respectiva curadoria, fixados em 2008 a pretexto de várias perturbações mentais que afectaram Britney Spears. Os militantes da causa combatem os sucessivos curadores, acusando-os de manipular a artista. Possuídos por uma visão, dizem encontrar nas prestações mediáticas da cantora criptopedidos de ajuda por parte de alguém que não pode decidir livremente o que fazer da sua vida.

Não há razão para pensar que em Portugal não há figuras públicas oprimidas, manietadas e controladas por forças ocultas. Pensemos no líder do maior partido da oposição. É alguém que, manifestamente contra vontade, está limitado no seu livre-arbítrio. Não pode haver outra razão para ter proposto o fim dos debates quinzenais na Assembleia da República, acabando com a presença obrigada do primeiro-ministro.

E quem são os manipuladores do líder da oposição? Os suspeitos do costume: António Costa, André Ventura, Marcelo, “alguém no PSD”, um ex-colega do Colégio Alemão que tem uma fotografia de Rui Rio em blackface. E qual o móbil de cada um?

António Costa, sempre caritativo, tentou ajudar Rui Rio, apoiando mais uma sua iniciativa política de largo alcance.

André Ventura está a tentar ressuscitar o projecto político de Paulo Portas: tomar de assalto o PSD, num movimento de fora para dentro (ambos já estiveram lá dentro). Rio não é Santana mas, em certos dias de oratória particularmente inspirada, quase que pode passar por Passos. Se Portas conseguiu viver com Barroso, Santana e Passos, Ventura espera pela consumação do conúbio com Rio.

Marcelo precisa de um Rui Rio até Janeiro de 2021. Depois não precisará nem de Rio nem de mais ninguém.

E não há razão para pensar que os portugueses não sejam capazes de mostrar solidariedade para com as vítimas da opressão. A solidariedade gera empatia. E a empatia é convertível em votos. Não é preciso ser um adepto das teorias da conspiração para descortinar no #FreeRuiRio uma estratégia de conquista dos eleitores. Para um povo que tem como canção nacional o fado, o potencial do efeito Calimero é grande.

Ou talvez não. Camelus cupiens cornua aures perdidit, que é como quem diz, aplicando ao universo eleitoral uma dose de reverse psychology, quem nada quer, nada alcança. A tradução literal da expressão latina também se fornece, a benefício do bestiário contemporâneo: “O camelo, por querer ter chavelhos, perdeu as orelhas”.

 

Escreve à sexta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

 

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