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Carlos Gouveia Martins 30/07/2020
Carlos Gouveia Martins

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F1: Os novos Embaixadores de Portimão, do Algarve e do País

Finalmente oficial, a 25 de outubro vamos ter o Mundial de Fórmula 1 de regresso a Portugal.
 

A última vez remonta a 1996. Há 24 anos, quando a F1 abandonou as pistas portuguesas, ficou um misto de tristeza e saudade nacional generalizada pela ausência das curvas do mítico Autódromo do Estoril que, durante 12 temporadas, recebeu e organizou provas de grande emoção.

Quem não recorda o nosso português Pedro Lamy na pista do Estoril? Curiosamente, também numa penúltima prova como ocorrerá este ano em Portimão, o piloto português esteve presente a 22 de setembro de 1996 no Autódromo do Estoril, ao volante de um Minardi que, infelizmente, teve problemas de motor à partida e ficou condenado ao último lugar. Nesse dia, por curiosidade histórica, o português Pedro Lamy assistiu ao esperado domínio dos Williams-Renault e viveu na pista uma prova incrível do então jovem Michael Schumacher (Ferrari) que resistiu até ao último segundo ao "forcing" de Jean Alesi (Benetton) garantindo o terceiro posto, respetivo último lugar de um pódio onde teve companhia do piloto Jacques Villeneuve (Williams) no 1º lugar, seguido do britânico Damon Hill… sendo que este último, Hill, sorriu no final do ano porque venceu o campeonato de F1 de 1996 com 97 pontos acumulados.

Memórias. Passou. Já não volta, mas são histórias felizes que Portugal durante mais de uma década viveu de forma entusiasta. Saiu o Estoril, em Cascais, entrou Portimão em força.

Passamos de 1996 para 2020. Pensemos no asfalto do fantástico Autódromo Internacional do Algarve (AIA), em Portimão, que vai estrear-se no barulho dos motores e o toque dos pneus de um Fórmula 1 a roçarem e acelerarem em pista lusitana. Portugal volta, em outubro, ao mapa de uma das competições mais lendárias do desporto mundial.

Para quem é fã e acompanha tudo sobre este desporto, como sou, é fácil e motivante deixar umas linhas de história assentes na alegria que é para o nosso País, para o nosso Algarve e para a minha cidade de Portimão termos a prova rainha do automobilismo. Naturalmente que esta prova tem condimentos especiais.

Não se pode esquecer a parte económica de um país também afetado pela crise que nos trouxe a pandemia e a doença COVID-19. Aliás, sabemos que é graças à pandemia provocada pelo vírus SARS-CoV-2, com um impacto brutal na principal competição da FIA, que o AIA teve a possibilidade de receber este Grande Prémio. Foram circunstâncias únicas, sabemos, que trouxeram algo único para o nosso país.

A pouco mais de 10 quilómetros do centro da Cidade de Portimão, onde nasci, com um custo de obra a rondar os 200 milhões de euros, situa-se o maior recinto desportivo de Portugal. Sim, é o maior! Em mais nenhum recinto é possível colocar quase 100 mil pessoas a assistir a um evento desportivo. Em tempos, em Portugal, apenas o antigo Estádio da Luz seria superior porque dava para 120 mil espectadores.

Deste gigante recinto desportivo, saibamos que tem uma taxa de ocupação a rondar os 95%. Este autódromo situado no barlavento algarvio tem barulhos de motor entre 330 a 350 dias por ano. É obra! Seguramente, e o valor a quem o tem, é mérito grande do trabalho levado a cabo nos últimos anos por Paulo Pinheiro, administrador e fundador do AIA. Que o país o reconheça e agradeça.

O AIA é um dos maiores e mais modernos circuitos do mundo. Com a construção concluída apenas em outubro de 2008, o circuito foi homologado pela FIA e pela FIM no mesmo mês. As condições técnicas de pista são irrepreensíveis. O circuito do AIA possui 32 diferentes configurações de pista, com perímetros de 4.684m na versão Fórmula 1, com 16 curvas. Tem 42 boxes e um paddock de qualidade claramente superior ao normal.

Um circuito incrível, de excelência e onde todos queremos que se comece a escrever ainda mais história. Se possível, com F1 por muitos e bons anos. Um circuito onde, durante quase dois meses, por exemplo, a Jaguar e a Land Rover estiveram em trabalho e testes com colaboradores de todos os cantos do mundo, o que atesta bem a cada vez maior certeza de excelência do AIA.

Onde a BMW também não dispensa presença frequente. Aliás, a título de curiosidade, com história intrinsecamente ligada ao AIA, há poucos meses saiu a última unidade do desportivo i8 da BMW, híbrido lançado em 2013, com uma sentida dedicatória da marca alemã a esta terra algarvia: o último roadster i8 saiu com a carroçaria pintada no azul denominado «Portimão Blue», em homenagem ao concelho onde está o AIA. Bonito!

Bonito também é a alegria de sabermos que Hamilton, Vettel, Verstappen, Leclerc, Ricciardo ou Sainz estarão a atrair milhões de olhos para o nosso país. Serão, a partir de 2020, sem dúvidas, dos maiores e melhores Embaixadores que teremos.

Para além dos 20 pilotos das 10 equipas presentes na F1, há um universo de perto 10 mil pessoas a trabalhar, no total, para todas as equipas. São 10 mil que estarão no Algarve, pelo menos.

Há uma nota, antes de ver da perspetiva económica brutal, que deve ser registada. Portimão, o Algarve e Portugal vão estar a ser falados em todos os continentes. O ano passado, com números oficiais, só a prova do GP de Itália teve 112 milhões de espectadores. Para termos noção, a audiência acumulada total de televisão ficou nos 1.922 mil milhões de espectadores na época de 2019. Temos dúvidas do marketing quase gratuito que ganhámos?

Não podemos fazer conta a quem assistir, claro, embora muitos fiquem a saber que existe Portimão no seu mapa. Mas, pelo menos os 10 mil que cá estarão, de onde contabilizamos os 20 pilotos, sairão maravilhados com o circuito, a região e o país. Serão, além-fronteiras, novos e fortes Embaixadores de Portimão, Embaixadores do Algarve e, acima de tudo, Embaixadores de Portugal.

Para além da credibilidade de termos a prova de F1, que só por si é uma vitória inquestionável, falamos de uma região que há semanas registava um aumento superior a 200% na taxa de desemprego. Uma região que vive dificuldades seríssimas, em virtude da crise que afeta o turismo em razão da pandemia que ainda vivemos. Este evento é, sem sombra de dúvidas, talvez o único “balão de oxigénio” real que poderíamos ter num momento que pode travar a sangria económica da região e ajudar igualmente o país.

É preciso comparar números para saber do que falamos.

Este evento tem o custo, após negociações do município de Portimão com a comunidade intermunicipal do Algarve (AMAL), de uma quota de 500 mil euros. Deste valor, Portimão pagará 200 mil euros e, por rateio, os concelhos que mais contribuirão (com 50 mil euros cada) serão Lagos, Albufeira, Loulé e Lagoa sendo o resto dessa quota regional de meio milhão de euros dividido pelos 11 concelhos algarvios restantes. O Governo Português, por sua vez, irá pagar o investimento no arranjo da pista, serão 1.5 milhões de euros para a repavimentação de cerca de 4,6km, sendo este montante assegurado pelo Turismo de Portugal, “através do Fundo de Apoio ao Turismo e Cinema, um instrumento desenhado para promover a produção cinematográfica e audiovisual e captar grandes eventos internacionais para Portugal”, segundo a Secretária de Estado do Turismo. Caberá ainda ao Governo suportar a garantia de 5 milhões de euros ao promotor (perfazendo um total de 6.5 milhões de euros) em caso de haver público, caso não haja o custo do Governo são mesmo “só” os 1.5 milhões de euros.

É muito dinheiro? Com toda a certeza que é sempre um valor grande. Mas para uma prova destas? O impacto da realização de um grande prémio de Fórmula 1 em Portugal pode chegar a valores acima dos 100 milhões de euros, entre ganhos diretos e indiretos.

Quem tiver interesse em ler, poderá ver como o autor do livro "The Economics of Motorsports: The Case of Formula One", Paulo Reis Mourão, apresenta um estudo sobre a economia à volta da F1 desde o seu início, em 1950, em que refere mesmo que o impacto económico direto sem público pode rondar os 100 milhões de euros.

Referiu ainda o mesmo professor de Economia da Universidade do Minho, após esse estudo, que “O impacto direto, sem público, será algo entre 30 a 50 milhões de euros num período até ano e meio a dois anos após a prova. Indireto, somando emprego criado, rendimento adicional, receitas fiscais, efeito multiplicador e promocional, e considerando a dimensão de Portugal, em contexto pandémico, pode ir até mais 40 a 50 milhões de euros”.

São números animadores, números que Portugal e o Algarve precisam.

Números que revestem a esperança de termos hotéis cheios – já há, é oficial, hotéis em Portimão com 100% de reserva para as datas da prova em outubro -, das empresas de catering não terem mãos a medir para suportar os pedidos de quem vier, de vermos visitantes na região (partindo do princípio de presença de público na prova, que nunca poderá ser a 100% mas que pelo cumprimento dos 2/3 deixará ainda mais de 60 mil lugares ocupados no AIA) a desfrutarem da boa comida à mesa dos restaurantes algarvios, de vermos gente a vir e a querer voltar em 2021 e em 2022 com as suas famílias e com os seus amigos.

A Fórmula 1 é um grande Embaixador que Portugal recupera 24 anos depois. Trará, de imediato, como vimos, e de futuro, como esperamos, enormes receitas económicas e de credibilidade ao Algarve e ao País.

É mesmo o “balão de oxigénio” que Portimão, o Algarve e Portugal podiam ambicionar ter nesta fase de crise mundial que vivemos.

Ainda bem que o destino “acelerou” para Portimão!

Que saibamos aproveitar o mérito do trabalho de quem conseguiu e acreditou ser possível trazer este GP de Portugal juntamente com a sorte da visibilidade e consequente receita financeira que pode surgir.

E, entre 23 e 25 de outubro, que se desfrute.

Com ou sem público, embora esperando ser possível estar sentado a assistir a algo que tantos gostamos, que só se pense na disputa de recordes entre o antigo piloto alemão Schumacher – que foi um dos melhores pilotos da história da F1 - e o piloto britânico Lewis Hamilton que pode igualar em 2020 os 7 títulos mundiais do alemão ou que, com mais de 80 triunfos na carreira procura igualar os 91 de Schumacher! Ou ainda, dirão os seus admiradores, a esperança de ver o britânico Hamilton ultrapassar os 155 pódios do alemão Schumacher quando o britânico tem já 151! É um desporto incrível. Haveria vários registos e estatísticas a debater. Ficará para outubro.

Para já, que se veja e assuma que é excelente termos F1 em Portimão. Que é excelente para o Algarve e para Portugal terem um GP de F1 de volta. É uma vitória de todos.

Carlos Gouveia Martins

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