11/8/20
 
 
Carlos Zorrinho 30/07/2020
Carlos Zorrinho
opiniao

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Covid season

A leveza da estação não deve fazer-nos esquecer a necessidade de ação urgente em todos os territórios, com especial ênfase nos menos iluminados pelos focos da comunicação social global.

Por esta altura do ano costumamos, em particular no hemisfério norte, entrar na designada silly season, caracterizada por uma maior leveza nos comportamentos, na linguagem e no grau de aceitação de ideias fora da caixa ou propostas de novas experiências. É uma estação condescendente.

Este ano, acredito que a silly season não deixará de fazer jus aos seus pergaminhos, mas será sentida e vivida de forma diferente. A permanência da pandemia obrigará a um foco maior nas diversas respostas que ela exige, e a leveza da estação não deve fazer-nos esquecer a necessidade de ação urgente em todos os territórios, com uma ênfase especial naqueles que são menos iluminados pelos focos da comunicação social global.

A Assembleia Parlamentar Paritária África, Caraíbas e Pacífico/União Europeia (ACP/UE), que reúne representantes parlamentares de 79 países ACP e 27 da UE, e da qual sou copresidente por eleição do Parlamento Europeu, decidiu focar a atividade das suas comissões especializadas (Assuntos Políticos, Desenvolvimento Económico e Financeiro e Comércio e Assuntos Sociais e Ambiente) na elaboração de um relatório conjunto sobre as consequências da covid-19 nos países ACP e na UE.

O relatório que tem vindo a ser preparado com uma ampla participação dos membros da assembleia, que já colocaram em debate várias centenas de emendas e propostas concretas, constitui, quer no seu processo de elaboração, quer na sua forma definitiva a aprovar em setembro, um documento fundamental para inspirar as respostas das autoridades no terreno, mas também as instituições internacionais. É também um contributo para que a estratégia Europa-África e o acordo Post-Cotonu, em fase final de negociação, adequem as suas prioridades e medidas ao contexto criado pela crise sanitária e pelos seus impactos económicos e sociais.

Num primeiro momento, a crise humanitária terá de ser combatida com auxílio de emergência, suspensão de dívidas e moratórias de pagamentos, para evitar a progressão da pandemia, mas também a fome e a pobreza extrema. Contudo, as respostas estruturais têm de começar a ser também colocadas no terreno, apoiando a qualificação institucional e dos atores sociais e dotando-os de infraestruturas e meios para desenvolverem uma economia sustentável, com condições de vida dignas. As cadeias de distribuição e de troca de bens essenciais, matérias-primas e serviços básicos, já de si frágeis, terão agora de ser reestruturadas e reforçadas, procurando embeber os novos processos duma participação mais ativa da sociedade civil e de maior transparência.

O caráter excecional da situação vivida teve um duplo efeito de fragilização e centralização das práticas de governação nos países com menos recursos, abrindo espaço à violação das regras do Estado de direito. Os movimentos vários de insurreição ou terrorismo organizado ficaram com o terreno mais livre.

Mesmo em silly season, não podemos assistir de braços cruzados ao afundamento de sociedades jovens, com elevado potencial, e cuja resiliência é fundamental para que a humanidade percorra caminhos de maior justiça e sustentabilidade. Vivamos antes uma “covid season” de ação concreta e determinada em nome de um futuro melhor para todos.

Eurodeputado

 

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