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Covid-19. Uma peregrinação a Meca pequena e muito diferente

Covid-19. Uma peregrinação a Meca pequena e muito diferente

AFP João Campos Rodrigues 30/07/2020 09:12

Só uns 10 mil muçulmanos podem fazer o Haje, quando costumam ser quase três milhões. Por um lado, “não há empurrões”, nota o imã da Mesquita Central de Lisboa. Por outro, “um Haje assim nem parece Haje”, lamenta o xeque Aminuddin.

Normalmente, mais de 2,5 milhões de muçulmanos encontram-se em Meca, nesta altura do ano, para o Haje, a peregrinação ao local mais santo do islão e um dos seus cinco pilares, que começou esta terça-feira à noite e acaba no domingo. Este ano, apenas 10 mil fiéis foram autorizados a fazer o Haje pelo Reino da Arábia Saudita, naturalmente preocupado com as consequências de juntar, em tempo de pandemia, uma multidão tão gigantesca como nos anos anteriores.

“As pessoas que estão a fazer o Haje este ano são umas felizardas. Não há empurrões, não pisamos pessoas nem somos pisados. Não há nada disso, é um luxo”, diz ao i o xeque David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa. “A pessoa poder fazer as coisas calmamente, dar as suas voltas, com distância... Dantes não havia distância, hoje é obrigatória”. Num ano normal há uma maré humana, vestida de branco, que dá sete voltas à Caaba – o santuário no centro da Grande Mesquita de Meca, um quadrado de pedra que os muçulmanos acreditam ter sido construído por Abraão e o seu filho Ismael –, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. “É muita gente, há pessoas que quando veem de fora, antes de entrarem, ficam com medo”, recorda Munir. “Mas depois de lá entrarmos, é muito tranquilo”.

Claro que com menos pessoas se perde algo e é triste ver o santuário tão vazio, lamenta o imã. O xeque Aminuddin Muhammad, presidente do Conselho Islâmico de Moçambique, concorda. “Já fiz muitas vezes o Haje, até perdi a conta”, salienta. “Não há dúvida de que 10 mil pessoas onde cabem milhões é pouco. Quando olho para os ecrãs de televisão dá saudade daquelas multidões, do movimento. Gente de todas as raças, de todas as partes do mundo, um não entende a língua do outro, mas estão a conviver juntos, a orar”, conta o teólogo islâmico, num tom que mistura saudade e melancolia. “Um Haje assim nem parece Haje”.

Entre os contemplados com autorizações para este Haje tão diferente, uns 70% são estrangeiros residentes no país, segundo as autoridades sauditas, e nenhum deles português, pelo que sabe o xeque Munir. Este ano, os peregrinos não só têm de envergar o ihram, as típicas vestes brancas, mas também de usar máscara na cara e desinfetante nas mãos. Todos foram obrigados a fazer um teste à covid-19 à chegada a Meca, foi-lhes medida a temperatura e terão de fazer quarentena depois de partirem, num país que enfrenta um dos piores surtos do Médio Oriente: mais de 272 mil casos registados e 2816 mortes.

O impacto deste Haje tão restrito pode ser particularmente duro para o reino saudita, cuja economia foi devastada pela quebra no preço do barril de petróleo. Não só se estima que, em anos normais, o evento contribua o equivalente a mais de 10 mil milhões de euros para o PIB do país como o Haje é uma importante fonte de legitimidade para a dinastia Saud, que governa a Arábia Saudita com mão de ferro, gozando da reputação de protetora dos lugares sagrados.

Recordar heróis Ao contrário do que muitos pensam, as voltas que os fiéis dão à Caaba, o chamado tawaf, que decorreu ontem, não é o pináculo do Haje. Nem sequer é o momento mais importante: é apenas o mais fotogénico, o que mais aparece nos jornais e televisões. Logo a seguir a isso, os peregrinos seguem para o monte Safa, e fazem sete vezes o caminho entre este e o monte Marwa, para a frente e para trás. Fazem-no em memória de Agar, que procurou ali água para o seu filho Ismael, incessantemente, após ser abandonada pelo pai da criança, Abraão. Os muçulmanos creem que terá acabado por ser resgatada por Deus.

“Todos os povos do mundo têm os seus heróis, aqueles que fizeram algum ato extraordinário. Mais tarde, em reconhecimento, os povos erguem uma estátua, um monumento, para eternizar essa pessoa. Mas o islão não permite imagens. E vez de eternizarmos alguém com uma estátua, eternizamos a ação dessa pessoa”, explica Aminuddin. “Alá gostou do esforço de Agar. Esse ato simboliza o seu agrado com as mulheres, em todo o mundo, que estão sozinhas e combatem pela sua sobrevivência, que trabalham para apoiar e alimentar os seus filhos”.

Depois de recuperarem as forças dormindo no gigantesco acampamento montado em Mina, os peregrinos seguem para o monte Arafat, para orarem em conjunto, o momento mais importante do Haje: foi em Arafat que Adão e Eva se reencontraram após caírem do Paraíso, acreditam os muçulmanos.

Nos dias seguintes surgem os momentos que talvez causem maior estranheza a não muçulmanos: os fiéis recolhem pedras nas planícies de Muzdalifah, para depois apedrejarem o diabo, como acreditam que Abraão terá feito – este ano, o ministério saudita do Haje distribuiu previamente pedras desinfetadas. Depois haverá um sacrifício animal, geralmente uma cabra, à semelhança do que Abraão terá feito após Alá lhe dizer que, afinal, não tinha de sacrificar o próprio filho.

Claro que a ideia de quase três milhões de pessoas a sacrificar animais ao mesmo tempo, no meio do deserto, é tudo menos prática: hoje em dia há cupões. “Não se faz há uns bons anos. O pacote do Haje também inclui o sacrifício de um animal. Recebemos uma mensagem a dizer que já foi feito o sacrifício do animal”, explica Munir. “Eles têm aquilo muito bem industrializado”.

“Nos anos 70, quando fui à Arábia a primeira vez, íamos ao matadouro, escolhíamos o animal e pronto”, recorda Aminuddin. “Pegávamos na faca, degolávamos o animal e deixávamo-lo ali estendido. Aquilo acumulava-se tanto, eram milhares de pessoas a sacrificar animais, que começou a criar preocupação. O Governo pegava naquilo e queimava tudo”. Apesar de haver quem prefira sacrificar o animal, agora, muitos compram cupões, num valor de cerca de 50 dólares. A carne dos animais é enviada, congelada, para outros países com comunidades muçulmanas mais pobres. “Aqui em Moçambique temos recebido uma grande quantidade de carne”, nota o xeque – o que não deverá acontecer este ano.

 

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