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Umberto Eco e Carlo Maria Martini. Crer ou não crer

Umberto Eco e Carlo Maria Martini. Crer ou não crer

Carlos Fiolhais 21/07/2020 21:03

Em que crê quem não crê? é o apelativo título de um livro que acaba de sair na Gradiva cujos autores principais são os italianos Umberto Eco (1932-2016), o escritor, crítico e filósofo, e Carlo Maria Martini (1927-2012), o o cardeal jesuíta que esteve à frente da diocese de Milão e que se distinguiu pelas suas posições progressistas no seio da Igreja.

Os dois são do Piemonte, Eco de Alexandria e Martini de Turim. Ambos ocuparam altas posições académicas: Eco foi professor de Semiótica na Universidade de Bolonha, enquanto Martini foi professor de Crítica Textual na Universidade Gregoriana em Roma, da qual foi reitor. Eco recebeu o Prémio Médicis de melhor romance estrangeiro em França enquanto Martini obteve o prémio Príncipe de Astúrias em Ciências Sociais em Espanha. Martini terá tido um número significativo de votos no conclave de 2005 que elegeu Bento XVI (surge retratado no filme Os Dois Papas, de Fernando Meirelles, disponível na Netflix).

O livro é um diálogo epistolar que teve lugar em 1995-96, sob a iniciativa da revista Liberal, quando Eco e Martini estavam no auge das suas maturidade intelectual e fama. Eco era laico, em contraste com o “príncipe da Igreja” seu correspondente. No total trocaram oito cartas: Eco começou por colocar três questões (uma sobre o apocalipse e a esperança, outra sobre a definição de vida e outra ainda sobre o papel das mulheres na Igreja). Resolveu logo de início a questão do tratamento, escrevendo “Querido Carlo Maria Martini”, uma forma que logo foi reciprocada. As questões são formuladas com erudição e sensibilidade. Martini, nesse mesmo tom, reafirma sempre a posição da Igreja, apesar de ele ser mais aberto em vários temas (defendeu, por exemplo, maior abertura aos casais homossexuais). 

Por fim, o jesuíta colocou ao romancista uma questão sobre o fundamento laico da ética. Martini pergunta por que razão quem não aceita um absoluto ou transcendente deverá aceitar valores comuns a todos os humanos. Esta questão revela-se central no livro, justificando o subtítulo (“Um diálogo sobre a ética”). Eco respondeu invocando o chamado “instinto natural”, isto é, as bases biológicas da espécie humana, cuja sobrevivência só pode ser colectiva. O eu precisa dos outros pois a “salvação” tem de ser conjunta. É um gosto ler um diálogo entre duas pessoas muito cultas, uma educada na Igreja mas que a abandonou aos 22 anos, e outra com toda uma vida de profissão de fé. Eco move-se à vontade em temas da teologia, como mostra as suas citações de São Tomás de Aquino, mas Martini não se deixa enredar nas minudências da teologia medieval, que aliás conhecia bem, alegando  não querer tornar o livro enfadonho.

Leia o resto do texto na edição de quinta-feira do jornal i

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