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John Lewis. O Homem que esteve sempre do lado certo da história

John Lewis. O Homem que esteve sempre do lado certo da história

Hugo Geada 19/07/2020 16:31

Era o mais novo e último sobrevivente do grupo “Os Grandes Seis”, composto por líderes negros que lutavam pelos direitos humanos, que incluía Martin Luther King Jr., John Lewis morreu esta sexta-feira com 80 anos.

Era um dos últimos sobreviventes e uma das maiores figuras do movimento de defesa dos direitos cívicos, liderado por Martin Luther King Jr. John Lewis, morreu esta sexta-feira devido a um cancro no pâncreas. 

O ativista de 80 anos era membro da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos desde 1986 e, até ao dia da sua morte, lutou pela justiça e pelos ideais que defendia. 

Depois de meses afastado de Washigton para se concentrar nos seus tratamentos, Lewis regressou à capital, em junho, após a morte de George Floyd, para participar na mobilização do movimento Black Lives Matter contra a discriminação racial.

“Temos estado nas ruas e a polícia continua a usar a mesma tática para impedir a nossa luta pela liberdade negra e, no entanto, isso nunca impediu o congressista Lewis. Ele esteve sempre no lado certo da história”, disse Patrisse Cullors, uma das fundadoras do movimento Black Lives Matter.

A sua última aparição pública aconteceu no início de junho, quando participou numa manifestação perto da Casa Branca, em Washington, onde caminhou (com a ajuda de uma bengala) com Muriel Bowser, presidente do Distrito de Colombia, numa rua da Casa Branca acabada de ser renomeada Black Lives Matter Plaza e que tinha sido decorada com a inscrição “Black Lives Matter”.

O ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que em 2011, concedeu a Lewis a Medalha da Liberdade, a maior distinção civil dos Estados Unidos, usou as redes sociais para homenagear o ativista. “Muitos de nós não vivemos para ver nosso legado desenrolar-se de uma maneira tão significativa e notável. O John Lewis viveu. E graças a ele, agora todos temos instruções - para continuar a acreditar na possibilidade de reconstruir este país que amamos até que ele cumpra o seu potencial”, pode ler-se no texto partilhado pelo democrata.

 

A origem de um Ícone John Lewis nasceu a 21 de fevereiro de 1940, nos arredores da cidade de Troy, no Alabama, era o quarto de dez irmãos numa família pobre de agricultores.

Tinha 21 anos quando se tornou um dos fundadores dos “Passageiros da Liberdade”, que lutaram contra a segregação racial no sistema de transporte público americano  e, em 1963, foi um dos fundadores e lideres do Comité de Coordenação dos Estudantes Não Violentos (SNCC), que esteve na vanguarda do movimento pelos direitos dos negros e que organizou manifestações no Sul dos EUA.

Após assumir a direção do SNCC, Lewis apresentou-se na Sala Oval da Casa Branca com outros líderes negros, Martin Luther King Jr., Whitney Young, A. Philip Randolph, James Farmer e Roy Wilkins, que ficaram conhecidos como os “Seis Grandes”, ele era o mais novo e último sobrevivente deste grupo. Na reunião, os seis anunciaram ao Presidente John F. Kennedy que rejeitavam cancelar a marcha até à porta da Casa Branca para promover uma legislação que protegesse melhor os direitos cívicos. Foi nesta manifestação que Martin Luther King fez o icónico discurso I Have a Dream, mas Lewis foi mais direto. “Se não conseguirmos uma legislação significativa deste Congresso, chegará uma altura em que não limitaremos a nossa marcha a Washington… Temos de dizer, ‘Acorda, América, acorda!’ Porque não podemos parar, e não vamos ser pacientes.”

Dois anos depois, durante a manifestação antirracista pacífica em Selma, no Alabama, quase morreu depois de ter sido brutalmente espancado pela polícia, que lhe causou uma fratura no crânio. As imagens gravadas da polícia a atacar Lewis e outros manifestantes foram divulgadas em meios de comunicação e forçaram o país a encarar a opressão racial que acontecia nos estados do Sul.

 

Anti-Trump Nos últimos anos, a vida de Lewis tem sido marcada pela sua posição contra o atual presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump.

O congressista opôs-se à vitória de Trump nas eleições e boicotou a sua tomada de posse, em 2016. Lewis considerava que as interferências russas nas eleições tornavam a vitória “ilegítima”. Esta foi a primeira vez que um congressista se pronunciou de tal forma contra um Presidente, Raúl Grijalva, do Arizona, e Barbara Lee, da Califórnia, também se opuseram. 

“Acho que os russos ajudaram a que este homem fosse eleito. E ajudaram na destruição da candidatura de Hillary Clinton”, explicou Lewis. “Eu disse aos estudantes: ‘Quando vêm algo que não está certo, que não é justo, têm a obrigação moral de fazer alguma coisa, de dizer algo’”, disse Lewis, em 2018, quando foi colocada a hipótese de existir um impeachement a Donald Trump.

“Para alguns, este voto pode ser difícil, mas temos um mandato e a missão de ficar do lado certo da História”, disse num discurso na Câmara dos Representantes em dezembro.

Em relação à morte de Lewis, Trump reagiu com um curto tweet. “Triste por ouvir as notícias sobre a morte de John Lewis, um herói dos direitos cívicos. Eu e a Melania enviamos as nossas condolências a ele e à sua família”. 

De forma a honrar a sua morte, a bandeira da Casa Branca ficou a meia haste, como acontece sempre que morre um congressista. 

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