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José Paulo do Carmo 17/07/2020
José Paulo do Carmo

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Corpos insuflados e filtros nas fotografias

Esta nova realidade, que eu não critico (cada um é livre felizmente de fazer o que quer), torna-se, no entanto, e em muitos casos, vazia de conteúdo. Não alternam com a sugestão de um bom livro, nem se preocupam em descrever o espaço de uma forma criativa. A única finalidade é procurar de todas as formas mostrar o ângulo do corpo que os favorece alterando as imagens ao ponto de fugir completamente da realidade. 

Esta semana um amigo contou-me que afim de aproveitar o calor que se fazia sentir em Portugal aproveitou a piscina de um hotel para se refrescar. Durante toda a tarde assistiu à sessão fotográfica que duas miúdas inglesas foram realizando, vez uma, vez outra. Não sobrou canto para tanta pose. Disse-me ele que achou fantástica a forma como elas se sentiam confortáveis e desinibidas com um corpo longe de ser considerado perfeito e que talvez isso fosse um bom sinal dos tempos em que cada um aceita o seu corpo tal qual ele é e o assume sem pudor e com orgulho. Tentado a ver o resultado de tal meticuloso trabalho, entrou na página do referido hotel para ver se as mesmas fotografias já constavam e qual não foi o seu espanto quando se apercebeu de que aquelas que se apresentavam à sua frente estavam agora irreconhecíveis, com corpos desenhados e formas completamente diferentes, que o fizeram olhar várias vezes para perceber se eram de facto as mesmas pessoas.
 
Este é o novo normal no Instagram. Vale para elas e para eles, embora elas tenham um destaque incomparavelmente superior, talvez pelos homens serem mais rebarbados e se babarem para as fotos de uma forma mais quadrada. O caminho é simples. Colocar fotografias o mais despido possível, em poses supostamente sedutoras e, se a isto conseguirem juntar um retrato de destino paradisíaco, estão reunidos todos os condimentos para um cocktail de likes que lhes abre o caminho da fama. Quantos mais likes e mais seguidores maior é o destaque dado pelo algoritmo da própria rede social, que se traduz depois em números que parametrizam o impacto e o alcance das mesmas no público. É aí que chamam a atenção das marcas para que tenham depois produtos a publicitar, estadias de borla em hotéis e, em casos de maior sucesso, dinheiro.
 
Se existem alguns que fazem deste seu trabalho peças interessantes de design, com fotografias de moda e arte em que revelam alguns segredos dignos de serem procurados ou que instigam os “fãs” a encontrar algo de útil e saudável para além de vídeos divertido, a maior parte serve-se das suas qualidades para procurar única e exclusivamente o desejo de alguns papalvos por uma vida que os próprios fotografados estão longe de ter, levando muitos a sonhar com vidas que quase não existem, frustrando-se com destinos a que nunca chegarão provocando apenas e só o desejo e alimentando-se da mentira. Mentira essa que, graças aos filtros mágicos e às fantásticas capacidades dos modernos telemóveis, alteram corpos de tal maneira que quando vistos ao vivo, como acontece com o meu amigo, nada têm a ver - ao ponto de termos que olhar várias vezes para perceber se se tratam, de facto, das mesmas pessoas.
 
Esta nova realidade, que eu não critico (cada um é livre felizmente de fazer o que quer), torna-se, no entanto, e em muitos casos, vazia de conteúdo. Não alternam com a sugestão de um bom livro, nem se preocupam em descrever o espaço de uma forma criativa. A única finalidade é procurar de todas as formas mostrar o ângulo do corpo que os favorece alterando as imagens ao ponto de fugir completamente da realidade. Com todo este facilitismo temo que estejamos a criar pacotes de barbies e ken´s insuflados sem o mínimo de interesse. A imagem a sobrepor-se ao realismo e à magia das relações e da vida. Com descrições de fotografias como “ Comer, dormir, praia e repetir” tão usuais por estas bandas que não será por isso de estranhar que, se forem entrevistados, lhes saia algo parecido com a resposta que o jogador André Gomes deu a uma publicação espanhola, que passo a reproduzir. “Um lugar para descansar? - Vários. Um filme? - Boa pergunta. Não sei. Um livro? - Não sei. Uma habilidade fora do futebol? - Algumas, mas nada de especial. Uma canção? - Não consigo dizer nenhuma em especial.
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