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Costa coloca pressão na preparação do inverno, Marcelo pede “pés na terra”

Costa coloca pressão na preparação do inverno, Marcelo pede “pés na terra”

Marta F. Reis 16/07/2020 08:54

Bruxelas recomenda antecipar vacina da gripe. Governo ainda não apresentou calendário.

Sobe de tom a preocupação com o inverno e com a concretização de medidas. António Costa advertiu esta quarta-feira, diante da maioria do Executivo, que o país não aguenta mais um confinamento e que o inverno tem de ser preparado já. As declarações foram feitas na apresentação do programa Simplex 20-21 e tiveram réplicas.

O Ministério da Saúde já garantiu que o plano de contingência está a ser preparado e será apresentado em detalhe a seu tempo. Ontem, já depois do alerta público do primeiro-ministro, a secretária de Estado Adjunta da Saúde reiterou que a resposta passará pelo reforço da capacidade de testagem e também das equipas de saúde pública, para maior rastreabilidade de casos. No briefing sobre a pandemia e questionada sobre a aparente exclusão da solução de confinamento por parte de António Costa, a diretora-geral da Saúde não quis comentar as palavras do primeiro-ministro e repetiu a ideia, que já tinha sido transmitida mais do que uma vez, de que mais do que um confinamento geral, podem ser necessários confinamentos “cirúrgicos”, mesmo ao nível de ruas e bairros. “Aprendemos muito com esta epidemia. Sabemos que podemos passar de medidas de confinamento genérico para confinamento muito cirúrgico. Quando dizemos que uma família fica em isolamento, estamos a fazer isso; quando dizemos que é uma rua ou bairro, estamos a fazer isso, o que é diferente de dizer que é o país [a fazer confinamento]. No fundo, foi o que foi referido há uns dias: passar do nível macro para nível micro”, disse Graça Freitas.

A ideia tinha sido transmitida por Marcelo Rebelo de Sousa no final da última reunião técnica. O que foi transmitido pelos peritos é que, a esta distância, não há previsões certas. Ao SOL, o epidemiologista Manuel Carmo Gomes, um dos participantes nas reuniões no Infarmed, admitiu que pelo menos até ao outono não se antevê um cenário de confinamento geral, sendo esperado nessa altura um aumento do contágio, seja pelo regresso às escolas, seja pela retoma da atividade laboral em escritórios e fábricas. O perito, consultor da DGS, não considera, no entanto, uma segunda onda uma fatalidade, defendendo que dependerá muito da adesão às medidas por parte da população e também da capacidade de intervenção da saúde pública para controlar surtos. Como também tinha defendido ao SOL e ontem foi transmitido pela diretora-geral da Saúde, o hemisfério sul, onde a chegada do inverno parece estar a levar a um recrudescimento da epidemia nos países que, aparentemente, tinham a infeção mais sob controlo, permitirá perceber melhor o que esperar no inverno. Na Austrália, as autoridades receiam que se esteja diante do início de uma segunda vaga, mas o primeiro-ministro também já defendeu que o país não deve regressar ao confinamento total. Depois de um longo planalto de casos, com dois meses em que as infeções não iam além das poucas dezenas de novos casos, a Austrália começou no final de junho a registar um aumento de infeções e nos últimos dias tem andado em torno dos 200 novos casos diários, o que já levou a um apertar de medidas em Vitória e Melbourne. Na conferência de ontem, Graça Freitas apontou a Austrália como país de referência para o que se poderá passar no inverno, sinalizando que a evolução da curva epidémica, ainda com poucos dias, tem sido idêntica ao que aconteceu na primeira vaga, o que é motivo de alerta.

 

Antecipar vacinas?

A preocupação é geral e, ontem, a Comissão Europeia recomendou aos países que antecipem os programas de vacinação da gripe e alarguem a população coberta para evitar um “cocktail de riscos”, descreveu a vice-presidente da Comissão Margaritis Schinas. O Ministério da Saúde já anunciou a aquisição de 2 milhões de doses de vacinas da gripe este ano, mais 38% do que no ano passado. António Costa assinou a 21 de maio uma autorização de despesa de 13 milhões de euros, mas não foi apresentado um plano diferente de vacinação nem um calendário. A diretora-geral da Saúde já disse que se pretende iniciar a vacinação o mais precocemente possível, aumentando a cobertura vacinal. Geralmente, a vacinação da gripe inicia-se em outubro. Em Portugal têm acesso à vacina sem qualquer custo nos centros de saúde idosos com mais de 65 anos, o que um despacho já determinou, em junho, que se mantém este ano, e grupos de risco como doentes crónicos, definidos numa norma anual da DGS, que ainda não é conhecida.

 

“Não podemos deixar de ter os pés na terra”

Já depois das declarações de António Costa e de Graça Freitas sobre o inverno, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou em Belém, depois de uma audiência com o Conselho Nacional da Juventude, que “não podemos deixar de ter os pés na terra para esta primeira vaga”.

Para o chefe de Estado, é preciso prevenir a segunda onda, mas manter a vigilância sobre a primeira, que ainda não acabou. Ontem foram confirmados no país 375 novos casos de covid-19, 288 na região de Lisboa, o que mantém a tendência de algum abrandamento nos novos casos, mas ainda num patamar elevado. No Algarve foram registados 25 novos casos, sendo o segundo dia consecutivo em que há uma subida nos diagnósticos.

O Governo prolongou o estado de calamidade em 19 freguesias de Lisboa e de contingência na área metropolitana até 31 de julho. Ontem, na conferência de imprensa, a diretora-geral da Saúde não apresentou informação detalhada sobre as freguesias nem explicou o critério usado para manter a lista. Como o i noticiou, o concelho de Lisboa foi o único em que a incidência de novos casos não baixou em relação ao final de junho. Graça Freitas indicou, no entanto, que o concelho da Amadora, onde os casos baixaram, é o que regista neste momento a maior incidência por 100 mil habitantes. Já em Lisboa, e questionada sobre se a freguesia de Santa Clara continua a ser a única com critérios para estar na lista das “piores”, Graça Freitas justificou com a existência de focos, mas indicou que existem casos esporádicos em todo o território, não tendo fornecido dados concretos, que o i também já pediu. A DGS indicou ainda que a evolução por concelho passa a ser atualizada à segunda.

 

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