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AirCorona. Quando o vírus ganha asas

AirCorona. Quando o vírus ganha asas

AFP Hugo Geada 15/07/2020 09:14

A pandemia gerada pelo coronavírus tem sido especialmente dura para os Estados Unidos da América. Desde o seu início, em março, já foram registados mais de 135 mil óbitos e mais de 3 milhões de casos positivos, tornando-se assim os EUA o país número um nestas duas categorias.

Contudo, segundo uma investigação do New York Times e do Projeto Marshall, publicada no dia 10 de julho, descobriu-se que, além do caos interno no país, os EUA também contribuíram para disseminar o vírus pelo resto do mundo. 
Em causa está o facto de o Serviço de Imigração e Controlo de Fronteiras dos EUA (ICE) ter autorizado centenas de voos para deportação de imigrantes infetados com covid-19 desde o início da pandemia.

No total, o ICE já deportou mais de 40 mil imigrantes, a grande maioria da América Central, com inúmeros pacientes a acusarem positivo no teste da covid-19 e que, mesmo assim, foram transferidos para os seus países de origem.
A investigação de Emily Kassie e Barbara Marcolini analisou mais de 750 voos nacionais da ICE, além de 200 com destino a outros países, entre março e junho, a maioria para Guatemala, El Salvador e Honduras, e concluíram que a escassez de provas e a deportação resultaram na propagação do coronavírus por parte do ICE dentro e fora das fronteiras dos Estados Unidos. 

Entre os mais de 30 entrevistados, pelo menos quatro deportados revelaram ter testado positivo logo após regressarem aos seus países, como Índia, Haiti, Guatemala e El Salvador.

Admild, um dos entrevistados, que recusou revelar o seu apelido com medo de represálias, revelou que quando disse a uma das enfermeiras no aeroporto que estava a sentir-se doente, estas deram-lhe tylenol, medicamento equivalente ao paracetamol.

 

Campos de infeção

Um dos fatores que também contribuíram para a propagação do vírus foi a falta de higiene e segurança nos centros de detenção de imigrantes. Yudanis, um cubano que estava no Luisiana, num destes centros, descreveu estes locais como “bombas-relógio” devido à impossibilidade de existir distanciamento social, dada a sobrelotação e a escassez de material de proteção.

Até ao momento em que a investigação foi publicada, o ICE confirmou cerca de 3 mil casos positivos de covid-19 nos seus centros de detenção civis em todo o país. Contudo, a investigação prova que muitos casos apenas deram positivo mais tarde ou que algumas pessoas não foram testadas, apesar de apresentarem sintomas evidentes da doença.

Segundo o artigo, o Governo dos Estados Unidos da América pressionou os países de origem de deportação, com ameaças de restrições aos vistos caso estes se opusessem aos voos de repatriação. Cerca de 11 países confirmaram ter recebido deportados doentes com covid-19. El Salvador e Honduras já aceitaram mais de 6 mil deportados desde março, mesmo com as restrições impostas para evitar a propagação da pandemia. Só a Guatemala manifestou o seu desagrado com Washington.

O Presidente da Guatemala, Alejandro Giammattei, reagiu numa conversa com o think tank Atlantic Council, em maio, ao número de infetados que têm sido enviados dos EUA para o seu país. “Os nossos hospitais têm uma capacidade limitada e agora temos de tratar estes pacientes infetados com uma doença que nem foi originada aqui [na Guatemala]”, disse, sublinhando ainda como estes casos tem sido um “fardo” para o país.

“A Guatemala é um aliado dos Estados Unidos, mas não acredito que os Estados Unidos sejam um aliado da Guatemala porque não nos tratam como tal”, concluiu.

 

A culpa do Fax

Um artigo, também publicado no New York Times, esta segunda-feira, levantou uma curiosa hipótese para a ineficácia dos EUA no combate ao coronavírus que se prende com a utilização de tecnologias consideradas obsoletas, neste caso o fax.

Como exemplo, descreveu um caso que aconteceu no condado de Harris, em Houston, em que o fax ficou “sobrecarregado” depois de um laboratório ter enviado inúmeros resultados de testes, deixando “milhares de folhas espalhadas pelo chão”.

Estes relatórios são tão complicados de gerir que, recentemente, 25 membros da Guarda Nacional dos EUA tiveram de ser mobilizados para um desses departamentos para ajudar os especialistas em saúde pública a inserir à mão dados de que não havia registo eletrónico.

“Os dados transmitem-se de uma forma mais lenta do que a doença”, disse o diretor executivo do condado de Harris, Umair Shah, explicando que, devido a este processo antiquado, torna-se mais complicado ou quase impossível garantir medidas básicas de controlo da propagação de qualquer vírus, como rastrear os contactos daqueles que se suspeita estarem infetados com o vírus, mas também detetar casos novos e evitar outros.

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