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Morreu a artista plástica portuguesa Maria Beatriz

Morreu a artista plástica portuguesa Maria Beatriz

Sem título, Maria Beatriz. Museu Calouste Gulbenkian 12/07/2020 17:28

Tinha 80 anos e vivia em Amesterdão desde 1970. Em 2017, numa entrevista, contou que tinha escolhido deixar o país porque em Portugal “lhe faltava o ar”. “Não havia qualquer possibilidade para os jovens escolherem a sua vida”, considerou.

 

A artista plástica portuguesa Maria Beatriz, que vivia na Holanda desde 1970, depois de ter residido em Londres e Paris, morreu ontem em Amesterdão, aos 80 anos. “Uma pintora única, uma mulher fascinante, que o país e o mundo têm obrigação de conhecer”, notou a Galeria Ratton sobre o trabalho da artista, que começou a pintar aos 12 anos, como forma de escape. Do país e da vida familiar.

“A própria artista associa essa sua ligação, por volta dos seus 12 anos, como forma de escape de uma relação difícil que mantinha com o pai. A sua fuga e resistência ‘foram os livros, a poesia e alguma música. Nessa idade a minha ligação à arte começou a ser muito positiva. Via a arte como uma coisa que podia dar apoio e, digamos, mudar a vida de uma pessoa. Portanto, muito nova, foi a minha escolha’”, dita a biografia dedicada à artista publicada na página da Fundação Calouste Gulbenkian.

Nascida em 1940, em Lisboa, Maria Beatriz ainda tentou cursar Biologia, mas o apelo das artes plásticas falou mais alto. Contudo, passou fugazmente pelo curso de Pintura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa. Encontrou-se por acaso com o gravador inglês Stanley William Hayter, na Cooperativa Gravura, e participa num mini curso semanal que seria o suficiente para  lhe mudar o percurso. Foi morar para Londres em 1960 e em 1965 recebe uma das bolsas do Serviço de Belas-Artes da Fundação Calouste Gulbenkian e vai estudar para o Atelier 17 de Hayter, em Paris. 

Desde muito cedo que Maria Beatriz procurou um percurso internacional, uma vez que sentia que em Portugal lhe “faltava o ar”, como contou a própria em 2017 numa entrevista concedida à historiadora Emília Ferreira, a propósito do projeto de investigação  “Faces de Eva – Estudos sobre a Mulher”, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. “Não havia qualquer possibilidade para os jovens escolherem a sua vida”, considerou Maria Beatriz. “Os rapazes viram-se a ter de seguir o serviço militar e a partir para a guerra. Muitos desertaram e fugiram sem nada para o estrangeiro. Muitas famílias não apoiaram tal decisão. E a rutura foi enorme. As raparigas viram-se metidas num espartilho de proibições e preconceitos — para uma moça como eu era, não conforme, rebelde e desejosa de poder escolher a direção a dar à minha vida, a opção foi partir. Encontrei em Londres independência económica e liberdade de ação”

Fixou-se na Holanda em 1970, embora tenha continuado sempre a expor em Portugal, nomeadamente na Gulbenkian. O Centro de Arte Contemporânea Casa da Cerca, em Almada, dedicou-lhe duas exposições antológicas (em 1998 e em 2016). A última, intitulada  “Trabalho de Casa 1960-2013”, contou com a curadoria da Galeria Ratton.

Ao longo da carreira, e para lá da pintura, explorou diversos caminhos, entre os quais técnicas de gravura em metal ou a fotografia. 

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