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Tó Trips. "Gosto sempre de compor coisas a partir de imagens"

Tó Trips. "Gosto sempre de compor coisas a partir de imagens"

Raquel Castro Hugo Geada 12/07/2020 11:50

Improviso ou um processo estruturado? Ligámos ao Tó Trips, autor da banda sonora de Surdina, para perceber como é o seu processo de criação.

A convite do produtor Rodrigo Areias, Tó Trips, uma das metades dos Dead Combo, tornou-se o responsável pela criação da banda sonora do filme Surdina, uma comédia sobre o amor e a velhice, com argumento de Valter Hugo Mãe. O i ligou ao guitarrista para falar um pouco sobre como foi a experiência de gravar estas músicas e quais foram as suas maiores influências.

Que outras experiências já teve na criação de bandas sonoras?

Já tinha feito bandas sonoras com os Dead Combo, para a série Sul, o filme Slightly Smaller Than Indiana, do Daniel Blaufuks, e também já tinha feito sozinho, para uma curta. Os Dead Combo sempre estiveram ligados ao som do cinema, sempre nos pediram músicas da Escola Superior de Cinema. Também fizemos música para dança, teatro. Como fazemos música instrumental muito visual, é fácil fazer estes pedidos.

E com uma identidade muito portuguesa.

Sim, às vezes até é demais. [risos] Metem Dead Combo a torto e a direito em qualquer coisa que seja sobre o país. 

Como surgiu o surgiu o convite do Rodrigo Areias para trabalhar no Surdina?

Sou amigo do Rodrigo Areias há vários anos. Temos muitos amigos em comum, ele é produtor do Edgar Pêra, de quem sou amigo, desde os anos 1980, e para quem faço pósteres e o trabalho gráfico. Aliás, os personagens dos Dead Combo até aparecem num filme dele meio experimental em que usou a banda sonora da banda, o Sudwester, e também trabalha com o Paulo Furtado, Legendary Tigerman, para quem faço capas de discos de bandas sonoras. Desta vez, ele convidou-me para fazer a banda sonora do Surdina.

Que capas de discos já fez?

Comecei a fazer isto para bandas minhas nos anos 1980 e, na década seguinte, vivi muito à conta dos trabalhos gráficos. Fazia pósteres para cinema e teatro e imensas capas de discos. Fiz imensas para os Dead Combo, mas também fiz para os Da Weasel, Tara Perdida, Bizarra Locomotiva, Rui Veloso, Mariza. Fiz imensas coisas para os Xutos e Pontapés, desde desenhar palcos a capas de discos, pósteres para o Edgar Pêra, para os Cool Hipnoise, muita música dos anos 1990 e princípio do século. Hoje em dia faço algumas coisas para o Legendary Tigerman e algumas coisas de jazz para o André Fernandes o Nuno Costa… há várias.

Como foi o processo de gravação da banda sonora? Como tinha dito, já estava habituado a fazer bandas sonoras enquanto Dead Combo. Foi muito diferente gravar sozinho?

Foi porque me obrigou a tocar vários instrumentos. Componho sempre para guitarra e esta foi a primeira vez que também toquei em piano algumas melodias adaptadas da guitarra. Foi um desafio, porque não considero saber tocar piano. Gosto sempre de compor coisas a partir de imagens - aliás, fui parar à música à conta das imagens, dos pósteres e do lado gráfico da música. Desde puto, sempre gostei dos cartazes e dos bilhetes, de os colecionar, das capas de discos, fiz imensas. Talvez eu e o Rui Garrido, que também faz trabalhos excelentes, sejamos os gajos que fizeram mais capas neste país. É sempre interessante fazer música olhando para imagens, sejam ou não em movimento. Faço muitas vezes exercícios a olhar para fotografias ou a partir de um texto e a tentar compor uma música - por exemplo, aquilo que faço com o Tiago Gomes, o On The Road, baseado no livro com o mesmo nome do Jack Kerouac. Sempre fui um gajo habituado a fazer música a partir de texto ou de imagens, neste caso, imagens em movimento. É sempre um desafio, até porque te leva a sair da tua zona de conforto. Embora tenha uma identidade quando toco, leva-me a experimentar outro tipo de coisas, a perder certos tipos de preconceitos e a percorrer caminhos que normalmente não utilizaria.

No Surdina senti que existia uma melodia que serve como linha condutora.

Tentei arranjar um tema que servisse de genérico e que fosse a base condutora de todos os pequenos riffs. Neste caso é o Tango Surdina, o tema-base do resto. Depois peguei nesse tema e fiz várias versões e arranjos, seja sem piano e só com a guitarra, mas que, ao fim ao cabo, é a linha condutora para o resto.

Como lhe surgiu esta melodia?

O Surdina é um filme sobre a velhice com um lado cómico, sobre o preconceito que por vezes existe que os mais velhos já não se podem apaixonar ou ter esse sentimento mais associado com a malta nova. Foi por isso que introduzi o piano. Associo sempre o piano a um instrumento mais maduro, sério e com um lado mais clássico. Pode ser um preconceito ou um clichê, mas foi por isso que o utilizei. Ao mesmo tempo, também queria, uma vez que o filme se passa em Guimarães e nos arredores, que fosse uma coisa meio popular e tradicional, que tenha esse lado mais português, algo que tenho na minha identidade enquanto músico.

Houve alguma banda sonora em concreto que o tenha inspirado para fazer este trabalho? A Surdina fez-me lembrar a banda sonora do Dead Man, do Jim Jarmusch, tocada pelo Neil Young na sua guitarra.

No caso do Dead Man e também do Miles Davis no Ascenseur pour l’échafaud, eles são tipos que olham para o filme e tocam o que sentem. Essa é uma primeira abordagem que tens, mas no caso do Neil Young e do Miles Davis foi um improviso sobre aquilo que sentiam a olhar para o filme. Essa é uma abordagem que também muitas vezes adotei, pôr o filme a correr na timeline e, sem pensar absolutamente em nada, estar só embrulhado nas imagens em movimento e fazer uma primeira abordagem sem pensar nas notas que estou a fazer. No fim, olho para aquilo, ouço e penso, “se calhar, há aqui um lado interessante”. Ou não. Lembro-me de ler uma entrevista do Brian Eno sobre um disco que ele produziu dos U2 e uma das coisas que ele dizia era que antes de uma gravação, antes de pedir para tocar as malhas que já tinham, fazia um dia de sessão de improviso para a banda estar a “jammar” para ver o que saía dali. Esse é um processo importante que às vezes aponta para caminhos meio instintivos onde se pode aproveitar alguma coisa ou não. 

Sente que a improvisação foi importante ao compor a Surdina?

Sim, às vezes faço isso como uma primeira abordagem, não quer dizer que depois leve a algum lado. Às vezes, ao improvisar, faço coisas que me levam a descobrir melodias e gravo seja onde for. Ponho-me a assobiar uma melodia que me aparece na cabeça, sei lá de onde, e quando acho interessante gravo isso e fica no telefone. Mais tarde vou ouvir o que tenho no iPhone e penso, “esta melodia é interessante, vamos lá passar isto para a guitarra”. São estas coisas que surgem do improviso, frases que surgiram a olhar para uma imagem e me levaram a uma ideia que nem sei bem de onde surgiu. É um instinto do acaso que criasse sem estar a pensar muito sobre o assunto. O problema disto é que, às vezes, passo tempo a trabalhar uma ideia - às vezes, um dia inteiro de volta disso - e depois, no fim do dia, olho para aquilo e penso, “isto não vale nada”. Mas faz parte do processo de trabalho.

Quando tem esses momentos de inspiração, como faz para os gravar? Fecha-se em casa para gravar as ideias?

Gravo diretamente para o meu iPhone. Já me aconteceu estar num soundcheck, onde existe ruído e as pessoas estão a falar, surgir-me uma melodia na guitarra e gravar aquilo mesmo com o barulho de fundo. Também já me aconteceu ir com alguém na rua, surgir-me uma melodia a assobiar e gravar aquilo enquanto ia a andar. São coisas que vou registando e que ficam guardadas. Mais tarde, é interessante ouvir isso. Tenho imensas destas gravações. Já fiz um trabalho para um festival a convite da Gerador em que aproveitei o som da guitarra desligada, que saquei de um assobio, e gravei outra ligada ao amplificador, e ficou com um efeito que parecia duas guitarras desencontradas, e depois fiz um ritmo por cima daquilo. São essas coisas que muitas vezes se descobrem que são interessantes. Aquilo que acho mais interessante na música é surpreender-me com o instrumento que toco. É quase como o garimpeiro que anda à procura do ouro e, quando descobre a pepita, pensa, “muito fixe!”. Isto é um bom dia, quando penso “descobri isto”. Há dias em que não descubro absolutamente nada [risos], mas noutros há esse lado de ficar contente por ter descoberto uma coisa que me surpreende e que acho, como ouvinte, como comum dos mortais, “isto está fixe, man”. 

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