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Pedro Strecht. Nunca caminharás só

Pedro Strecht. Nunca caminharás só

Pedro Miranda 09/07/2020 22:51

A pandemia do covid-19 será um desses acontecimentos traumáticos que, dificilmente, não será em nós inscrito por longo tempo. Pese os primeiros estudos junto de determinadas camadas da população (em particular, as mais novas), a factura chegará bem mais tarde.

1. Resiliência: segundo o psiquiatra francês Borys Cyrulnik, trata-se da capacidade específica de cada ser humano reagir a uma situação externa sentida como traumática. Conceito retirado da física, tratado, primordialmente, pela psicóloga norte-americana Emmy Werner, que estudou durante trinta anos a evolução diversa de um grupo de crianças do Hawai sujeitas a vivências precoces muito negativas, foi desenvolvido pelo judeu Cyrulnik, nascido em 1937, retirado, precoce e ainda que temporariamente, ao contacto com seus pais, para melhor protecção sua, em contexto de Segunda Guerra Mundial (pp.40-41). O psiquiatra destaca a qualidade de um apego primeiro sentido como seguro, bem como o sensível suporte afectivo familiar e social enquanto condições para a pessoa melhor resistir e, sobretudo, poder reparar internamente este tipo de acontecimento. 

2. A pandemia do covid-19 será um desses acontecimentos traumáticos que, dificilmente, não será em nós inscrito por longo tempo (“não restará ninguém que, um dia mais tarde, não se recorde do que foi viver e ultrapassar a pandemia causada pela covid-19”, p.84). Pese os primeiros estudos junto de determinadas camadas da população (em particular, as mais novas), a factura - as (completas) consequências da acomodação/integração deste evento em cada indivíduo - chegará bem mais tarde (“talvez tenhamos de estar mais preparados para uma dolorosa reconstrução futura da identidade individual, escolar e social desta geração; o preço a pagar não será simples e a factura não chega agora”, p.82). Ajudar cada um, concorrer para que cada qual tenha um “reforço psíquico redobrado que recorde as suas capacidades e competências, que evoque as suas possibilidades reais de resiliência” (p.53) afigura-se como determinante no momento pelo qual passamos. Um tempo em que “ninguém se pode assumir como inteiramente forte, capaz de sozinho controlar tudo e todos e, mesmo assim, saber prosseguir de forma equilibrada, cuidando de si próprio e dos outros que dele dependem. A imperfeição e a falibilidade são características do ser humano e nestes momentos devem ser aceites como claramente expectáveis. Talvez por todos os avanços científicos e tecnológicos das últimas décadas, o homem tenha atingido um ponto evolutivo em que lida mal com estes pressupostos: será tempo de as reaprender e integrar tranquilamente” (p.53). 

Quando, aqui, se menciona a necessidade de recordar capacidades e competências como possibilidades de resiliência – Ravel toca piano a uma mão, para o amigo Paul Wittgenstein, amputado de um braço na sequência da guerra; Etty Hillesum encontrando sentido na vida mesmo em Auschwitz, em exemplos convocados pelo pedopsiquiatra - pretende evocar-se mecanismos psíquicos como a criatividade, o humor e o altruísmo como diques poderosos em meio de dificuldades intensas na vida psíquica individual e social (p.93); visa-se relembrar como “a capacidade lutadora e empreendedora do ser humano é, de facto, impressionante. Basta que seja evocada por um desígnio que compreenda e sinta como fundamental para si mesmo e para todos aqueles que verdadeiramente ama. Basta que a sua própria convicção interior perdure como uma chama viva pela qual sente que vale a pena existir e, acima de tudo, prosseguir. Basta que se descentre de si, aceitando a transcendência de uma noção de vida que, obviamente, não controla em tudo e sente fazer parte de uma história que o precede e, por certo, perdurará para além de si!”(p.84). E, se quisermos, e em definitivo concluindo com Cyrulnik, “o amor, sob todas as suas formas, é a cura para as maiores feridas que se possam imaginar”(p.94). 

3. Nunca caminharás só. Will never walk alone, gritam, a plenos pulmões, pela enésima, mas sempre arrepiante ocasião, em Anfield Road, os adeptos do Liverpool perante a eliminação iminente da sua equipa da Champions League 2019-2020, em mais um jogo naquele mítico estádio, lotado, frente ao Atlético de Madrid, a 11 de Março deste ano. Posteriormente, estudos em âmbito sanitário, sugerirão a relação entre este desafio de futebol e um grande número de contágios com o novo coronavírus. Will never walk alone cantarão, curiosamente, médicos e enfermeiros britânicos como forma de apoio emocional mútuo. O médico pedopsiquiatra Pedro Strecht, em Covid-19: uma lição de esperança no futuro. Análise psicossocial da Pandemia (Manufactura, 2020), exorta-nos a tomarmos o hino, não apenas simbólica mas literalmente, a cargo – “também nós saibamos evocar esses cânticos e outras formas de suporte social que, para cada vida singular, por certo nunca deixarão de ser importantes durante este tempo tão difícil” (p.56) -, sublinhando os seus momentos determinantes – “When you walk through a storm/hold your head up high/don’t be afraid of the dark/ at the end of the storm/there is a golden sky…” [quando atravessar uma tempestade, mantenha a cabeça erguida e não tenha medo do escuro; no final da tempestade, há um céu dourado…], concretizando-os, porventura, tendo em especial conta e atenção a informação e conhecimento que nos chegam dos estudos da área da psicologia, pediatria, (pedo-)psiquiatria:

i) Joyce MacDougall sublinhou a importância dos adultos no exercício de uma «função de para-excitação», ou seja, a capacidade de protegerem emocionalmente os mais novos de determinada informação externa sentida como excessiva e traumática; 

ii) Wilfred R.Bion disse algo semelhante com o conceito de «função contentora», sendo que esta designaria não apenas a existência de um filtro sobre certos factores externos, como a ajuda à criança perante certos elementos – ditos ‘beta’ – que, sozinha, aquela, nunca conseguiria integrar na sua vida psíquica (pp.43-44); em realidade, para muitas áreas que pedem certas exigências emocionais e cognitivas para uma melhor resposta do funcionamento individual e social a criança e o adolescente ainda não possuem uma capacidade discriminatória e auto-regulatória autónoma, requerendo a presença adequada de adultos. Ora, o «padrão de vinculação seguro» (John Bolby) nem sempre ocorre; há modos de vinculação – da criança com o adulto – inseguros, evitantes e não resistentes. E, contundo, “ter pontos de referência seguros, adultos fiáveis e com boa qualidade de relação afectiva, constitui um suporte importante para este tipo de situação externa sentida como traumática” (p.45);

iii) Sigmund Freud e, posteriormente e de modo mais desenvolvido, a sua filha Anna chamaram a atenção para a «reversão do afecto» (p.46), enquanto estratégia de defesa psíquica a propósito de respostas de crianças e adolescentes em situações de tensão ou dificuldade emocional. O caso de um refugiado sírio que, em estando em local próximo de constantes bombardeamentos, reagia a estes como se de fogo de artifício se tratasse, gerando reacção de humor no filho, ou, em âmbito cinematográfico, o que vemos em “A vida é bela”, de Roberto Benigni, em que o pai modelava as reacções emocionais do filho, mesmo em pleno campo de concentração e extermínio, seriam, neste contexto, exemplares (já agora, atente-se no facto de a morte, enquanto universal e irreversível, raramente surge como noção antes dos 6 anos de idade, pelo que há medos que não são sentidos com a mesma intensidade pelos mais novos, p.50); 

iv) idealmente, e tanto quanto possível, o evitar, por parte dos adultos – tomando, para o efeito, a devida nota de uma não excessiva, e muito menos exclusiva, concentração em tudo o que diga respeito ao novo vírus -, de uma «paralisia psíquica» (Sendor Ferenczi), isto é, caírem em situação de total incapacidade de reacção física e psíquica face a uma situação traumática como a da pandemia afigurar-se-ia como fundamental. As experiências promovidas por Edward Tronick, com mães inexpressivas - «still face» - face a todos os esforços dos seus bebés para produzir resposta na mãe levava, em definitivo, o bebé a desorganizar-se e a cair em choro e instabilidade psicomotora. Assim que esta reagia, a criança retomava o padrão anterior de adequação e tranquilidade na sua interacção emocional (“em situações dramáticas, quando o ser humano se sente ameaçado por um agente externo que não domina e sobre o qual não vislumbra um controlo imediato, é notório ver como emergem capacidades e competências pessoais até então desconhecidas para o próprio: são genuínas formas de luta antidepressiva, modelos que também funcionam enquanto mecanismos de controlo da ansiedade ou da angústia que surgem nestes momentos. Utilizando um mais do que aparente jogo de palavras, manter a mente ocupada é deixá-la menos preocupada: num momento de crise ou dificuldade, trata-se do próprio ou do grupo conseguir abstrair-se do instante em si, projectando-se para a possibilidade de um futuro melhor (a breve trecho) e no qual acredita que virá a acontecer”, pp.73-74);

v) a «sintonia afectiva» (Daniel Stern) entre pais e filhos é um conceito que nos remete para a forma como pais e filhos são capazes de interagir e conhecer num modelo de harmonia emocional, claramente explorado ainda antes do desenvolvimento da própria linguagem reforçando a presença da noção de «intersubjectividade»: tudo aquilo que um adulto consegue perceber no seu filho, da mesma forma que este percepciona variações dos estados emocionais dos pais – “este conceito faz lembrar a coordenação mútua obtida numa dança a pares” (p.48). Donald Winnicott descreveu como «holding físico e emocional a possibilidade de envolver uma criança num «círculo de amor e adequada contenção», tal como um pai faz quando pega num bebé que chora e, no embalo, lhe diz frases ou palavras organizadoras e estruturantes. 

4. E a escola? Um dos temas e debates recorrentes no nosso espaço público, durante o período que levamos já de pandemia, prende-se com a escola, modelos de ensino presencial e à distância, o que ficará para futuro, o que seria desejável. O pedopsiquiatra Pedro Strecht detalha o que a escola, enquanto comunidade viva e presencial, oferece à pessoa em formação: “para além de se aprender, na escola vive-se. Conhecem-se crianças e adolescentes de idades próximas e sexos diferentes. Fazem-se amizades, algumas para a vida. Acontecem inimizades que se aprendem (ou não) a resolver. Estabelecem-se relações com outros adultos, professores, auxiliares, administrativos, psicólogos. E com estes, conhecem-se novos modelos de comunicação, de estatuto e de papel, diferenças geracionais, ganham-se referências que podem durar uma vida inteira. Na escola também se brinca como não acontece em casa. Com mais crianças. Em espaço de maior dimensão. A outras coisas. Ao ar livre, apesar dos tempos de recreio serem poucos e, de forma geral, pouco investidos na sua importância de crescimento socioafectivo. Pode-se ganhar, perder, cair, magoar, chorar e rir, mas quase sempre em grupo, junto de outros. Há sol, vento e chuva a tocar directamente o corpo. Ir à escola implica sair de casa. Tomar banho, vestir, estabelecer uma rotina, uma continuidade e uma previsibilidade da mesma (…) É lá que acontecem visitas de estudo, intercâmbios com outros estabelecimentos de ensino e até com estudantes de mais países. Estar na escola é crescer e ser educado por diversos adultos que não apenas os pais ou a família alargada. Com tudo o que de bom e, por vezes, de mau que isso também implica. Em dose moderada é-se lançado para a vida sem a presença de uma mão parental sempre por baixo a amparar ou conduzir. (…) Na escola (…) experimentam-se coisas boas e coisas más, como o tabaco e o álcool, as drogas: mas, acima de tudo, experimenta-se e, assim, fazem-se escolhas futuras mais certas. Há paixões, namoros, juras e traições. O amor também corre pelas escolas que, felizmente, ainda é em muitos casos um meio suficientemente protegido para se namorar” (pp.80-81). Se este conjunto de considerandos, judiciosos e precisos, sempre carecidos de recordar a uma inteira comunidade (nacional) não poderão, por si só, arbitrar o tipo de ensino que teremos de ora em diante – estudos provindos dos EUA mostram-nos a escola como local de grande potencial de contágio, o que não concorda com declarações de alguns máximos responsáveis da educação, no nosso país, que nos garantem a escola como dos locais mais seguros face ao vírus, declarações talvez não isentas de temeridade -; se o autor não deixa de notar que muitos ganhos ao nível do digital terão sido conquistados neste período e que ficarão como acquis para a escola do futuro, do que não há dúvida é de que, sempre questionada quando não desvalorizada, a escola, como comunidade vivida (conjuntamente) num dado espaço-tempo, nestas palavras do médico Pedro Strecht, é compreendida como lugar sem substituto (possível).

5. Do ponto de vista etimológico, «vírus» é uma palavra que deriva do latim, sendo-lhe atribuído o valor de «veneno» ou «toxina», sendo também um conceito figurado para tudo quanto tem facilidade em disseminar-se. Vivemos em uma “sociedade viral”, repleta de happenings e episódios para difundir, sempre renovados a cada instante, em busca de likes. Numa estação sem imunidade pela expulsão narcísica do outro – Strecht bebe em Byung-Chul Han –, com um exclusivo polo de positividade que apenas confirma e corrobora sem a aparição do outro (diferente) que desinstala e desassossega, em que muitos viviam já sem ir à rua e contactar o próximo por outra via que não a digital – “os espaços públicos como a rua, o jardim ou o parque são utilizados cada vez mais num registo episódico (…) e não como um local de contacto habitual, livre, sem grandes regras ou restrições envolventes” (p.64) -, em relações «líquidas» (Z. Bauman) – “a sociedade «viral» não venera grande estabilidade nas relações: prefere viver e desenvolver-se muito melhor num padrão de contacto múltiplo, sucessivo (de «contágio») e, não raramente, indiferenciado em relação ao sexo, faixas etárias ou outros elementos de alteridade do próprio «eu». Ligar-se a alguém por pouco tempo, mantendo como objectivo a satisfação pessoal, sem grande envolvimento na perspectiva da profundidade ou da duração” (p.63) -, na qual, em Portugal, os pais dedicam, em média, diariamente, 37 minutos, em exclusivo, aos filhos (por contraponto às 2 horas que dedicam à internet), em que um novo equilíbrio trabalho-lazer se reclama, na medida em que o nosso país é um daqueles em que os adultos passam mais tempo semanal nos postos de trabalho (p.90; e, de resto, o homo laborans viu-se vazio e sem saber o que fazer quando foi confinado neste período), Pedro Strecht é optimista nos exemplos que coleciona, durante a vigência da pandemia em vários países – em Espanha, por exemplo, em diferentes bairros, jogou-se ao bingo entre todos os moderadores, o mesmo sucedendo com o cantar conjunto em bairros italianos, o nosso saudar os profissionais de saúde, os servidores sociais no Brasil ou o cantar os parabéns a uma senhora de respeitável idade que, no Líbano, levando o bolo de aniversário à janela viu um imenso coro de vizinhos para celebrar a ocasião – e acredita numa efectiva mudança pessoal e societária regeneradoras no actual contexto: “ao longo desta pandemia parece estar a ser notória a capacidade transformadora e regeneradora posta em evidência por muitas pessoas. A noção de mudança emergiu de forma irreversível e é difícil que não deixe uma inscrição em modelos de comportamento de relação e comunicação futuros”. Haja esperança e resiliência.

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