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Hugo von Hofmannsthal. Cartas para a catástrofe que vem

Hugo von Hofmannsthal. Cartas para a catástrofe que vem

João Oliveira Duarte 08/07/2020 11:01

Escrevendo na Viena do início do século XX, Hugo von Hofmannsthal foi dos mais atentos sismografos do seu tempo. Com a edição destas cartas ficcionais, consegue-se perceber a lenta eclosão de um mal-estar que foi invadindo todas as dimensões da cultura, acabando no desastre da Primeira Guerra Mundial.

 

Nascido em Viena, em 1874, Hugo Von Hofmannsthal fez parte daquilo que um outro autor também ele vienense, Hermann Broch, intitulou de apocalipse alegre. Concentrado em poucas décadas – talvez a fuga de Freud, à frente do exército alemão, marque o seu fim –, esta “estação meteorológica para o fim do mundo” (Kraus) deu-nos uma experimentação praticamente sem igual em todo o século que passou. Schoenberg, na música, Klimt, na pintura, Adolf Loos, na arquitectura, mas também Karl Kraus, o impiedoso crítico da civilização vienense, Sigmund Freud, Musil, Broch ou o filósofo Wittgenstein, todos contribuíram para esse sentimento epocal de fim apoteótico – provando aquilo que Nietzsche dizia algures, que tudo quanto é grande não definha, mas acaba de forma grandiosa.
Com tradução de João Barrento – que assina igualmente um ensaio em forma de prólogo que, na forma erudita e rigorosa a que nos habituou, consegue abrir o texto de Hofmannsthal a dimensões imprevistas  –, “Cartas para este Tempo” (BCF Editores) junta um dos textos mais comentados da modernidade literária, “A carta de Lorde Chandos”, como ficou conhecida, e “Cartas do Regresso”, um conjunto de cinco missivas, também elas ficcionadas, de Hofmannsthal. 

O primeiro é, certamente, um dos documentos fundamentais para interrogar a questão literária no século XX. Ficcionado uma carta de um Philipp, Lorde Chandos, ao filósofo setecentista Francis Bacon, Hofmannsthal mostra que a literatura, a partir de determinada altura, não andou distante do seu próprio desaparecimento, que o seu júbilo equivale, tantas vezes, à sua negação, ao seu apagamento. E se “Uma carta” (título original da “carta a Lorde Chandos”) transporta consigo esse júbilo em forma de escrita isso talvez se deva ao facto, conhecido, de ela encerrar, no seu fim, a própria possibilidade da literatura, da poesia – como se depois dela Hofmannsthal/Chandos não pudesse mais escrever e nos desse, nesse gesto chegado do fim, um último fôlego, uma última respiração das coisas. Não se trata, efectivamente, desse ódio à literatura – ódio salutar, sem dúvida, sem o qual dificilmente se escreve – que tantas vezes tende a tornar-se num combate contra o literário, contra os protocolos, os efeitos, os lugares-comuns, contra toda a boa consciência que tende a invadir a literatura. O problema de Hofmannsthal é, em certa medida, anterior, tão privado e tão íntimo, tão secreto, como este ódio, mas chegando de outro lugar e apontando para outras paisagens. 
“Nesse momento senti, com uma certeza não isenta de um sentimento de dor, que não vou escrever mais nenhum livro, nem em inglês, nem em latim, no próximo ano ou no seguinte, nem em todos os anos que me restam de vida. E isto por um motivo (...) pelo facto de que a língua em que talvez me fosse dado, não apenas escrever mas também pensar, não é nem a latina, nem a inglesa, nem a italiana ou espanhola, mas sim uma língua de que não conheço uma única palavra, uma língua na qual as coisas mudas me falam (...).

Sobre Chandos escreveu Hermann Broch que esse silêncio sepulcral com que termina a missiva, apontando para uma linguagem que nos é inacessível, manifesta um profundo “desacordo com as coisas”, uma discordância fundamental entre as palavras e as coisas – como se, doravante, sobrasse apenas esse “pensamento febril” impossível de traduzir em linguagem, um “pensar com um material que é mais directo, mais fluente e tem mais fogo do que as palavras”. Mas talvez o mais interessante, no entanto, neste “místico sem misticismo” como lhe chama João Barrento, seja exactamente essa contradição, essa dificuldade – do pensamento, da escrita – em que a missiva de Chandos se equilibra. Não se trata apenas, como refere João Barrento, de notar que Hofmannsthal continuou a escrever depois da famosa carta, que as relações entre este e a herança céptica relativamente à linguagem foram tempestuosas, contraditórias, que o próprio Hofmannsthal nunca chegou a uma formulação clara. No preciso momento em que se condena ao silêncio, quando à sua volta tudo se “desagregava, se fragmentava e voltava a fragmentar”, Hofmannsthal atinge uma capacidade expressiva da linguagem que faz com que toda a subtileza do pensamento, nas suas mais ínfimas declinações, compareça na escrita. O episódio que descreve do “povo dos ratos em luta com a morte” – morte que é dada pelo próprio Chandos – mostra bem toda a sua capacidade em captar esse “fluxo de vida e de morte, de sonho e lucidez”.

“Tudo estava dentro de mim: o ar fresco e abafado da cave, agora cheio do odor adocicado e penetrante do veneno, a estridência dos gritos de morte contra as paredes apodrecidas; a impotência no enovelamento dos espasmos, o desespero perseguindo-se em grande confusão; a busca enloquecida das saídas; o olhar frio da raiva quando dois se encontram diante de um buraco vazio”

Contradição, talvez. Ou jogo. Mas não haverá talvez outra coisa, uma injunção a uma escrita que sirva, antes de mais, para deixar de ter rosto – ou, ao menos, para recusar essa “moral de registo civil” de que falava um autor mais próximo de nós? Em todo o caso, tanto a carta de Lorde Chandos como as “Cartas do Regresso” demonstram essa “hipersensibilidade finissecular” de que fala João Barrento e que fazem de Hofmannsthal um sismógrafo que, na escrita e na existência, foi sentindo as movimentações imperceptíveis que culminariam no desastre da Primeira Guerra Mundial.

Publicados na viragem do século – em 1902 “Uma Carta” e em 1907/08 as “Cartas do Regresso” –, ambos os textos são a expressão consciente e a tentativa de medir e de se medir face a um mal-estar vago, dificilmente formulável, que foi contaminando aos poucos todos os recantos do continente europeu. E se “Uma Carta” permanece, à primeira vista, dentro do campo literário, as “Cartas do Regresso” mostram que o “desacordo com as coisas” de que falava Broch não diz apenas respeito à literatura mas que é a réplica – como num sismo – de uma fenda mais profunda que Hofmannsthal ajudou a sondar. Construídas de uma forma que se tornou clássica – alguém se afasta da Europa para, a partir dessa distância, conseguir perceber melhor algo –, “Cartas do Regresso” dão conta de um mal-estar profundo, de um “sentimento dividido do presente, um atordoamento que me dispersa, uma desordem interior que está muito perto do descontentamento”. 

“Como poderia fazer-te compreender que aqui todos os seres – cada árvore um ser, e cada mancha amarela ou verde de um campo, cada azinhaga aberta na colina rochosa; e um ser também um jarro de estanho, o alguidar de barro, a mesa, a cadeira tosca – todos esses seres se erguiam para mim como recém-nascidos do terrível caos da Não-Vida, do abismo do vazio?”  

O que a capacidade de Hofmannsthal de captar o “delicado aroma de toda uma existência” pressente é, certamente, a lenta derrocada de um mundo, aquele da burguesia liberal do século XIX. Mas, ao mesmo tempo, transparece destas cinco missivas um outro tipo de pressentimento, mais sombrio. Porque esta discordância fundamental que se vai inserir entre a linguagem e as coisas, este “olhar maligno que por vezes lanço sobre as coisas”, esta “infecção oculta e rastejante que, neste ar europeu, parece estar à espera dos que regressam de longe”, estão aí como pequenos sinais para uma catástrofe que se avizinha e que vai sendo, ao poucos, construída. Recorrendo a uma metáfora meteorológica de Elias Canetti, da mesma forma que o fenómeno da precipitação começa com a junção de inúmeras partículas que, juntas, fazem com que ela aconteça, também o desastre que se encontrava no horizonte se foi desenhando aos poucos, lentamente, através da junção de elementos aparentemente distintos mas que, no fim, ressoam uns nos outros. O que a escrita de Hofmannsthal nos dá é essa capacidade de captar, em toda a sua subtileza, os ligeiros abalos sísmicos que se foram sentindo, de forma não totalmente consciente, desse mal-estar que, no horizonte, anunciava a hecatombe.

 

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