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Carlos Pinto 06/07/2020
Carlos Pinto

opinião@ionline.pt

TAP, um caso de desonestidade política

A TAP não é vítima nenhuma de fatores externos, é vítima da cobardia e irresponsabilidade política que campeiam no nosso país.

Revejam-se as declarações de governantes sobre a TAP de hoje, de 2015 e de decénios anteriores, cada vez que a tesouraria diz que não tem recursos.

O que impressiona e é comum a todos é a falta de coragem de quem, a cada momento, tem tido responsabilidade política de gerir esta consumidora de milhares de milhões.

A opção é sempre pelo ilusionismo político que adia decisões de fundo, que julga iludir a tesouraria, sem nunca se ater, comunicar e atuar com base na realidade e na verdade patrimonial.

A TAP significa um conglomerado de empresas onde é apenas uma das fontes de prejuízo e a racionalidade económica é um detalhe menor.

Alguém sentado num ministério tutelar em Lisboa concordou e alguém à frente da empresa decidiu ir para o Brasil fazer a manutenção de aviões, e lá enterrou, soterrou, afundou 500 milhões em prejuízos acumulados.

Só nesta operação, quase tanto como toda a dívida bancária do grupo TAP.

Responsabilidade política e gestionária não há, não houve, e muito menos coragem e honestidade de dizer que, com políticos ou sem políticos, com técnicos ou sem técnicos na sua gestão, a TAP, com esta instrumentalização de uso para fins inconfessáveis, é inviável.

Diz-se até à náusea para justificar a TAP que para Portugal é fundamental ter aviões, p.e. para garantir a “coesão territorial”.

Se isto é parcialmente verdade para a Madeira e Açores – onde um contrato com qualquer low-cost dedicada assegurava a função –, mal se percebe que contributo para o resto do país, para a coesão do Minho e das Beiras, a TAP apresenta, terras onde nem os comboios chegam mas que são obrigadas a pagar uma companhia de aviação falida.

Somos 10 milhões e a pergunta é: de quantos portugueses se compõe o núcleo viajante num país de pequena dinâmica internacional?

Temos 10 milhões lá fora, e quantos são os que preterem o custo mais económico, obedientes e incondicionais à TAP?

Na Europa, a Air France teve de se juntar à KLM, a Ibéria à British. No norte da Europa, os mais ricos não têm vícios aéreos, concentraram-se na SAS. São poucos os que não perderam as ilusões sobre a insustentabilidade da aviação comercial dos nossos dias e não mudaram de vida.

Nos Estados Unidos, as companhias desunham-se sempre na borda da falência, mesmo com 300 milhões de habitantes num território onde o avião ocupa a posição do automóvel nas médias deslocações e é o verdadeiro “bus in the skies”.

Aqui, não. A TAP reproduz a cegueira do orgulhosamente só, com o Orçamento do Estado a pagar o delírio.

Anda a adquirir aviões quando as outras companhias fazem alianças.

Aumenta o número de trabalhadores quando já é a companhia com maior número de recursos humanos por milhas voadas.

A bordo serve a mesma coisa, dentro de uma folha de alumínio, que qualquer low-cost sem luxos.

Voa para o Brasil, que assim encontrou uma companhia europeia a drenar passageiros quando do próprio Brasil não vem sinal nem se dá nota que invista em rotas para a Europa.

Vamos a África justificando a TAP como a companhia dos PALOP, sem os PALOP nos encomendarem a missão e pagarem o prejuízo, numa atitude que se aproxima de um neocolonialismo protetor pela aviação comercial.

Tudo para justificar uma inviabilidade empresarial, uma desonestidade política.

Afinal, quantos meses passarão até ao próximo cheque extorquido aos bolsos do pobre contribuinte português para delírios no ar, num triste país sem rumo nem rota em terra?

Quantos meses para o confronto com uma situação líquida de 4 ou 5 mil milhões de dívidas dispersas?

No primeiro trimestre deste ano, apenas com 15 dias de declaração de pandemia, a TAP já tinha perdido 400 milhões de euros.

A desonestidade política tem longa história, e quem reverteu a decisão de 2015 da gradual saída do Estado da TAP tem responsabilidades maiores.

A TAP foi usada como um dos galhardetes para oferecer ao PCP/BE, como as decisões de expulsar os privados na Lei de Bases da Saúde e a reversão nos STCP, como modo de ajudar a construir o ambiente que haveria de levar à “frente de esquerda” na Assembleia da República.

Isto é, a decisão de retroceder o que estava certo no balanço de um desastre económico e financeiro de muitos anos foi desvalorizado por razões de política de oportunidade ao serviço da sustentabilidade do atual Governo.

Não valeu nada, à época, o passado e o passivo acumulados, não valeu nada o relatório do Tribunal de Contas, já antevendo erros na decisão.

A TAP não é vítima nenhuma de fatores externos, como a covid-19, é vítima da cobardia e irresponsabilidade política que campeiam no nosso país.

Uma monstruosa desonestidade, uma imoralidade, um desprezo de alguns portugueses no Governo por todo um povo mumificado politicamente.

 

Jurista

 

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