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Abílio Martins Ferreira 03/07/2020
Abílio Martins Ferreira
Cronista

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Economia do Mar versus Economia Azul

“O mar” só conseguirá atingir um elevado grau de colaboração entre os seus atores, granjear apoios externos, contribuir para o desenvolvimento e sustentabilidade económica e ambiental do “Mar português” se os critérios e designações forem uniformes.

É recorrente ouvir alguns dos atores governamentais, da academia e do movimento associativo do mar, caracterizar as atividades económicas marítimas através de duas designações ‒ Economia do Mar e Economia Azul. Mas será que é salutar e positivo para se promover, valorizar, responsabilizar, adotar novos comportamentos e cultura organizacional empresarial, e ou soluções de produção ambientalmente menos agressivas? Para mim a resposta é óbvia, não me parece.

A tentativa de teorizar a coexistência de duas formas de desenvolvimento económico no mar retira-lhe não só conteúdo, abrangência e transversalidade, bem como provoca a suspeição da existência de uma economia boa e de outra má.

Na verdade, uma atividade económica só existe porque responde a uma necessidade do ser humano, seja ela de que natureza for ‒ gastronómica, saúde, bem-estar, lazer, ambiental, energética, mobilidade, conhecimento etc.‒, pelo que não poderá haver espaço para rotularmos a economia de boa ou má.

Podemos é reconhecer que existem algumas atividades económicas que pela sua natureza e contexto podem provocar um maior (ou mais forte) impacto no ecossistema ambiental e social do planeta azul em que vivemos.

Para estas devemos fazer um esforço concertado, e através de um processo evolutivo e sustentado, garantir uma maior responsabilidade social e ambiental e uma constante inovação incremental, de modo a que se tornem no presente e no futuro próximo mais sustentáveis e responsáveis societariamente, ao invés de rotular e ostracizar como se de mal necessário se tratassem.

Pois, como sabemos as atividades económicas marítimas são de elevado risco, os meios usados no processo produtivo são de alto custo e de grande complexidade, no entanto todas procuram atingir um elevado nível de eficiência e eficácia, de modo a assegurar resposta às necessidades atuais e às novas que a sociedade e o mercado vão exigindo, pelo que algumas mudanças são complexas e difíceis sendo por isso necessário demonstrar as vantagens para serem estimuladas e apoiadas.

Colocar rótulos e separá-las não me parece o caminho certo, colaborativo e impulsionador para uma Economia do mar que é também azul, que se pretende que seja de uma inovação incremental e radical permanente, capaz de fazer emergir novos produtos e serviços nas áreas da aquicultura e pescas, shipping, energia, segurança e salvamento, marítima ou turística, biodiversidade, robótica, biomateriais, bem-estar e saúde, indústria alimentar e indústria 4.0. etc..

Assim, é essencial que os atores com responsabilidades abrangentes e transversais, como por exemplo os governamentais, sejam capazes de enunciarem nas suas comunicações a quantificação de quanto o mar vale, que não sejam amplificadores de anátemas, e que consigam ser claros e precisos na identificação das ações de política pública do mar que pretendem incrementar para potenciar a generalidade das atividades económicas marítimas, isto é a “Economia do Mar”.

Creio que só através deste processo o “Mar português” com a sua vasta amplitude e enorme abrangência, e um dos principais ativos da economia portuguesa, pode almejar ser uma das mais fortes alavancas para o contínuo, e necessário, desenvolvimento ambiental, I&D, social e económico do país, bem como contribuir para termos um papel diferenciador na “Economia do Mar” que também é azul inclusive a nível europeu e mundial.

 

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