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O Fim do “Milagre Português” e o declínio da mentira!

O Fim do “Milagre Português” e o declínio da mentira!

Vítor Navalho 02/07/2020 18:19

Num silêncio aparente por parte do vírus, parecia que a situação estava circunscrita e controlada, levando à euforia do “Milagre Português”, como se de uma predestinação divina se tratasse. Pior era Impossível! Entre as muitas pressões por um lado, das associações empresariais e dos sindicatos por outro, ao abrigo da urgência de não se matar a economia traçou-se o destino de uma crónica de uma morte anunciada.

Durante o período da Segunda Guerra Mundial, os Aliados mapearam os buracos das balas nos aviões que foram atingidos pelo fogo Nazi, procurando dessa forma reforçar os aviões nas áreas fortemente fustigadas pela artilharia inimiga para que estes pudessem resistir mais à dureza desses confrontos.

O pensamento imediato foi reconstruir e reforçar as áreas dos aviões que tinham mais pontos vermelhos assinalados (que tinham sido mais atingidos). Teoricamente era uma dedução “lógica”, afinal estas foram as áreas mais afectadas. Mas Abraham Wald, um matemático da altura, chegou a uma conclusão completamente diferente: os pontos vermelhos representavam apenas os danos nos aviões que conseguiam voltar às suas bases.

As áreas que realmente deveriam ser reforçadas deviam ser as zonas onde não havia pontos vermelhos, pois essas eram justamente aquelas onde o avião uma vez atingindo não sobreviveria. Este fenómeno ficou conhecido como Viés de Sobrevivência (distorção na maneira de observar, avaliar e agir em relação à realidade dos factos). Dá-se quando olhamos para as coisas que sobreviveram, quando devíamos concentrar-nos nas que não. E é aqui, que o “Milagre Português” caiu por terra!

Qualquer que fosse o partido que estivesse no actual exercício de funções de governação, nunca estaria suficientemente preparado para uma hecatombe destas e disso são exemplo, as mais variadas abordagens a esta Pandemia, consequência do vírus Covid-19, nos mais diversos Países e suas consequências. E em Portugal, não fugimos à regra passámos por uma abordagem inicial de sensibilização bem conseguida, junto de um comportamento exemplar por parte da maioria dos Portugueses, apreendendo com o que se estava a passar em tempo real nos outros Países, contando internamente com o apoio dos Partidos da coligação que suportam o actual governo, passando pelos partidos da oposição, nomeadamente o PSD, que teve sempre uma atitude responsável, construtiva e de cooperação frente a esta situação difícil em que o Pais mergulhou.

Para além disso, a simbiose era quase perfeita entre o Presidente da República e o Primeiro-ministro. Aparentemente estavam reunidas condições únicas para se fazer um excelente trabalho político, diferente da “politiquice” aproveitando a janela de oportunidades que estas crises abrem. A difícil tarefa de compreender o óbvio! Na gestão deste tipo de crises, importa saber se o somatório das partes é inferior, igual ou superior ao todo, ou seja, se temos o controlo de todas as variáveis e neste caso, era óbvio que não!

Sabia-se que o vírus teria vários picos como qualquer mutante, que estava a apreender esta nova realidade e seria ele, que mais tarde ou mais cedo marcaria o ritmo das nossas vidas, enquanto não se descobrir algo que o neutralize. E é aqui, que entramos na gestão das expectativas! Entre aquilo que as pessoas querem ver, ouvir e a realidade concreta, vai uma grande diferença! A verdade pode ser dura, mas não deixa de ser a verdade.

Num silêncio aparente por parte do vírus, parecia que a situação estava circunscrita e controlada, levando à euforia do “Milagre Português”, como se de uma predestinação divina se tratasse. Pior era Impossível! Entre as muitas pressões por um lado, das associações empresariais e dos sindicatos por outro, ao abrigo da urgência de não se matar a economia traçou-se o destino de uma crónica de uma morte anunciada.

O erro foi partir-se de uma perspectiva ou falta dela, de que a economia existe por vontade própria e está para lá da dimensão do serviço em prol do bem-estar humano, esquecendo-se de que se não houver pessoas ela não existe. Se a tudo isto juntarmos a falta de perspectiva e compreensão da verdadeira dimensão e escala desta mudança de Paradigma que esta em andamento, facilmente se cai no cúmulo do erro - que é aplicar sistematicamente as mesmas fórmulas à espera de resultados diferentes.

Os sinais tinham de ser dados no sentido de restituir alguma confiança e esperança junto da população, dos mais variados quadrantes da sociedade e foram dados, como foi o caso do soundbite - “O Novo Normal”! Comemorações, Celebrações, Espectáculos, Manifestações descontextualizadas começaram a acontecer um pouco por todo o lado, sem uma justificação plausível passaram a ser excepção, violando as regras que foram impostas a todos a bem da contenção da propagação do vírus, como se houvesse cidadãos de primeira e de segunda. Toda esta embrulhada, conjuntamente com a negação da realidade, só veio confundir ainda mais e dividir a opinião pública que já se encontrava saturada e à beira de um ataque de nervos em consequência do confinamento.

Quando os sinais de quem de direito vêm tortos, tarde ou nunca se endireitam! Passámos de “Bestiais a Bestas” rapidamente, esvaziando-se assim, todas as expectativas milagrosas confrontadas com a dura realidade de quem não sabia da missa a metade e que ainda a procissão vai no adro! Tal como na Segunda Guerra Mundial, o fenómeno - Viés de Sobrevivência (distorção na maneira de observar, avaliar e agir em relação à realidade dos factos) que se dá, quando olhamos para as coisas que sobreviveram, quando devíamos concentrar-nos nas que não. Pergunto-lhe a si, que está a viver a actual crise, como é que está a observar as coisas?


Psicólogo e Presidente da GRACI – Grémio das Artes e Ciência

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