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Etiópia. Dezenas de mortes em protestos por homicídio de cantor

Etiópia. Dezenas de mortes em protestos por homicídio de cantor

DR João Campos Rodrigues 01/07/2020 20:15

Hachalu Hundessa, a voz desta geração de oromos, foi baleado num ataque envolto em mistério. Durante os protestos pela sua morte houve tiros, explosões e derrube de estátuas. 

A voz de Hachalu Hundessa, um cantor etíope de 34 anos, assassinado esta segunda-feira, foi a banda sonora dos protestos que derrubaram o anterior Governo etíope, em 2018. A sua defesa dos direitos dos oromos, a maior etnia da Etiópia, que há muito se queixa de discriminação, era considerada corajosa, num país controlado há décadas por uma elite da etnia tigrínia. Muitos suspeitam que isso tenha custado a vida a Hachalu e saíram à rua em protesto, na quarta-feira, tendo já havido pelo menos 52 mortos, segundo a Reuters.

Os protestos centraram-se na região de Oromia, no centro do país, onde a polícia recorreu a gás lacrimogéneo para dispersar milhares de pessoas. Já na capital, Adis Abeba, ouviram-se tiroteios e explosões, tendo sido ateados incêndios e morrido vários polícias. “Não estávamos preparados para isto”, explicou um porta-voz das forças de segurança à agência norte-americana. Apesar de o Governo etíope ter bloqueado o acesso à internet, isso não impediu os manifestantes de se mobilizarem. 

Em Harar, no leste, ocorreu um episódio que traz à memória os protestos do Black Lives Matter: foi derrubada a estátua equestre de Ras Makonnen, pai do último imperador, Haile Selassie, ainda hoje adorado como o messias da religião rastafari. No único país subsariano que nunca foi colonizado por europeus, muitos oromos veem o histórico controlo do país pelos tigrínios e os amaras como uma forma de colonização. Aliás, Hachalu, questionado sobre o assunto numa das suas últimas entrevistas, à Oromia Media Network, lembrou que os cavalos em que se sentavam os antigos líderes eram propriedade do povo. 

“Hachalu era muito mais que um músico”, explicou Henok Gabisa, professor na universidade Washington and Lee, na Virgínia, ao VoA. “Era um ativista e artista que sempre se manteve firme. Há muito que dizia a verdade ao poder quando era difícil fazê-lo”. De facto, Hachalu pagara caro por resistir: passou cinco anos preso, após ser detido por protestos, aos 17 anos.

A falta de detalhes sobre o homicídio do cantor, abatido a tiro no seu carro, alimentou a especulação quanto à possível participação das autoridades: sabe-se que um número desconhecido de atacantes foram detidos no local e pouco mais.

O primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, que ganhou um Prémio Nobel da Paz o ano passado, ficou numa posição muito complicada. Por um lado, é o primeiro governante de origem oromo, escolhido para acalmar os ânimos após os protestos de 2018; por outro, trata-se de um antigo agente das secretas, dirigente histórico do partido que domina o país com mão de ferro há mais de 30 anos.

“Este foi um ato cometido e inspirado por inimigos domésticos e estrangeiros para destabilizar a nossa paz”, garantiu o primeiro-ministro, citado pelo Washington Post, lamentando o homicídio de Hundessa. Já os manifestantes cantaram, um pouco por toda a Oromia: “Abiy é nosso inimigo”.

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