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Vaiapraia. O poder do carisma

Vaiapraia. O poder do carisma

Bruno Gonçalves Hugo Geada 30/06/2020 21:07

Depois do sucesso do seu primeiro disco, 1755, Vaiapraia regressam com 100% Carisma, um mote para a emancipação.

Rodrigo Araújo, mais conhecido como Vaiapraia, nome do seu projeto musical, que o próprio explica que não é uma “personagem, um alter ego ou um heterónimo”, estava farto do confinamento causado pela covid-19. Farto de não poder sair de casa. Farto de não poder dar concertos.

Tudo está prestes a mudar. Na semana passada lançou o seu segundo disco, 100% Carisma. “Queria mesmo lançar este disco, independentemente da data”, explica-nos Rodrigo, referindo que as canções já existiam há algum tempo e estavam gravadas desde “o final do ano passado”. Na hora de lançar o álbum, procurar o contacto com o público também teve peso, uma vez que o músico quer “evitar fazer lives na internet”. “Acho que é fixe as pessoas adaptarem-se e fazerem coisas diferentes, mas quero voltar aos concertos ao vivo, mesmo que seja com menos pessoas”.

Lançar um disco novo é sempre um período entusiasmante na vida de um músico e imaginamos que seja especialmente entusiasmante para Rodrigo, que partilha agora um novo mote com os seus fãs. “Há uma música, Comidas do Infinito, onde anotei [100% Carisma], e que é um bocado um mote que criei para mim. Tal como os Bad Brains têm o PMA (positive mental attitude) também quis ter uma mensagem fixe que não fosse algo que nos colocasse para baixo”, justificou, comparando a atitude deste novo registo com o seu álbum anterior, 1755 (2016). “O disco anterior, com a referência ao terramoto, era um bocado mais de confissão, de segredo”.

Em 100% Carisma, apesar de termos o Rodrigo de “sempre”, é inevitável não observarmos uma evolução. “Apesar de ser a mesma pessoa, não existem alter egos ou personae ou heterónimos, sou apenas eu. Há uma transformação quando estou em palco, existe uma distância super grande entre essas pessoas”.

100% mais confiante O primeiro disco de Vaiapraia abria com Coelhinho, uma faixa provocadora – “eu sou um coelhinho quando tu olhas p’ra mim/ quero saltar e rebolar p’ra dentro de ti” – com uma qualidade lo-fi que encontramos em artistas como Ariel Pink, e que cria um personagem que parece ter saído diretamente do Gummo de Harmony Korine.

Tenho Fome, música que abre 100% Carisma, é uma escolha igualmente ousada, com Rodrigo a declamar um spoken word, sem qualquer tipo de instrumental ou rede de segurança a apoiá-lo, a repetir que “a tua violência nunca foi uma surpresa”.

De onde vem a violência desta música? Provavelmente, das pessoas que o julgam quando Rodrigo se sente “balofa a banhar-me com um donut”. Mas estes golpes não chegam a acertar-lhe.

Dentro do ringue, o carisma e a confiança de Rodrigo são mais do que suficientes para se desviar destes ganchos. “Excesso de peso, tenho excesso de peso”: esta, como a citação anterior, também faz parte da faixa Tenho Fome. Repletas de honestidade e sinceridade, ajudam ao “empoderamento” do músico e das pessoas que ouvem estas faixas.

“Eu decidi o nome do disco muito antes de as músicas estarem acabadas. Percebi logo que, se tivesse este nome, as músicas iam precisar de encaixar nesta ideia de empoderamento e emancipação”, explica o músico.

“O poder também é meu”, grita, ainda em Tenho Fome. E ainda estamos apenas na primeira faixa.

A produção grandiosa Rodrigo é o primeiro a admitir que a sua evolução neste disco, que conta com o próprio na voz e teclado, Ana Farinha na bateria, Francisca Ribeiro na guitarra e Daniel Fonseca no baixo, também se reflete na produção mais hi-fi do disco.

“Entre o primeiro disco e este senti que é impossível captar no disco [a sensação dos concertos], por isso decidi captar no álbum algo que não existe ao vivo”, explicou o setubalense. “Tentar não ter pudor em encher e pôr coisas que não vão existem ao vivo”.

Se, em 1755, a filosofia era “tem de ser tudo tal e qual acontece nos concertos”, em 100% Carisma era altura de abrir o “leque”.

Fora com a gravação em fita, para captar sons mais “crus e sujos”, estava na hora de Rodrigo abraçar a gravação digital, algo que permitiria a entrada de duas novas colaborações.

Interlúdio do Salmão, uma balada bastante despida, nasceu da contribuição de João Abelaira Nascimento, que criou a música a meias com Rodrigo. A outra foi 2003, faixa que conta com a contribuição da saxofonista britânica Lora Logic e que fez parte de X-Ray Spex, banda seminal de punk que contava com a icónica Poly Styrene como vocalista.

“Tinha o disco quase fechado quando mandei uma mensagem no Instagram à Lora Logic a perguntar se ela podia colaborar numa faixa, e ela aceitou”, explicou o músico, que teve oportunidade de estar com a artista nos Sanctuary Studios, em Watford.

“Fui ter com ela a Inglaterra e gravámos essa parte da música. Foi muito incrível conhecê-la, ela é alguém que podia ser minha mãe e, ao mesmo tempo, esteve no processo de criação de músicas que ajudaram a definir-me”.

Estas músicas que o ajudaram a definir-se, refere, foram estilos como o riot grrrl, com bandas como Bikini Kill, ou o queercore, movimento cultural e social que teve início em meados dos anos 1980 como uma ramificação do movimento punk e com fortes elementos de militância LGBT. Ter a oportunidade de trabalhar com alguém que ajudou a impulsionar estes estilos foi uma grande honra para Rodrigo.

“É importante conhecer este lado do punk, porque existe sempre esta historiografia que surge através dos Sex Pistols, The Clash, Buzzcocks... sempre homens brancos de Inglaterra, quando o punk tem muitas origens e até acho que as mais criativas surgem de outros lados. Sou um grande fã do trabalho das X-Ray Spex. Fazem críticas que mais tarde inspiraram os movimentos riot grrrl e queercore, mas nos anos 1970, muito à frente do seu tempo”.

Para além destes movimentos associados ao punk, Rodrigo confessou ter uma paixão pela música pop dos anos 1960, nomeadamente pelos girl groups produzidos por Phil Spector. “Gosto dessa ideia de dar uma grandiosidade às coisas quando ela não existe, uma coisa um bocado fake”, disse – algo que explica o porquê de algumas das músicas serem mais “redondinhas” e com estruturas mais convencionais, fruto da ajuda de Luís Severo e Adriano Cintra na produção e gravação das músicas.

O resultado de todas estas influências? Um disco repleto de cor e carisma. “Acho que neste disco há mais extremos. Existem duas ou três baladas, bastante calmas e redondinhas, e depois existem umas quantas que têm um som mais a rasgar e que são ainda mais barulhentas do que no outro disco. Acho que cada componente está mais explorada e mais assumida”. O resultado está à vista.

 

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