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Clã. “Muitas canções têm a sensação de urgência relacionada com a ideia de véspera”

Clã. “Muitas canções têm a sensação de urgência relacionada com a ideia de véspera”

Hugo Geada 26/06/2020 12:23

Com o desconfinamentoa abrir portas, os Clã querem aproveitar para apresentar ao público o seu novo disco, Véspera.

Atire a primeira pedra quem nunca sofreu por antecipação e passou uma noite em branco na véspera de um acontecimento importante. Sou o primeiro a admitir que na noite antes de ligar à Manuela Azevedo, vocalista dos Clã, estava às voltas na cama a pensar como iria abordar a nossa entrevista. É precisamente esta sensação (se calhar, não de uma forma tão literal) que o novo álbum da banda portuguesa, Véspera, aborda. A sensação de “quando estás imediatamente antes de algo que vai exigir de ti uma resposta forte ou de um acontecimento que te vai marcar”, explica-nos a cantora.

Como foi a sua quarentena e como ocupou o seu tempo?

Na verdade, como tinha estado a gravar o disco com os Clã, não houve uma grande mudança de hábitos e até de espaço. Estando a gravar um disco, estamos sempre confinados ao estúdio. A maior chatice foi ter o disco pronto e a vontade era de subir para os palcos e não ficar outra vez confinados em casa [risos], mas acabou por ser um tempo menos entediante ou aborrecido do que imaginávamos à partida porque, como decidimos lançar o disco ainda em fase de confinamento, isso obrigou-nos a perceber como íamos comunicar o lançamento, o que íamos fazer para compensar o facto de não estarmos a fazer concertos. E tudo isso obrigou-nos, não só a banda, mas também a equipa criativa, a apresentar soluções e a fazermos muitas reuniões por Zoom [risos]. Foi uma altura de muito trabalho, de muita ebulição de ideias, de muita conversa, o que ajudou a encarar estes dias estranhos de suspensão, que todos tivemos, de uma maneira mais simpática e acompanhada, apesar de estarmos sempre à distância.

É estranho lançar agora um disco, dada a impossibilidade de o tocar ao vivo?

Ainda estivemos a ponderar se devíamos ou não lançar o disco porque, para nós, ter as canções novas e não as ter em palco é uma coisa estranha, porque é lá que muitas vezes descobrimos coisas importantes sobre os trabalhos novos. É uma fase mesmo muito importante do trabalho, mas o que aconteceu – quando toda a gente ficou confinada e quando pensávamos no que tínhamos de fazer para continuar a comunicar com quem segue o trabalho da banda – foi que a ideia de o fazer com coisas já antigas não nos fazia sentido nenhum. Ainda por cima, tendo novas canções nas mãos, e algumas delas com uma ligação muito direta e quase literal com os tempos que vivemos, parecia-me esquisito estar a guardar estas canções e não as partilharmos já. Por isso decidimos, mesmo não sabendo quando poderíamos estar num palco com as canções, lançar na mesma o disco no dia 22 de maio. Depois, o que fomos fazendo foi tentar encontrar alguma maneira de tocarmos juntos, mesmo não estando juntos, e com isso estarmos um bocadinho mais próximos das pessoas. Fizemos, por exemplo, uma série de vídeos mesmo em casa em que estamos cada um no seu canto a fazer versões minimais do disco. Foi uma solução que encontrámos para matarmos as saudades de tocarmos uns com os outros e, de alguma maneira, de fazer com que as pessoas nos vissem e percebessem como aquelas canções vivem nos nossos corpos e nos nossos instrumentos. E foi essa a solução que encontrámos para contrariar esta coisa esquisita de não podermos estar no palco. Entretanto, felizmente, o desconfinamento foi acontecendo e já tivemos o primeiro concerto em Almada, um primeiro encontro com o público no Festival Regresso Ao Futuro. Soube muito bem estar com a nossa equipa técnica, de quem tínhamos muitas saudades, e foi essa coisa de estarmos no nosso elemento, no palco, a tocarmos uns com os outros e com o público à nossa frente. Mesmo com máscara, sabe bem tê-los à nossa frente. [risos] Foi muito bom perceber que as pessoas estão ansiosas por ver um espetáculo, seja de música, dança ou teatro, mas ali ao vivo, que é uma experiência que o melhor streaming ou a melhor plataforma que possa trazer um espetáculo para as nossas casas não consegue replicar. Não há nada que substitua a experiência em direto de um espetáculo.

Estava a falar sobre o facto de as música refletirem o contexto atual. Esse é o caso da faixa “Armário”, que parece que foi feita de propósito para o tempo em que vivemos.

Embora não tenha sido feita de propósito – ela foi estreada ao vivo no verão do ano passado, no festival Douro Rock. O que aconteceu foi que, quando de repente estávamos todos enfiados em casa e ouvíamos a canção, ela tinha, de facto, uma ressonância demasiado literal com o que estávamos a viver, e até foi isso que nos levou a criar um videoclipe com ela para ilustrar a canção e podermos partilhar nessa altura com toda a gente. Sentíamos que era, de facto, uma boa maneira de partilharmos com as pessoas o que toda a gente estava a sentir, que era o medo de sair, de estar encerrado num espaço, e o medo do futuro e do que está lá fora. Portanto, era uma descrição muito precisa do que estávamos a viver em todo o mundo nessa altura. Foi muito curiosa a maneira como conseguimos criar esse videoclipe, foi um diálogo muito interessante à distância entre os dois realizadores, o André da Loba, que também realizou todo o trabalho gráfico e as ilustrações que acompanham o disco, e a Joana X, que é uma jovem realizadora que tem estado desde o início do processo de gravação do disco a acompanhar os bastidores dos Clã, portanto conhece muito bem toda esta aventura que temos estado aqui a atravessar. E foi muito engraçado perceber como eles conseguiram encaixar e construir esta peça tão gira que é o videoclipe do “Armário”.

Atualmente, apesar de muitos músicos explicarem que as músicas que estão a lançar agora já estavam escritas há muito tempo, estas ressoam perfeitamente aos tempos que estamos a viver.

Isso deve-se ao facto de o que nós estamos a viver com esta pandemia ser uma concretização muito violenta de sinais que não são nada positivos para o nosso planeta e que já estão a acontecer há alguns anos. Esta sensação de receio em relação ao futuro é comum a muita gente já há algum tempo, e é por isso que se sentem ecos disso em canções e peças de teatro e de dança que vamos vendo nos últimos tempos. Quem faz arte, de alguma maneira, filtra o que existe no mundo para tentar comunicar isso em cena. Em países que são absolutamente essenciais no equilíbrio do globo e que têm pessoas como o Bolsonaro e o Trump à frente, de uma maneira irresponsável, isto deixa toda a gente um bocado em pânico. Olhar para a Europa e perceber a maneira como a crise de refugiados é encarada de uma forma completamente egoísta e desumana por alguns países, ou o facto de haver ideologias que achávamos que já tinham sido enterradas na História há muito tempo e que estão a voltar a surgir, o facto de ainda termos de ir para a rua nos dias de hoje denunciar o racismo, tudo isto são coisas que me deixam inquieta em relação ao futuro e me fazem temer sobre o que estamos a fazer. O facto de o planeta estar em crise, apesar de ter estado sossegado devido à quarentena [risos], e os Governos não acordarem para essa necessidade deixa qualquer pessoa inquieta e apreensiva em relação ao futuro e com esse medo de sair do armário e de ir lá para fora. [risos] Acho que tudo isso justifica o facto de haver muitas coincidências entre as letras de muitas canções que foram compostas nos últimos tempos e o que vivemos de maneira mais gritante nestes estranhos dias pandémicos.

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