15/7/20
 
 
António Luís Marinho 26/06/2020
António Luís Marinho
cronista

opiniao@newsplex.pt

Os artistas e nós

Quando um artista morre devemos apenas curvar-nos em silêncio ou dar-lhe o aplauso derradeiro na sua partida. Mas, sempre, respeitá-lo.

Quand il est mort, le poète,
Tous ses amis,
Tous ses amis pleuraient.
Quand il est mort, le poète,
Le monde entier,
Le monde entier pleurait.”
Louis Amade

Nunca saberemos agradecer devidamente aos artistas que contribuem dia a dia, com a sua arte, para nos transmitir felicidade.
O que seríamos de nós sem as diferentes manifestações artísticas? Sem aquilo que nos transcende, que nos conduz ao sonho? 
Para uns, o prazer estaria num quadro de Van Gogh, numa ópera de Mozart ou num filme de Bergman. Para outros, seria uma tela de Columbano, um fado de Amália ou um romance de Eça de Queiroz que lhes despertaria indescritíveis emoções.
Reflexo da alma, isto é, do nosso interior mais profundo, a arte conduz-nos inevitavelmente ao prazer. E, para isso, os artistas dão tudo, superam-se. 
Todos nós temos uma música, um filme, um quadro, um livro que nos marcou para sempre. 
Todos nós precisamos de sair da realidade, de tempos a tempos, e é aí que começa a arte. Seja ela, como defendeu Stanislavski, a ordem e a harmonia ou, como contrapôs Adorno, “a introdução do caos na ordem”.
“A arte deve apanhar a realidade de surpresa”, afirmou Françoise Sagan. Só desta forma, surpreendendo-nos, nos arrebata.
Como se mede um momento de puro prazer? Quanto vale? 
Quanto vale uma canção de Rui Veloso num momento de ternura? Ou o arrebatamento de um poema de Natália Correia, como a “Defesa do Poeta”? Ou a emoção numa interpretação teatral de Eunice Muñoz? 
Os artistas, seja qual for a sua arte, merecem de nós respeito e eterna gratidão. São fabricantes de sonhos, produtores de fantasia, companheiros de viagem para destinos que só existem na nossa imaginação. 
Tanto nos acalmam quando precisamos como nos despertam quando isso se torna urgente. 
É por isso que nos revemos neles tantas vezes, que “vivemos” a vida deles, que os amamos e odiamos.
É por isso que, quando um artista morre, nos devemos apenas curvar em silêncio ou dar-lhe o aplauso derradeiro na sua partida. Mas, sempre, respeitá-lo.
Por mais que os coloquemos num pedestal, que os consideremos inatingíveis, eles são tão humanos quanto nós. Com as mesmas forças e as mesmas fragilidades. 
Numa recente entrevista na Revista do Expresso, a cantora Ana Bacalhau afirmou: “É muito fácil acharmos que somos a última coca-cola do deserto quando estamos em cima do palco, e depois temos de fazer o caminho contrário e perceber que somos apenas mais um”.
Porque, citando Hipócrates, “a arte é longa, a vida é breve”. 

Jornalista

 

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