15/7/20
 
 
Rodrigo Alves Taxa 26/06/2020
Rodrigo Alves Taxa

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Cueca a Costa

Aí vai Costa. Costa acelera, colado à linha do corredor esquerdo, já driblou os professores e os médicos com aplausos, aí vai ele, segue qual besta desalmada pelo chicote do ilusionismo dos seus dribles palacianos. Ele segue, já esqueceu Tancos e Pedrógão, o miúdo está maluco, o PS rejubila, o PSD não abre o bico e o Marcelo diz que é o melhor do mundo não tarda. Costa segue, já passou o meio-campo, aí vai, aí vai ele, já só tem os enfermeiros pela frente, tenta mais um drible e a bola escapa nas dificuldades que a classe passa. Costa insiste, tenta marcar golo acenando com a final da Champions, Costa vai, Costa chhhhhhhhhhhhhhhhhhhuta, mas é desarmado pelos profissionais da saúde, que lhe tiram a bola, lhe fazem uma cueca e lhe acenam com manguitos ao alto. 

Como diria o célebre Jorge Perestrelo: o que é que é isso, ó meu?? 

Admirados com este início de artigo? Não estejam. Depois de António Costa ter dito a André Ventura que este tinha ido de trivela, cheira-me que, afinal, foi ele quem agora levou uma cueca pela reação mais que legítima que muitos profissionais de saúde tiveram quando perceberam que o seu prémio pelos impagáveis serviços que têm prestado à nossa população seria – calma, respirem, sentem-se – a disputa da final da Liga dos Campeões em Lisboa. Assim sim! Dá gosto ser médico ou enfermeiro. Assim sim, vale a pena colocar diariamente a própria saúde em risco para cuidar das vidas dos outros. Dá gosto ganhar mal e, em muitos casos, a más horas, mas depois ter este prémio. Brutal!! Obrigado, António Costa. És o maior, pá!

Agora que já brincámos um bocado – o que, no fundo, é aquilo que António Costa anda a fazer com toda a gente vai para cinco anos –, vamos falar um bocadinho a sério. Mas para não dizerem que é fácil criticar quando se está de fora, quero desde já aclarar que, obviamente, não há qualquer governante ou país no mundo que estivesse preparado para esta pandemia, bem como para as suas consequências sanitárias e financeiras. Nessa medida, obviamente que seria hipócrita dizer que o assunto é fácil de gerir, porque não é. No entanto, sendo tudo isto verdade, não é menos verdade que quem governa sabe que a qualquer momento pode ser chamado a responder a situações calamitosas e que, portanto, se essa hora chegar, deve estar à altura das funções que representa. Ou então, se não estiver, que se ponha ao fresco. Que vá para os balneários mais cedo do que os outros jogadores.

Aqui chegados, há que dizer que a máscara caiu. Se, durante várias semanas, tivemos muitos de nós, uns mais que outros, a aparente ilusão de que a pandemia estava a ser bem gerida no nosso país, essa mística começa a cair. E não é só pelo aumento de números de infetados em Lisboa e Vale do Tejo, na medida em que sou dos que sempre entenderam que o desconfinamento traria consigo o aumento de casos nos grandes aglomerados populacionais. O que me choca é a verdadeira navegação à vista que, uma vez mais, o Executivo exerce. 

Desde declarações proferidas pela DGS em que num minuto se diz uma coisa e, no seguinte, o seu contrário, a supostas aquisições de máquinas médicas que foram pagas a pronto mas ainda não chegaram, aos critérios sanitários de abertura de salas de espetáculos que são verdadeiramente arbitrários ou à consideração de que o SNS é muito robusto quando já há unidades hospitalares no limite da sua capacidade. Há de tudo e para todos os gostos. Pois eis que a cereja no topo do bolo é a realização da final da Liga dos Campeões em Lisboa quando esta cidade se encontra aparentemente descontrolada quanto à propagação da pandemia, vindo o primeiro-ministro dizer que a sua realização é um prémio para os profissionais de saúde e a robustez do Serviço Nacional de Saúde. Pior: prémio este anunciado em Belém com a presença das três maiores figuras do Estado. Por momentos pensei que iam anunciar o aumento dos salários dos profissionais de saúde. Ou a disponibilização de mais verbas para o SNS. Mas não, foi só a final da Liga dos Campeões. 
Que já ninguém tem vergonha na cara, já sabemos, mas ao menos disfarcem!

Escreve à sexta-feira

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