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Joel Schumacher. Os altos e baixos de uma vida digna de um filme

Joel Schumacher. Os altos e baixos de uma vida digna de um filme

AFP José Cabrita Saraiva 24/06/2020 22:36

Estudou moda, foi vitrinista e figurinista, lançou jovens atores e conhecia toda a gente. Joel Schumacher, realizador com uma vida cheia e uma carreira com mais sucessos que fracassos, faleceu aos 80 anos.

O seu nome ficará para sempre associado ao Batman, e em especial ao vilipendiado Batman & Robin (1997), uma espécie de paródia em que o homem-morcego foi interpretado por George Clooney. “O elenco era maravilhoso, pessoas maravilhosas, mas não foi a minha melhor obra”, reconheceria o realizador. “Sei que desiludi algumas pessoas com Batman & Robin mas não é o fim do mundo”. Nunca se deixou abater pelas más críticas. Continuou a trabalhar em projetos mais pequenos, conseguindo reabilitar-se e reconciliar-se com o público através de filmes como 8 mm (1999) e Cabine Telefónica (2002). O Fantasma da Ópera (2004), uma adaptação do musical de Andrew Lloyd Weber, foi nomeado para três óscares. A sua última película seria Transgressão (2011), em que Nicole Kidman e Nicolas Cage desempenhavam o papel de um casal que é feito refém por um grupo de assaltantes violentos.

Joel T. Schumacher, realizador de 25 longas-metragens, faleceu na sua casa em Nova Iorque esta segunda-feira, depois de um ano a lutar com um cancro. Tinha 80 anos. “Viveu uma vida extraordinariamente criativa e heroica. Estou grato por tê-lo tido como amigo”, escreveu Jim Carrey no Twitter.

De facto, Schumacher teve uma vida rica, intensa e preenchida. Assumidamente homossexual, na última grande entrevista (concedida em 2019 à revista Vulture), por exemplo, referiu que teria tido mais de dez mil parceiros de cama.

“Tem ideia de quantos parceiros teve?”, perguntava-lhe o entrevistador.

“Seria na casa dos dois dígitos dos milhares, mas não é assim tão invulgar”.

“Quer dizer uns dois mil ou três mil?”, insistia o interlocutor, para ter a certeza.

“Isso não são dois dígitos, é só um”.

“Oh! Então são 20 mil ou 30 mil. Por aí”.

“Ou 10 ou 20”, esclarecia o realizador.

“Isso é espantoso”.

“Não para um homem gay, porque está disponível”, rematou.

Da rua para a moda Nascido em Nova Iorque em 1939 (dizia que tinha a idade do Batman, que apareceu pela primeira vez no número 27, de maio desse ano, da revista Detective Comics), Joel Schumacher passou a infância em Long Island e perdeu o pai quando tinha apenas quatro anos. “Se fores filho único, não tiveres pai e a tua mãe trabalhar seis dias por semana e três noites por semana, és livre”, recordou nessa mesma entrevista à Vulture. “A rua foi a minha escola. Nessa altura podia-se atravessar a ponte da Rua 59 [que liga Queens a Manhattan] de bicicleta. Eu ia de bicicleta para todo o lado”.

Perdeu muito rapidamente a inocência. “Comecei a beber aos nove, a fumar aos dez, a asnear sexualmente aos 11”, confessaria.

Mas não deixou de estudar. Fê-lo na Parsons School of Design e no Fashion Institute of Technology. Enquanto estudava, trabalhava como vitrinista numa loja de luxo de roupa para mulher, a Henri Bendel, na 5.ª Avenida. “A Bendel era a joia das lojas”, descreveu, ao mesmo tempo que se gabava de ter ganho “todos os prémios que havia para ganhar na Parsons. Conheci todo o mundo da moda, toda a alta socidade, toda a gente”. Já nessa altura se dava com as figuras mais influentes desse meio, era convidado para festas e aparecia nas fotografias da Vogue. Um amigo dizia sobre ele: “A razão por que adoro o Joel Schumacher é que ele foi para uma festa quando tinha 11 anos e só regressou a casa aos 52”.

A juventude e as suas ânsias O próprio não ia tão longe, mas reconhecia que tinha perdido cinco anos entre 1965 e 1970, quando a sua vida se resumia a mergulhos no oceano, drogas, sexo e a adorar o sol. Passava os dias pedrado sem mais nada vestido do que uns calções de banho.

Em todo o caso, isso não lhe bastava – ou então acabou por fartar-se. Rumou a Los Angeles, onde em 1973 trabalharia com Woody Allen (a fazer o guarda-roupa de O Heroi do Ano 2000), de quem se tornou instantaneamente amigo. Naquela época, Hollywood “era uma pequena comunidade”, disse à Vulture. “Conhecias toda a gente. Conhecias os chefes dos estúdios pelo nome próprio. Era um mundo em que toda a gente dava jantares em suas casas”.

Estreou-se na realização em 1981 com A Incrível Mulher que Encolheu, a história de uma mulher que fica do tamanho de uma boneca.

Talvez por ter sido obrigado a crescer demasiado depressa, Schumacher pareceu sempre compreender como ninguém a juventude, as suas ânsias e os seus problemas. Demonstrou isso em O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas (St. Elmo’s Fire, 1985), acerca de um grupo de amigos que ao terminar o curso se confronta com as limitações e as responsabilidades do mundo adulto. Aí revelou uma geração de atores, como Rob Lowe, Demi Moore e Emilio Estevez.

Seguiram-se Os Rapazes Perdidos (1987), um considerável sucesso entre as camadas mais jovens, e Linha Mortal (1990), a história perturbadora de um grupo de jovens cientistas que brincam literalmente com a morte: depois de a provocarem em laboratório, usam desfribiladores para trazerem o corpo de volta à vida, relatando depois as suas experiências do outro lado.

O êxito atingido permitiu-lhe entrar no mainstream de Hollywood, consubstanciado nos thrillers judiciais O Cliente (1994) e Tempo de Matar (1996).

As receitas geradas e os créditos entretanto acumulados fizeram dele o eleito para suceder a Tim Burton na saga Batman. Conseguiu insuflar uma nova vida ao super-herói com Batman Forever, que foi tão bem-sucedido que, para fazer a sequela, lhe “despejaram” dinheiro para cima. O resultado foi pouco menos que desastroso, apesar do elenco de luxo: Batman & Robin, marcado por uma estética kitsch, que contrastava com o imaginário sombrio da personagem e que muitos associaram à sua homossexualidade. De qualquer modo, não se preocupava com os comentários da crítica especializada: seguindo um conselho dado por Woody Allen, nem sequer os lia.

 

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