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A arquitetura dos números

A arquitetura dos números

Alexandre Ferreira 24/06/2020 16:28

Os arquitetos portugueses, apesar da qualidade e reconhecimento do seu trabalho fora de portas, ao longo das últimas décadas,  em território nacional sempre que é conveniente e de serem uma das classes mais qualificadas que este país soube gerar, têm em média rendimentos baixos. 

por Alexandre Ferreira
Arquiteto,Vice-presidente do Conselho Diretivo Regional Norte da Ordem dos Arquitetos

A arquitetura, não obstante, cativar mais pela dimensão estética e espacial, é no resultado uma síntese e o cumprimento escrupuloso de números, sejam por força de regulamentos, nas áreas de implantação e volumetrias ou por imperativos económicos, nos orçamentos. A dimensão técnica e precisa da disciplina coloca os arquitetos entre os profissionais cujo trabalho mais depende do rigor dos números.

Infelizmente, no caso dos arquitetos portugueses, esse rigor é aplicado apenas em benefício dos seus projetos e clientes e poucas vezes em causa própria.

O PESA (Plano Estratégico para o Setor da Arquitetura), promovido pela OASRN (Ordem dos Arquitetos – Secção Regional Norte) e encomendado à Universidade do Minho, revela nos seus capítulos II (Diagnóstico) e IV (Análise de Custos) uma realidade agreste, que apesar de ser percetível por todos, nunca tinha sido demonstrada com números crus e cruéis que dão medida a um triste paradoxo.

Os arquitetos portugueses, apesar da qualidade e reconhecimento do seu trabalho fora de portas, ao longo das últimas décadas,  em território nacional sempre que é conveniente e de serem uma das classes mais qualificadas que este país soube gerar, têm em média rendimentos baixos. Mais baixos que os seus congéneres europeus e também mais baixos que outros portugueses com formação superior.

 São 14  mil euros por ano de rendimento que, em média, os arquitetos portugueses obtêm de uma profissão na qual projetam, coordenam e analisam obras que vão das centenas de milhares aos milhões de euros, com uma responsabilidade civil inerente a cada ato, como poucas profissões estão sujeitas e com esse rendimento suportam os custos da sua atividade profissional e da sua vida pessoal.

Um péssimo negócio, dirão os outros. Concordamos, dizem os arquitetos. Concorda inclusive quem não gosta que se fale publicamente destes assuntos, seja por uma pretensa noblesse oblige, seja por taticismos circunstanciais ou por fazer parte da minoria que beneficia da atual situação.

Só que não tem, nem deve ser assim.

Os números têm o condão de iluminar e, por esse motivo, no PESA estão explanados os valores de honorários por hora, a partir dos quais a atividade de arquiteto em Portugal passa a ser rentável para quem assume o risco e digno para os arquitetos por conta de outrem, assinalando de forma incontestável o limiar abaixo do qual os arquitetos passam a pagar para trabalhar.

A análise objetiva e factual que emana deste documento, sem prejuízo das variáveis de contexto económico e territorial, das diferentes perceções do valor do trabalho e sem atentar à livre concorrência e a um enquadramento jurídico com demasiada carga ideológica, permite informar e consciencializar todos os arquitetos que há limites que atentam à viabilidade e dignidade da profissão e que não há nota de curriculum ou capa de revista que valham a cedência.

No entanto, o que se consegue alcançar com autorregulação económica da profissão e informação têm os seus limites. A emergência da definição de valores mínimos por ato ou tipologia de projeto, que ponha travão a pressões que resultam em honorários abaixo do preço de custo,  é imperativa para a arquitetura e para outros setores de atividade, porque não se pode aceitar perpetuar, em Portugal e na Europa, modelos que assentem o seu funcionamento em mecanismos de degradação económica dos quais poucos beneficiam. Sobretudo porque as pessoas não são meros números.

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