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Crise sanitária. Como Medina irritou o PSD e levou a crítica de falta de educação

Crise sanitária. Como Medina irritou o PSD e levou a crítica de falta de educação

Bruno Gonçalves Cristina Rita 24/06/2020 08:57

Autarca de Lisboa (PS) não gostou de ouvir o desafio do autarca de Ovar (PSD) sobre medidas mais musculadas para a capital e a sua área metropolitana e considerou que Salvador Malheiro “estava com saudades de ir à televisão”. Estalou o verniz com a direção de Rui Rio.

O verniz estalou. O pedido de uma solução mais musculada para a zona de Lisboa para combater a pandemia de covid-19 acabou por se traduzir num momento de tensão entre a direção do PSD e o autarca socialista da capital, Fernando Medina. As críticas de Medina a Salvador Malheiro mereceram, aliás, respostas duras nas redes sociais de outros sociais-democratas e reações contundentes contra o autarca de Lisboa.

Mas vamos por partes. O presidente da Câmara de Lisboa (PS) não gostou de ouvir o autarca de Ovar (PSD) a pedir restrições mais pesadas para Lisboa, perante o aumento sucessivo de casos de covid-19 na capital, mas também em algumas zonas dos vários concelhos da Área Metropolitana de Lisboa. Salvador Malheiro sugeriu mesmo confinamentos, se necessário, na zona de Lisboa, o que foi interpretado como um desafio para instituir cercas sanitárias. Tal posição mereceu resposta crítica do autarca da capital, Fernando Medina.

Numa entrevista à TVI, o autarca de Lisboa mostrou o seu desagrado pela ideia lançada pelo dirigente social-democrata: “Salvador Malheiro estava com saudades de ir à televisão (...) Basta uma freguesia de Sintra para ser maior do que Ovar. A minha valorização do que ele diz é nenhuma”, atirou Medina. A resposta de Malheiro não se fez esperar. O autarca de Ovar, município que viveu largas semanas com uma cerca sanitária, acusou Medina de “falta de educação” num texto publicado no Facebook. Malheiro garantiu um comentário de Rui Moreira, autarca do Porto, com “um abraço para Ovar e para o seu presidente”, e o líder do PSD, Rui Rio, saiu em defesa do seu autarca e vice-presidente. No Twitter, Rio atirou: “Fernando Medina esteve muito mal na resposta ao Presidente do Município de Ovar, Salvador Malheiro. Todos temos momentos menos felizes e, hoje, o Presidente da Câmara de Lisboa esteve particularmente infeliz”. Do lado de Malheiro, o caso parece ter ficado por aqui, mas, no PSD, até os críticos internos do passado de Rio (e da sua direção) atacaram a atitude de Fernando Medina.

Carlos Abreu Amorim, antigo deputado do PSD (que apoiou Luís Montenegro e criticou Rio e a sua equipa no passado), considerou que as declarações de Fernando Medina resultaram numa “atitude sobranceira”.

Para Abreu Amorim, Medina “deveria ter tido mais contenção, quanto mais não fosse porque o visado que atacou com grande ferocidade na TVI não estava ali para responder”, conforme defendeu o ex-deputado em declarações ao i.

O antigo deputado do PSD olha depois para a acusação feita por Medina e acrescenta que o autarca de Lisboa tem “imensos telhados de vidro”. Acusar o autarca de Ovar de estar a produzir declarações para estar a aparecer nas televisões é uma crítica que não colhe, segundo Abreu Amorim. “Ora, o senhor presidente da Câmara de Ovar, que eu saiba, não tirou fotografias a distribuir bilhas de gás, nem passa o dia a aparecer nas televisões e nos diferentes meios de comunicação social”. Carlos Abreu Amorim aludia a uma imagem do autarca a entregar bilhas de gás logo no início do estado de emergência, em março. Essa imagem foi duramente criticada por militantes do PSD e pessoas ligadas à direita portuguesa nas redes sociais.

“Se há autarca em Portugal que não pode acusar ninguém, muito menos um colega presidente de câmara, de fazer tudo para aparecer nas televisões é exatamente o presidente da Câmara de Lisboa”, acrescentou Carlos Abreu Amorim.

O ex-deputado sublinhou ainda que não ficou surpreendido com Medina porque o defrontou em 2011 no círculo eleitoral de Viana do Castelo, e recorda que o autarca de Lisboa defendia José Sócrates “ quase furiosamente e de uma forma completamente irracional”. Ou seja, “mostrou-me quem é que estava ali”, concluiu Abreu Amorim.

Já Ribau Esteves, presidente da Câmara de Aveiro e social-democrata, começou por dizer ao i que “não se quer meter em semelhante episódio porque não o acha útil”.

Porém, o autarca de Aveiro aconselha mais calma: “Nós, presidentes de câmara, e nós, governantes do Estado, porque cada um de nós é governante de uma parte do Estado português, devemos confiar uns nos outros, devemos ajudar-nos uns aos outros e, obviamente, quando temos de nos criticar uns aos outros, fazemo-lo de forma clara, elegante e democrática”.

Para Ribau Esteves, o momento requer “cooperação” porque “o que vivemos é, de facto, muito difícil”. Assim, diz Ribau Esteves, “a nota que quero dar é de testemunho, é de trabalho de equipa, sabendo que quando temos de criticar, devemos fazê-lo, podemos fazê-lo de uma forma clara e linear, e não em jeito provocatório, porque isso é que não interessa nada à causa que estamos a servir”. O autarca de Aveiro dá, por fim, um conselho e deixa uma crítica a Medina: “Julgo que uma boa conversa entre os dois tinha ajudado, um e outro. A reação do colega Medina, que muito estimo e considero ao mais alto nível, é um momento infeliz”.

No Facebook, Salvador Malheiro respondeu a Medina, recordando que o autarca do PS não tem “qualquer pudor em se colocar em pose, atrás das câmaras, aquando da chegada de um qualquer avião carregado de EPI” e falou em “falta de respeito” para com Ovar e as suas ligações e as origens do Bairro da Madragoa em Lisboa. E remata: “Temo, infelizmente, pela vida, segurança e proteção de todos os munícipes de Lisboa, perante tamanha falta de liderança, arrojo e coragem do seu Presidente de Câmara (que não é de Lisboa)”.

“Salvador Malheiro estava com saudades de ir à televisão porque ele não faz ideia do que é Lisboa. Basta uma freguesia de Sintra para ser maior do que Ovar”

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