15/7/20
 
 
António Cluny 23/06/2020
António Cluny

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O princípio da esperança: da luta contra a pandemia para a luta contra as desigualdades que ela destapou

Não deixar morrer o sentido de esperança e usá-lo com coragem e determinação política, agora para resolver as situações de gritante desigualdade que a pandemia ajudou a exibir, é o único caminho para credibilizar a democracia.

O tempo inicial de pandemia ofereceu-nos um momento inabitual de interrupção e descanso na exploração mesquinha e mediática dos casos escandalosos que, habitualmente, dominam o panorama político e são, em geral, os temas dominantes de discussão pública.

Calou, por instantes, as intrigas palacianas, os enredos do futebol nacional e mesmo as bisbilhotices inócuas, mas alienantes, dos protagonistas dos chamados meios artísticos e de entretenimento.

De pouco importaram também, nesse período, os relevantes escândalos políticos, económico-financeiros e judiciais que condicionam a vida política nacional e a visão clara dos problemas que devem ser resolvidos.

Durante algum tempo, tudo parecia conduzir-nos, por milagre, à assunção responsável de um desígnio comum: um desígnio que mobilizava cada um de nós e a sociedade em geral.

Foi tal mobilização geral – que contou, também, com desertores e oportunistas – que conduziu o país a resultados de que se pode orgulhar.

As discussões que nesse período foram travadas, por se legitimarem em opiniões científicas firmes (mesmo que nem todas absolutamente certas), puderam desta vez conduzir a decisões fundadas na boa razão e na busca sincera do bem de todos.

Todo o processo gerou, por isso, um movimento de unidade nacional raro, mas verdadeiro, daqueles de que há muito nos havíamos esquecido.

Desde que me lembro, só o 25 de Abril foi capaz de, por momentos, suscitar algo idêntico.

O segredo de tal unidade assentou, entre outros, no conhecimento, na explicação e aceitação pública da racionalidade das decisões, na intenção indisfarçada de se atingir o bem comum, na vontade momentânea de alguns de abdicarem dos interesses mais egoístas, na confiança coletiva na capacidade de todos e de cada um para transformarem, positivamente, a realidade e vencerem a adversidade.

É verdade que, como sempre, este movimento exigiu mais de uns do que de outros.

Exigiu, naturalmente, muito mais dos mais fracos, exatamente daqueles que tiveram de dar quase tudo o que possuíam: a força de trabalho que deixaram de exercer, privando-se, e às suas famílias, do sustento essencial.

Mas essa generosidade coletiva e o despojamento total de alguns só foram possíveis porque o objetivo que se queria alcançar dependia, imperativamente, do esforço de todos.

Foi, pois, essa esperança comum, que se fez força coletiva, que transformou o desastre iminente num momento raro de unidade e responsabilidade.

Todos compreenderam que, afinal, havia alternativa e que ela dependia de todos ou, pelo menos, da maioria.

Nesse sentido, a excecionalidade do momento não residiu exclusivamente na compreensão geral da gravidade do próprio problema que era necessário vencer, mas resultou, isso sim, da força da esperança que, para tanto, os responsáveis conseguiram desde logo associar-lhe.

Sem a força dessa esperança comum – e ela, em geral, é hoje escassa na motivação política da sociedade –, nada teria sido alcançado.

E é essa mesma esperança comum que nos tem faltado quando se trata de resolver os outros problemas, os problemas dos outros; aqueles problemas cuja resolução, afinal, está bem mais facilmente ao nosso alcance e que, quando bem e justamente solucionados, podem transformar para melhor a vida de muitos dos nossos concidadãos e ajudar, mais facilmente, a debelar esta e outras pandemias que a todos afetam.

Sim, resolver bem, e em tempo, a vida daqueles cidadãos que agora deram tudo o que tinham para ajudar a vencer um problema que, afinal, era de todos – era nosso –, e não apenas deles.

A resolução da melhoria da sua vida faz, aliás, também parte da solução da pandemia.

Foi o que recentemente se tornou evidente, aquando do despontar de novos focos pandémicos em zonas onde residem, nas piores condições, muitos dos nossos concidadãos mais pobres e marginalizados.

E não se trata apenas de pura caridade que se resolva com a distribuição generosa de alimentos ou vestuário: trata-se de proporcionar melhores condições habitacionais, melhores transportes públicos, melhores equipamentos sanitários e de ensino e, sobretudo, de impor melhores condições de trabalho, com direitos e regras higiénicas.

Não deixar morrer esse sentido de esperança comum e usá-lo com coragem e determinação política, para resolver agora as situações de chocante desigualdade que a pandemia ajudou a exibir, é o único caminho, pois, para impedir o descrédito na democracia, nas suas instituições e respetivos dirigentes.

É, no mínimo, o preço razoável a pagar, agora, por aqueles todos que antes não tiveram, felizmente, de dar tudo o que tinham no combate à pandemia.

Só a esperança numa vida melhor que mobilize a maioria dos cidadãos para transformar a sociedade, reduzindo drasticamente as desigualdades e resolvendo os problemas mais gritantes dos mais fracos e pobres, pode ainda dar sentido a políticas que se reivindiquem da democracia.

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