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Paolo Giordano. Os dias anotados do vírus

Paolo Giordano. Os dias anotados do vírus

Pedro Miranda 22/06/2020 21:37

Naquele que é o primeiro (breve) ensaio sobre a crise pandémica, o físico Paolo Giordano fala-nos da matemática como a ciência das relações, interpreta o isolamento social como forma de compaixão e de respeito para com uma comunidade (global), compreende a perplexidade social relativa à volatilidade dos pronunciamentos do meio científico acerca do vírus que nos atormenta e, sobretudo, pede que estes dias por que passamos sejam devidamente valorizados, nunca um desperdício.

 

1. Que nome tem um vírus? SARS-CoV-2 é o vírus, Covid-19 a doença: “são nomes difíceis, impessoais, talvez assim escolhidos para limitar o impacto emocional, mas também mais precisos do que o mais popular ‘coronavírus’”, escreve o físico Paolo Giordano, em Frente ao contágio (Relógio d’Água, 2020, p.15).

2. Com esta anotação, no contexto de uma das reflexões mais céleres, sob a forma de breve ensaio, publicadas acerca da pandemia instalada, Paulo Giordano como que nos coloca, de imediato, na antecâmara da recusa de uma antropomorfização de um vírus que, em realidade, “é a forma de vida mais elementar que conhecemos”, de “inteligência estúpida”, que “não se interessa por quase nada de nós, não se interessa pela nossa idade, nem pelo nosso sexo, nem pela nossa nacionalidade, nem pelas nossas preferências”(p.15-16).

3. A história da pandemia pode ser contada como uma ilustração da globalização em que nos movemos. Recuemos a 2002 e ao SARS-CoV: “eclodiu num mercado de Guangdong, uma província do sul da China. Um médico foi infectado no hospital e transportou consigo o vírus para um hotel de Hong Kong. No hotel, foram contagiadas duas mulheres, que depois viajaram para Toronto e Singapura, onde explodiram outros focos. Seguindo diferentes vias, o contágio acabaria depois por aflorar também na Europa, dessa vez sem consequências”(p.40). O incremento do tráfego aéreo, com as suas low cost, poderá ter desempenhado, neste contexto – ainda que, sem aviões, tenhamos constatado como, com certa rapidez, a “peste negra” se espalhou por diferentes continentes, na Idade Média -, um papel determinante, a que se somam, evidentemente e sem embargo, os autocarros, os comboios, os navios, os automóveis, as trotinetas eléctricas, em suma, “o vaivém simultâneo de sete mil milhões e meio de pessoas”: “eis a rede de transportes dos coronavírus”(p.40). O certo é que “o SARS-CoV-2 é o primeiro novo vírus a manifestar-se tão velozmente à escala global” (p.9).

4. Este modo de expor a circulação do CoV-2, por outra banda, sugere já como que um languidescer de um perfume sedutor de uma intriga política à escala internacional, servida em modos de policial, enquanto confinamos. Será que, sem a exacta certeza sobre o modo como surgiu o vírus, todas as hipóteses acerca da sua emergência são idênticas, possuem cabimento semelhante, há a mesma legitimidade e validade em deitar mão a qualquer delas, cabendo a cada um escolher, afinal, a que convém mais às suas inclinações? “Somos livres de pensar que o CoV-2 se difundiu na população chinesa através de uma ampola roubada de um laboratório onde estavam em curso experiências militares. Talvez seja uma ideia mais fascinante do que a hipótese da transmissão pelos morcegos. É uma teoria, no entanto, que requer muitas mais proposições arbitrárias sobre um fenómeno documentado e que se repetiu já inúmeras vezes: a existência do laboratório, de um projecto militar, da ampola e de um plano com vista a roubá-la. Em casos semelhantes, a ciência recorre à Navalha de Occam – ou seja, toma sempre pelo caminho mais curto. Ou seja, a solução mais simples, a que comporta menos recurso à fantasia, é com toda a probabilidade a mais correcta. Sobre o laboratório secreto, talvez pudéssemos fazer um filme”(assinala o autor, p.58). 

5. Se a anomia social era um outro nome do estádio ou estação em que nos encontrávamos, ou encontramos ainda, a pandemia coloca-nos, sem máscaras, perante o facto(r) “comunidade”. Os registos que dão origem a Frente ao contágio principiaram a ser escritos em finais de Fevereiro, e Paolo Giordano confrontava-se, já então, com a possibilidade de, sem um forte dispositivo de confinamento e distanciamento social, o sistema de saúde italiano colapsar. Eis pelo que o substantivo “compaixão” surge, no pensamento deste Físico, acoplado ao movimento de separação dos demais (que a maioria de nós experimentou; anteriormente, há não demasiado tempo, a anomia poderia ser experienciada em meio da multidão, enquanto agora o apreço ao outro e à comunidade demandam isolamento…). O cientista não quer, contudo, que tomemos o nome “comunidade” em um sentido que não seja suficientemente forte - e este só o é a uma escala global. Só uma enorme falta de imaginação nos impediria de pensar no que sucederia com uma real implantação do vírus em regiões africanas desprovidas de sistemas de saúde com um mínimo de recursos: “em 2010, visitei uma missão dos Médicos Sem Fronteiras em Kinshasa, na República Democrática do Congo. A missão ocupava-se da prevenção do VIH e da assistência aos seropositivos, em particular às prostitutas e aos seus filhos. Tenho ainda uma visão perfeitamente nítida do barracão que funcionava como um enorme bordel, onde as famílias viviam separadas umas das outras por cortinados imundos e as mulheres se prostituíam diante dos seus filhos. Recordo-me de tudo muito bem porque era a primeira vez que via uma miséria tão absoluta, tão desumana, e foi um choque vê-la”(p.35-36). Somos, portanto, também responsáveis, com o comportamento que decidirmos ter, para com os congoleses. 
Não é que Giordano não compreenda o regime em que acabámos por nos colocar – “frente ao contágio somos todos livres e estamos todos em prisão domiciliária”(p.29); “temos uma necessidade desesperada de estar com os outros, entre os outros, a menos de um metro das pessoas que são importantes para nós. É uma exigência constante que se assemelha à da respiração”(p.30) -, mas a questão que coloca, retoricamente, dirige-se directamente a quem não aceita adiar uma ida ao cinema, a um concerto, a um jogo de futebol, ou, mais elementarmente, se recuse, terminantemente, a prolongar a ausência de um abraço ou um beijo: “quem assumirá, então, a responsabilidade do nosso fatalismo privilegiado?” (p.36). 
Não ficou tudo bem, nem a vacina veio a uma velocidade a que não poderia vir, se algum dia vier: “o defeito do pensamento mágico, numa crise como esta, não é tanto o ser falso como o conduzir-nos direitos à ansiedade” (p.24).

6. A marca relacional, no escrito de P.Giordano, é tão convictamente desenhada que a Matemática pode ser-nos revelada como poucas vezes nos terá sido mostrada – e isto a propósito de modelos usados para falar da crise, o R0, entre muitas outras dimensões de cálculos e equações entretanto levadas a cabo. Atente-se: “porque a matemática não é de facto a ciência dos números, é a ciência das relações: descreve as ligações e as trocas entre seres diferentes, procurando esquecer de que são feitos esses seres, tornando-os abstractos sob a forma de letras, funções, vetores, pontos e superfícies. O contágio é uma infecção da nossa rede de relações”(p.14). 
Da narrativa da crise, para o cidadão italiano, ficará, para memória futura, a situação, daquele casal amigo, a viver na província de Milão, em que um dos membros do par, no caso a senhora, é oriundo do Japão. Em pleno supermercado, um grupo de indivíduos “desata a gritar que tudo era culpa delas, e que elas deviam voltar para a sua terra, a China” (p.45). Seria cómico, se não fosse trágico.

7. Para Paolo Giordano, à semelhança do que têm dito e escrito múltiplos autores (citemos, por todos, Jared Diamond), pandemias como a que estamos a viver irão repetir-se, em anos vindouros, provavelmente de modo ainda mais intenso e com letalidade superior à da CoV-2. Interroga-se, o investigador transalpino, acerca dos efeitos futuros do que sucedeu, em um passado muito recente, por exemplo, com os incêndios na Amazónia ou na Austrália, a quantidade de espécies que pereceram (em particular, neste último território). E adverte: “o mundo é ainda um lugar maravilhosamente selvagem. Pensamos tê-lo explorado na totalidade, mas existem universos microbianos dos quais não fazemos a mais pequena ideia, interacções entre as espécies que nem sequer conjecturámos. A nossa agressividade contra o meio ambiente torna cada vez mais provável o contacto com esses patógenos novos, patógenos que até há pouco tempo se mantinham tranquilamente nos seus nichos naturais. A desflorestação aproxima-nos de habitats que não previam a nossa presença, mas a urbanização permanece imparável” (p.47). Em uma frase lapidar, sentencia: “o contágio é um sintoma. A infecção está na ecologia”.

8. Cultor da ciência – “o que é sagrado na ciência é a verdade”, escrevia Simon Weil -, Paulo Giordano capta, com inegável subtileza e rigor intelectual (“eis um dos paradoxos do nosso tempo: enquanto a realidade se torna cada vez mais complexa, nós tornamo-nos cada vez mais refratários à complexidade”, p.51), muita da perplexidade que perpassa o ar do tempo, recusando, do mesmo passo, que a política decline em tecnocracia: “os especialistas dizem”, “deem a palavra aos especialistas”, “mas os especialistas pensam que” (…) mas o que é a verdade, quando se questionam os próprios dados, se partilham os mesmos modelos e se chega a conclusões opostas?” (p.55). É a compreensão do próprio da política que aqui se vislumbra e que, cremos, foi desenvolvido com rara felicidade por Daniel Innerarity, em “Política em tempos de indignação” (D. Quixote, 2016, pp.100 e ss.): “há muitas questões técnicas e profissionais no mundo da política, como é óbvio, e não se pode tomar decisões correctas se elas não forem precedidas por um trabalho de estudo e de assessoramento técnico. Mas o especificamente político da política vem depois da análise daquilo que foi objectivamente determinado: quando os técnicos e os administrativos já fizeram o seu trabalho e continua a não estar absolutamente claro o que é que deve ser feito. É nesse momento de poucas certezas que aparece a visão política, a aposta e a vertigem que inevitavelmente a acompanham. Em política não existe uma objectividade que ponha fim às nossas controvérsias, não existem códigos e protocolos a aplicar, quantidades passíveis de serem medidas, dados comprováveis, valores absolutos. Ou, pelo menos, o especificamente político é tudo aquilo que permanece em aberto depois de os especialistas terem falado e de a burocracia ter feito o seu trabalho, quando o apelo aos valores não determina completamente aquilo que deve ser feito num caso concreto ou quando as decisões têm de ser tomadas antes de dispormos dos dados que seriam necessários e que só chegarão quando for demasiado tarde”. Respondendo a uma pergunta do jornalista António José Teixeira, em recente entrevista televisiva à RTP, o Primeiro-Ministro, António Costa, considerou que o momento, ou decisão, mais difícil por que passou, desde que a pandemia se instalou também entre nós, foi o que se prendeu com a necessidade de tomar posição sobre a suspensão (ou não) das aulas presenciais (nas escolas). Recordemos: a 11 de Março, o Conselho Nacional de Saúde rejeita o fecho generalizado das escolas. A 12 de Março, o Conselho de Escolas Médicas Portuguesas enviava uma carta aberta ao PM, solicitando medidas mais restritivas, indicando os exemplos internacionais, nomeadamente e entre outros, o encerramento das escolas.   

9. Paulo Giordano sabe de cor o Salmo 90 – ensina-nos a contar os nosso dias e alcançaremos um coração sábio. E, não desconhecendo, igualmente, o autor de Frente ao contágio, o modo um tanto ao quanto inevitável e rotineiro de o interpretar neste momento histórico – “contamos os infectados e os curados, contamos os mortos, contamos os internamentos e as manhãs de escola em falta, contamos os milhares de milhões dos crashes nas bolsas, as máscaras vendidas e as horas que faltam para sabermos o resultado do teste; contamos os quilómetros do foco da epidemia e os quartos desmarcados nos hotéis, contamos as nossas relações, as nossas renúncias. E contamos os dias, sobretudo eles, os dias que nos separam do momento em que a emergência terá passado” -, crê que os dias a que o salmo se refere reclamam um redobrado cuidado (contemplativo e prático): “tenho a impressão de que o salmo quer sugerir-nos outra coisa: ensinar-nos a contar os dias para darmos valor aos nossos dias. A todos, até mesmo a estes que nos parecem somente um intervalo doloroso” (p.65). 

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