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De volta à hora de ponta nos transportes. "Às vezes já vamos a respirar o ar uns dos outros"

De volta à hora de ponta nos transportes. "Às vezes já vamos a respirar o ar uns dos outros"

Marta F. Reis 20/06/2020 10:49

Ainda não há as enchentes pré-pandemia, mas quem usa diariamente os transportes públicos na Grande Lisboa sentiu mais gente nos últimos dias. Há novas regras e álcool na mala, mas nem sempre a distância é possível.

São sete da manhã na estação de Entrecampos. Acabou de passar o metro e Giselane foi a única que ficou para trás na plataforma. “Vinha tanta a gente a subir as escadas que não me quis meter no meio para descer”, diz a jovem, atrás da máscara. Trabalha num lar em Linda-a-Velha e todos os dias apanha o metro à mesma hora até ao Marquês. “Ontem, já havia pouco espaço”, diz. Entrou na mesma. “Tem de ser, as pessoas não podem chegar atrasadas ao trabalho”.

Um mês e meio depois do início do desconfinamento, a hora de ponta nos transportes da Grande Lisboa não tem as enchentes pré-pandemia, mas quem usa diariamente metro, comboio e autocarro sente que, nas duas últimas semanas, começou a haver mais movimento, sobretudo às primeiras horas da manhã. Na plataforma do metro repetem-se os avisos e a máscara é obrigatória – veem-se máscaras descartáveis, reutilizáveis, viseiras e algum improviso, como panos atados à volta da boca. Mas quem faz o percurso diariamente vai apanhando também com os deslizes e ajuntamentos. “Há pessoas que tiram a máscara ou metem para o lado, mas se uma pessoa diz alguma coisa, se calhar ainda nos falam mal”, diz Giselane, que não sente que exista muita fiscalização. “Tenho colegas que já viram pessoas ser chamadas à atenção, eu ainda não vi”.

O metro já vai composto, mas sobram lugares sentados, enquanto muitas pessoas acabam por optar por ir de pé. José, pintor de construção civil, está junto à porta. “Temos de ir trabalhar”, resume. Sobre os rastreios que apanharam casos nas obras, acredita que há uma explicação simples: “Não ficámos em casa”. Também sente mais movimento nos transportes, mas ainda não o que acontecia antes de aparecer o vírus. A expetativa é que haja algum reforço nos próximos tempos; de outra forma, será mais difícil manter a distância.

Por agora, as ligações mantêm-se e as queixas não são gerais: se há carruagens mais lotadas e paragens onde sai muita gente ao mesmo tempo, com as escadas cheias – e onde não há circuitos definidos para descer e subir –, noutras, a distância está mais do que assegurada.

Na Linha de Sintra, o cenário é parecido. O primeiro comboio para o Rossio sai de Sintra às 5h20 e a ligação para Roma-Oriente arranca às 5h36. Em maio foi a que registou maior ocupação, de 60%, revelou no fim do mês passado o Ministério das Infraestruturas e da Habitação. “No momento em que vamos iniciar uma nova fase de desconfinamento, a 1 de Junho, importa dar nota de que, durante este último mês, mesmo nas horas de ponta, não existiu nenhum comboio da Linha de Sintra, Cascais ou Azambuja que circulasse com lotação superior aos dois terços determinados legalmente para este período da pandemia de covid-19”.

Nas últimas semanas aumentou, garantem os utilizadores habituados à velha e lotada hora de ponta nos transportes e, os que nunca deixaram de trabalhar fora de casa, às carruagens mais vazias da quarentena. Ana, empregada de limpeza, diz que há dias em que o primeiro comboio da manhã já vem cheio. Protege-se com a máscara e o frasco de álcool na mala, mas não há muito mais a fazer, lamenta.

Mateus, carpinteiro, espera pelo comboio na plataforma de Queluz-Belas e diz que tem dias. “É relativo mas, às vezes, já vamos a respirar o ar uns dos outros, às vezes de manhã, outras à volta, à tarde.”

O receio do vírus não trava a necessidade de apanhar os transportes para ir trabalhar e existe a convicção de que isso é seguro desde que todos sigam as regras. E essa é outra parte em que há alguma hesitação. Evandro, funcionário de um armazém, apanha o primeiro comboio para o Oriente no Monte Abraão. São 5h40, na plataforma não há muita gente, as luzes da rua acabaram de se desligar, mas lá dentro é como se o dia já tivesse nascido há mais tempo. “Está a começar a voltar ao normal. Agora usamos máscara. Desde que todo o mundo siga à risca as medidas de prevenção, haverá menos risco. O problema é que há sempre pessoas que não querem saber”. Se, no metro, os avisos são mais insistentes, na CP não se ouve tanto a mensagem. Tanto num lado como no outro, as máquinas de venda de bilhetes têm ecrãs por toque e, nas manhãs desta semana em que o i andou de transportes, não se via limpeza frequente. Bem cedo, um dos ecrãs das bilheteiras automáticas da CP estava cheio de dedadas e outra máquina no Oriente estava peganhenta. Já os revisores não pegam no cartão como antes – é o utilizador que o passa em frente ao leitor.

Ana Paula apanha o comboio em Queluz. “Os comboios nem estão muito mal, sinto-me mais confortável do que no autocarro”, diz. Tanto em relação à Carris como à Vimeca, nem todos os utentes têm queixas: depende da hora e da carreira. Carlos trabalha no aeroporto e apanha o metro em Almada, o comboio da Fertagus e, por fim, o autocarro do Areeiro para o Oriente. “Desde que acabou o estado de emergência há mais gente, mas no comboio ainda se vem bem e o autocarro está a 15% da ocupação”, diz, na fila para o 705.

Ana Paula apanha o 13 para Campolide e defende que devia ser reforçado. “Está péssimo”, resume. Maria apanha o metro em Odivelas, depois o comboio e, por fim, o autocarro no Algueirão para Mem Martins, e é à última parte do trajeto diário de mais de uma hora que aponta críticas. “Vai tanta gente que uma pessoa fica com algum medo. A polícia já teve de intervir duas vezes”.

Durante a manhã, tanto nas paragens de autocarro da Linha de Sintra como da Carris, junto das principais estações de ligação, são visíveis filas dos novos tempos, em que se garante de forma espontânea a distância de dois metros – pelo menos até o autocarro chegar, altura em que as pessoas se juntam mais. Eugénia espera pelo 701 para Telheiras em Sete Rios. “Há mais gente, mas tem estado muito bem”, diz.

O i tentou perceber junto das operadoras que avaliação é feita e se há planos para reforço dos transportes. A CP e a Vimeca não responderam. A Carris considera que, na generalidade, as medidas têm sido cumpridas pelos utilizadores dos transportes públicos, nomeadamente distanciamento de segurança e utilização de máscara a bordo. “A Carris já tem a sua operação a 100%, mas continua permanentemente a monitorizar a situação e, se for necessário, fará os devidos reforços onde se justificar”, garantiu. Já a Metropolitano de Lisboa indicou que no período de 1 a 15 de junho resgistou  2,1 milhões de passageiros, ainda uma quebra de 69% face ao mesmo período homólogo de 2019. A empresa adianta que a ocupação foi mantida abaixo dos 50% nos períodos de ponta, não se tendo registado, até ao momento,  sobreocupação dos comboios. "O Metropolitano de Lisboa não tem registado picos de procura superiores a  2/3 ou 66% da carga máxima do comboios."  A empresa adianta ainda que a 1 de junho houve um novo reforço da oferta, com a circulação durante o dia de todos os comboios da linha Amarela até Odivelas. "A monitorização permanente da procura permitirá introduzir medidas adicionais de controle da oferta, se necessário, designadamente no acesso aos cais, sobretudo nas horas de ponta", admite ainda o Metro.

No mundo e, às vezes, submundo dos transportes fazem-se outras contas. Há lojas ainda fechadas, vendedores ambulantes de máscaras e cafés ainda a meio gás. Mário, gerente do Café Lobélia, na estação de Queluz-Belas, e de outros espaços idênticos na Grande Lisboa, diz que o movimento está ainda muito longe de voltar ao normal e que as perspetivas não são boas depois de dois meses fechados e, agora, de uma reabertura abaixo do habitual: “Tivemos de mandar embora 14 pessoas e estamos a fazer 150 a 200 euros por dia – uma quebra de 80%”.

Depois do embate dos últimos meses, Mário não se conforma quando vê quem não cumpre as regras e critica os grupos que se juntam na zona, por vezes sem máscara, mas também o que acredita ser a falta de ação das autoridades e a discrepância nas regras exigidas nos estabelecimentos. “Temos de ter respeito uns pelos outros. Há muita gente que perdeu o trabalho e outras pessoas ainda vão perder, há gente que morreu, há pessoas a passar fome”.

 

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