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Dave Chappelle. De cordeiro a leão

Dave Chappelle. De cordeiro a leão

Diogo Vaz Pinto 18/06/2020 20:55

Do riso à revolta, numa altura em que tudo arde, em que os EUA, em plena pandemia, são avassalados pelos maiores protestos desta geração devido às tensões raciais, eis a lenda de um mestre contador de histórias, uma figura que se treinou nas artes mágicas do humor, e que parece estar pronto para assumir o perfil de um herói americano que tem atrás de si a ancestral e orgulhosa tradição oral das grandes tribos de África.

 

Em outubro do ano passado, no final da cerimónia em que Dave Chappelle, aos 45 anos, recebeu o Prémio Mark Twain, tido como a maior honra na comédia, depois das tantas homenagens, coube-lhe encerrar a sessão. De cigarro aceso, indo ao ponto de chamar a atenção para o facto – “Olhem para mim a fumar cá dentro... Eu não pedi autorização a ninguém, simplesmente fi-lo. O que é que eles vão fazer? Vão expulsar-me antes de eu receber o prémio?” –, depois de ser ovacionado pela audiência que encheu a sala de concertos do Kennedy Center, na capital norte-americana, boa parte dela constituída por celebridades, entre as quais muitos dos seus pares, Chappelle começou por dizer que prefere não ter as coisas planeadas. Mais do que isso, vincou que o que lhe dá pica é criar memórias. “Às vezes sou capaz das coisas mais maradas quando estou com os meus colegas só para eles depois irem contar aos amigos o que eu fiz”, confessou. Logo de seguida, deu uma guinada, dizendo que, em vez de se pôr ali a falar de si próprio, preferia perder um bocado a esboçar umas notas sobre o seu “género”, ou seja, a comédia de stand-up. “O stand-up é um género profundamente americano. Não me parece que algum outro país pudesse produzir tantos comediantes. E o que muitos nesta audiência nem imaginam é que não há uma opinião das que se formam por este país fora que não seja representada num clube de comédia por alguém. Qualquer um de vocês tem alguém a bater-se pelas vossas ideias neste ringue. Mas se os vemos à bulha por aí, quando nos juntamos somos capazes de ter uma discussão civilizada sobre as nossas diferenças.” Chappelle diz que conhece alguns comediantes bastante racistas, e que apesar disso não os odeia e que, muitas vezes, chega a apreciar a perícia artística com que vão colorindo as suas opiniões racistas. “Temos de ter algum escape, é preciso aliviar de algum modo a pressão nesta panela, porque o país está a ficar demasiado tenso. Não me parece que alguma vez, na minha vida, as coisas se tenham mostrado tão tensas como agora.”

Como sabemos, essas tensões explodiram há algumas semanas, e por todo o país continuam a suceder-se as mais significativas manifestações anti-racistas, desacatos e pilhagens desde há várias décadas. Entretanto, e sem aviso prévio, Chappelle lançou no canal de YouTube “Netflix is a Joke” um novo especial em que a sua dilacerante veia satírica abre mão das piadas, e lança uma crítica feroz à actuação policial, defendendo que o excesso de uso de força contra a comunidade negra é uma forma de terrorismo doméstico. Intitulado “8:46” – em referência aos oito minutos e quarenta e seis segundos durante os quais George Floyd teve o joelho do polícia Derek Chauvin sobre o seu pescoço, asfixiando-o e acabando por provocar a sua morte, este espectáculo de stand-up filmado a 6 de junho, no Ohio, marcou o regresso aos palcos de Chappelle depois de quase três meses sem pisar um, e tornou-se um dos primeiros a acontecer na era da pandemia e tendo como foco os protestos anti-racistas que produziram ecos um pouco por todo o mundo.

Vestido de negro, o comediante nem finge que o tom possa ser outro, que haja margem para alívios, e investe antes num desabafo cheio de iradas tangentes, em que o material que poderia servir para puxar por uma observação mais espirituosa é como vidro a ser mastigado. Num registo duríssimo, entre a revolta e o desafio, Chappelle traça frente ao público, com um fio de ráfia, uma espécie de mural, em que coloca as fotos das várias vítimas de homicídio à mão das forças policiais, e acaba por entrelaçar nesse hábil relato de um crime com séculos às costas a sua própria história pessoal.

Uns meses antes, em Washington, a noite em que foi galardoado, marcou o regresso do filho pródigo à cidade onde passou a maior parte da sua infância e adolescência. Filho de professores universitários, Chappelle começou a actuar em pequenos clubes de comédia e deu nas vistas no programa “Star Search”, sendo tido como um prodígio numa idade em que a maioria dos comediantes anda a tentar ganhar coragem para subir a um palco e enfrentar o juízo de uma audiência desfalcada e meia bêbeda, que muitas vezes aprecia tanto as piadas como o ambiente constrangedor de um aspirante a suar as estopinhas e, muitas vezes, a espalhar-se ao comprido.

Chappelle, por seu lado, parece nunca ter tido uma noite tão má que pusesse em causa o seu dom natural para fazer rir. Com apenas 19 anos já se distinguia nele o fôlego de uma lenda, e subia ao palco coçando-se de uma batida interior, do curioso e hilariante ângulo a partir do qual observa a realidade, e vinha embalado, com um grau de confiança tal que deixava nervosos mesmo os veteranos que tinham de partilhar com ele o palco. Ali estava um magricela de ar imberbe que não demorou a trocar Washington D.C. por Nova Iorque, e que, anos mais tarde, depois de ter tido a audácia de virar as costas a um contrato de 50 milhões de dólares, segundo o qual ficaria obrigado a dar à Comedy Central uma quarta temporada do seu êxito “Chappelle Show”, depois de ter passado uma temporada na África do Sul, a refazer-se da pressão e do desconforto que lhe causou ter os executivos à perna, depois de, em suma, ter-se esfumado quando estava no olho do furacão, voltou às suas raízes, com actuações em pequenos clubes, caindo de pára-quedas quando lhe apetecia, e tomando a liberdade de dar de frosques, deixando um set a meio se, ao testar a sintonia com a audiência, não lhe agradasse o resultado.

Ao longo de mais de uma década, Chappelle teve de se confrontar inúmeras vezes com as repercussões da sua decisão de deixar sobre a mesa, em 2005, a oferta de 50 milhões, abandonando o seu programa quando a sua popularidade rebentava a escala, definindo toda uma galeria de retratos do nosso tempo que são vistos como sketches canónicos no mundo da comédia: desde um negro cego que se tornou um líder do movimento de supremacia branca, a um George W. Bush em versão negro, entre uma série de outras personagens que, num feliz encarniçamento, se nos metem debaixo da pele, e nos fazem rir de nós próprios, reflectindo o modo como os negros são caracterizados e estereotipados nas nossas sociedades.

Chappelle virou costas ao mundo do espectáculo como só muito poucos antes dele o tinham feito. Mas se o fez, e se confessadamente pagou caro essa ousadia, tendo a sua decisão originado uma praga de rumores que o perseguiram na década seguinte, muitos deles discutindo a sua sanidade, muitos dando de barato que ele tinha pirado, o que o levou a isso, como depois foi explicando em entrevistas e até nos especiais de comédia, foi ter sentido que estava a perder o controlo criativo do seu programa, a vender a alma e a tornar-se outro desses artistas desesperados por agradar às audiências – as quais eram, como se sabe, maioritariamente brancas. Durante uns tempos, cada aparição que fazia gerava alguma comoção nas publicações sensacionalistas que seguem a vida das celebridades. Por um período, tornou-se mais um desses casos cautelares que se contam para ilustrar a forma como o sucesso sobe à cabeça e frita a molécula. Mas Chappelle não tinha ainda dito a última palavra. Em breve estaria de volta, e não apenas voltaria a calçar as luvas, regressando ao ringue depois de anos de reclusão, como acabaria por levar a soma que tinha rejeitado, e com juros em cima. Só que desta vez, fá-lo-ia segundo os seus termos. Alegadamente, foi um cheque de 60 milhões o que o comediante depositou depois de assinar com a Netflix um contrato para a transmissão pelo gigante do streaming de três especiais de comédia. E foi assim que o maluquinho, o comediante que se tinha deixado levar por teorias da conspiração, acabou a rir por último. E se despiu a figura do magricela, e pôs em cima uma armadura de músculos que lhe dão uma pinta meio cartoonesca de um Popeye negro, Chappelle regressou aos palcos com a mesma insolência, mas, tendo deixado o puto galhofeiro lá atrás, voltou com aquela dose de acédia de quem viu o inferno e ficou tocado pela severidade desoladora dessa visão. Se os seus espectáculos perderam alguma daquela energia infeciosa em que a hilaridade assume uma afinação escandalosa, em que cada piada parece ter vista para um círculo extra do inferno, uma espécie de andar modelo, que se visita sem compromisso, apenas pelo gozo de se ter uma experiência mais turbulenta, agora o comediante parece-se mais com um Virgílio, alguém que nos guia pelo submundo, e que, se não deixa de nos fazer rir, transmite também uma sensação de ameaça, um certo receio em relação aos perigos que nos espreitam num mundo que caminha para a tragédia convencido de que tudo não passa de uma farsa. Ora, é neste ponto em que Chappelle nos mostra exactamente o que se perde quando nos despedimos da nossa inocência e aquilo que, em troca, se pode ganhar se o riso não levantar uma onda tão alta que, com a rebentação, nos faça perder o pé e a noção das coisas.

Nos seus últimos espectáculos, Chappelle tem vivido numa espécie de contencioso permanente com a manada progressista e a sua noção de que a sociedade pode ser teletransportada para a utopia se saltarmos todos ao mesmo tempo e na mesma direcção, fechando os olhos e desejando que, ao abri-los, os nossos sonhos se tenham realizado. Assim, os três especiais de comédia da Netflix foram alvo de uma torrente de críticas negativas da parte dos activistas dessa campanha cor-de-rosa que garantem que Chappelle perdeu os seus fenomenais instintos e se passou para o outro lado da barricada. Curiosamente, não se dão conta, estes agentes imobiliários do paraíso na terra, da imbecilidade de quererem converter um comediante noutro polícia sinaleiro, acusando-o de sacrilégio por chamar ao movimento L.G.B.T.Q. “a malta do alfabeto”. Nisto, quando vêem um negro a dizer-lhes que se acalmem e não levem tudo tão a sério, formam os seus pelotões e disparam a cada aberta, enquanto ele realiza a marcha de um homem só, com o clarim, a pandeireta e a bandeira negra dos piratas por trás das linhas inimigas, fazendo de advogado do diabo e apresentando, sem a menor convicção, a defesa de astros da cultura pop, como R. Kelly ou Michael Jackson, que passam de ídolos a monstros, para que a audiência use os crachás de oficiais da justiça social, continuando a consumir uma cultura de lixo e a repercuti-la nas redes sociais. Com isto, vão perdendo perspectiva, e não se dão conta de que a mensagem deste comediante é bem mais simples: ninguém quer viver nessa utopia em que todos os dias são o dia do Juízo Final. Para uma sociedade que se diz tão compreensiva, às vezes é preciso alguém que deixe as pedras quietas no chão. Às vezes em vez de atirar a primeira pedra, mais vale sacar uma boa piada. Também racha crânios, mas tem a vantagem de não espalhar os miolos pelo chão, e de não ser o tipo de espectáculos que, por natureza, atrai aquele género de cretinos que só querem ver o mundo a arder.

O que é cada vez mais claro é que Chappelle, como tantos outros comediantes e mestres da nuance, tem travado um combate desigual contra as patrulhas de um pensamento vociferante, e que se serve da suposta bondade dos seus valores para construir um regime de coação face a sensibilidades divergentes. E é neste aspecto em particular que Chappelle prova ter não só a destreza de um contador de histórias como o poeta Langston Hughes, sabendo medir bem o alcance das suas palavras, como a temeridade de comediantes que deram o corpo às balas na guerra contra o moralismo, como Richard Pryor e George Carlin. Mas para o retrato estar completo, é preciso mencionar como Chappelle, depois de, em 2005, romper com a bolha do mundo do espectáculo, quis também afastar-se dessa outra bolha das comunidades que escolhem viver em condomínios privados mentais, nos resorts dos bons sentimentos, e buscou refugio numa propriedade rural no coração da América, em Yellow Springs, no Ohio. Foi ali que este afro-americano, muçulmano, casado como uma mulher filipina, pai de três filhos birraciais, tem escolhido viver uma existência pacata, desligado de um mundo que está cheio de vontade de lhe vir ensinar a forma correcta de cozinhar um caldo multicultural.

Há uns anos, num perfil que fez dele a capa da revista de Estilo do “The New York Times”, o título garantia que Chappelle se tinha tornado um herói popular norte-americano, uma figura de uma mitologia apurada na cozinha crioula, conhecida por abusar do sal e do picante. Ora, voltando à noite do Prémio Mark Twain, um dos agradecimentos de Chappelle foi para a mãe, que estava na audiência, um reconhecimento que levou o anfiteatro inteiro a levantar-se para ovacionar a senhora. O filho recordou como ela esteve com ele das primeiras vezes em que actuou, e como, depois de ter trabalhado todo o dia, dormia na parte de trás da sala até chegar a vez do filho subir ao palco. Mas reconheceu também o papel fundamental que teve na sua educação: “Havia uma verdadeira tradição oral na nossa casa”, vincou. “Eu conhecia a palavra ‘griot’ – o sábio que, numa povoação em África, tinha a seu cargo a tarefa de saber de cor as histórias e os ensinamentos dessa comunidade, e que, antes de morrer, devia transmitir esse conhecimento a alguém, garantindo a sua transmissão às gerações futuras. Em África, eles dizem que quando morre um griot é como se uma biblioteca fosse consumida em chamas”, conta Chappelle. E lembra que a sua mãe, muito antes de ele ter sequer pensado em enveredar pela comédia, por essa forma de embalar num rasgo humorístico a vocação do contador de histórias, lhe disse: “Tu devias ser um griot. E ela encheu-me com uma série de histórias sobre as vidas dos negros – afinal, ela tinha formação em Estudos Afro-Americanos –, e com isso fez-me entender o contexto em que eu estava a ser criado. Eu estava a crescer num contexto hostil e cabia-me apaziguar e domar essas tensões. Assim, quando tinha 14 anos comecei a actuar em clubes de comédia, a tomar as rédeas de um mundo de adultos. Foi apavorante”, admitiu. “Na altura, a epidemia do crack estava no auge, a minha mãe ouvia tiros na rua e temia que, por acidente, eu pudesse estar no caminho dessas balas...”

E é neste ponto, e para lembrar uma das melhores lições que recebeu da sua mãe, que Chappelle não hesita em desfazer a sua imagem de prodígio, mostrando que simplesmente teve a sorte de ter tido uma mãe que sabia exactamente as palavras que ele precisava de ouvir para superar os seus receios. “Eu era um fracote, um miúdo sensível, que chorava facilmente e tinha medo de andar à porrada. E a minha mãe costumava dizer-me... Mãe, não sei se ainda te lembras, mas disseste-me isto mais do que uma vez: ‘Filho, às vezes tens de ser o leão, para seres o cordeiro que na verdade és.’” No final da frase, a câmara foca a mãe de Chappelle a repeti-la ao mesmo tempo que o filho. E depois da audiência suspirar, e antes que rompa num aplauso, Chappelle retoma a palavra: “Ora, eu digo-vos esta merda como um leão, e não tenho medo de nenhum de vocês no que toca a medir a vida em palavras, e nisso estou à altura de me bater com os melhores, desde que me dêem a hipótese de falar em meu nome, e de descontrair.” Chappelle poderia ter falado na capacidade de se levantar cada manhã e ir para a guerra contando que, no fim do dia, lhe dessem a hipótese de regressar a Ítaca, e aos braços de Penélope. O comediante conclui afirmando que é isso o que há de tão especial na forma de arte que escolheu e a que dedicou a vida. “Eu amo este género. Ele salvou-me a vida.”

 

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