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Eduardo Oliveira e Silva 17/06/2020
Eduardo Oliveira e Silva

opiniao@newsplex.pt

A Segurança Social deveria funcionar 7 dias por semana

Em vez de certas medidas e tanta propaganda, mais horas de atendimento ao público seria a coisa mais simples e eficaz a fazer.

1. A Segurança Social em Portugal é lenta, ineficaz e burocrática. Pior ficou depois da passagem do inenarrável Vieira da Silva, tornando-se diabolicamente caótica desde que a pandemia chegou a Portugal, gerando uma crise sem dimensão. No entanto, há que ser rigoroso. O coronavírus só veio agravar o que estava muito mal. O bicho é agora uma esplêndida desculpa para tudo o que não funciona em qualquer área. Tudo é culpa da covid-19! Governo, oposições, autarquias, associações profissionais ou empresariais invocam a pandemia para exercícios de autojustificação e de propaganda de amanhãs que cantam. Não há governante ou opositor que não traga debaixo do braço meia dúzia de propostas em pacote, normalmente impraticáveis.

Simultaneamente, há coisas simples que ninguém propõe, talvez por haver a noção de que elas resolveriam efetivamente muitos problemas, o que seria aterrorizador para a nossa burocracia e para a ronronante administração pública e política. Uma delas seria pôr os serviços da Segurança Social, os administrativos e todos os do terreno social a trabalhar sete dias da semana. Não há razão para os respetivos funcionários não serem chamados a trabalhar em horas de expediente normal aos sábados, domingos e feriados, como acontece em tantas profissões hoje em dia. Não se trata de uma permanência de 24 horas. Nada disso. Bastariam semanas de sete dias para despachar muitos processos de layoff, despachar as reformas a quem descontou uma vida inteira e aguarda meses e anos para receber o que é seu ou dar andamento a certos processos de apoio social a pessoas imobilizadas.

Com tantas “águias” na política, não houve uma que se lembrasse de coisa tão básica como a de reforçar os horários dos serviços da Segurança Social, nem que fosse durante um ano de emergência. Pelo contrário, tudo parou nos feriados e vai parar novamente em agosto, para desespero dos que precisam de apoio e de soluções. Procede-se na burocracia e na política com desprezo pela pessoa humana, mas enche-se a boca com proclamações estéreis. Depois queixam-se de radicalismos da extrema-direita e da extrema-esquerda que aliciam gente revoltada, esquecida e amesquinhada nos seus direitos. Fazer mais e falar menos seria o mínimo que se exigiria nesta fase em que precisamos de decisões pragmáticas. Também era bom que os média evitassem a atual catadupa de entrevistas a políticos em que frases como “já estamos a desenvolver…”, “estamos a estudar o assunto”, “está para publicação” ou “está previsto começar para o mês que vem” são clichés sistemáticos e falsidades propositadas.

 

2. Lisboa está mais imunda do que nunca. A limpeza urbana compete às juntas de freguesia. A sujidade é enorme. Mostra que a solução descentralizadora para as juntas não assegurou o mínimo de higiene. Não se trata da recolha de resíduos, mas da limpeza das ruas, do corte de ervas, da recolha de máscaras, luvas e todo o tipo de objetos e plásticos que são abandonados, sem que ninguém os recolha. Isto para não falar dos milhares de milhões de beatas que se acumulam no chão e que são praticamente indestrutíveis, apesar de os fumadores pagarem pesados impostos por cada passa que dão. A esse propósito, seria interessante saber quantas pessoas já foram multadas por atirar pontas de cigarro para o chão. Quem fez a lei e a aprovou bem podia agora mostrar o resultado das horas que se gastaram a fazer uma legislação para inglês ver e que, obviamente, não se consegue aplicar. É bom dizer que há soluções para o problema que não implicam radicalismos antitabaco. Situações como as descritas são exemplos que justificam o descrédito total da política e das leis. Em termos ambientais, havia quem garantisse que o lixo em Lisboa era gerado basicamente pelo fluxo de turistas, apesar de cada um deles pagar uma taxa diária de um euro até sete dias no máximo. Vão lá ver o estado das ruas agora! Estavam mais limpas (menos sujas, em rigor) quando eles andavam por cá. Lisboa está a degradar-se depois de se ter embelezado bem. Apesar deste descalabro, não há quem faça oposição na câmara e nas juntas. Reina a promiscuidade política. Ainda se perceberia algum desleixo se os serviços estivessem a dar assistência aos mais necessitados e aos sem-abrigo, mas nem isso. À noite é o voluntariado que mata a fome a muita gente e que é normalmente praticado por gente católica da sociedade civil.

 

3. Falando de poluição, é lamentável a notícia de que só poderão atracar em Lisboa os grandes cruzeiros (para já estão parados por serem um foco de infeção de covid-19) que tenham autonomia elétrica. A medida é importante porque a poluição atmosférica de dois paquetes atracados com os motores fuel a trabalhar em permanência é sensivelmente igual à de toda a cidade. O mais curioso é que o terminal de Lisboa foi inaugurado há pouco tempo e não tinha sido exigida previamente a existência de uma central de ligação aos grandes cruzeiros. Sabe-se agora que a obra vai levar dois anos, pelo menos, até estar operacional. Muita gente que vivia dos cruzeiros vai ficar a ver navios, designadamente quem investiu em tuk-tuks, em TVDE, táxis e autocarros de turismo, além dos profissionais de outras áreas, como os guias. Não bastava a desgraça da doença, teve de se juntar a da irresponsabilidade.

 

4. Joe Biden é o candidato democrata à Presidência americana. É provável que consiga ter mais votos que Trump mas, com o sistema de delegados, pode muito bem não conseguir a nomeação para a Casa Branca, como sucedeu com Hillary Clinton e Al Gore. Por lá, não há sufrágio universal para escolher o Presidente. Aguarda-se com expectativa saber o nome do homem ou da mulher que acompanhará Biden como candidato a vice-presidente. Michelle Obama seria um nome que o mundo acolheria favoravelmente, dada a sua popularidade, a sua capacidade e a circunstância de pertencer a uma minoria étnica. A comunidade negra representa mais de 15% e é tão genuinamente americana quanto a branca caucasiana, uma vez que os únicos nativos são os índios. Michelle foi uma primeira-dama notável, mas os analistas americanos duvidam que ela aceitasse um desafio de Biden. Com a atual pandemia e a crise económica, Trump pode ser derrotado por Biden, mas não se pode dar essa vitória como certa ou até provável. Os americanos têm comportamentos eleitorais muito específicos que normalmente contrariam o sentimento da opinião pública mundial.

 

5. Em jeito de nota final: se o Parlamento aprovar a tempo e persecutoriamente uma lei para impedir Mário Centeno de ir para governador do Banco de Portugal, haveria bom remédio: um veto monumental do Presidente da República acompanhado de uma mensagem daquelas que só ele sabe escrever.

Escreve à quarta-feira

 

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