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Dois afro-americanos encontrados enforcados em árvores na Califórnia

Dois afro-americanos encontrados enforcados em árvores na Califórnia

Filipe Teles 15/06/2020 10:17

Famílias das vítimas duvidam que os homens se tenham suicidado e apelam às autoridades para investigarem.

Dois homens negros foram encontrados enforcados em árvores, nas últimas duas semanas, na Califórnia, um em Palmdale, outro em Victorville, cidades separadas por apenas 80 quilómetros. Em ambos os casos, as autoridades desconfiam que se terá tratado de suicídio.

A descoberta de um afro-americano enforcado numa árvore perto da câmara da cidade de Palmdale, na quarta-feira, às 3h39, está a causar alarme entre a comunidade negra local. Ao saberem que as autoridades classificaram o caso como provável suicídio, centenas de manifestantes juntaram-se no local onde Robert Fuller, de 24 anos, foi encontrado por um peão – este avisou as autoridades à hora referida e o seu nome não foi tornado público.

Na pequena cidade com cerca de 150 mil habitantes gritaram-se as mesmas palavras de ordem que têm estado nas ruas de todos os Estados Unidos nas últimas três semanas. “Justiça para Robert Fuller”, “Black Lives Matter” e “Digam o seu nome”, pediram. “Robert Fuller”, foi a resposta, ecoando os cânticos que têm sido proferidos nos protestos depois da morte de George Floyd por asfixia, sob a custódia da polícia.

A irmã do jovem de 24 anos dirigiu-se aos manifestantes no sábado e disse não acreditar que Fuller tenha cometido suicídio. “Queremos descobrir a verdade sobre o que realmente se passou”, disse Diamand Alexander. “Só queremos a verdade. O meu irmão não era suicida. Era um sobrevivente”.

A tenente Kelly Yagerlener, médica legista do condado de Los Angeles, disse que a morte de Fuller foi inicialmente reportada como um aparente suicídio. Contudo, a determinação da causa de morte ainda se encontra pendente e as autoridades vão continuar a investigar, estando prevista uma autópsia completa. Não obstante, a polícia diz não haver indicações de lesões no corpo de Fuller.

Na conferência de imprensa de sexta-feira em que a polícia anunciou que, “apesar de a investigação estar em curso, parece que, tragicamente, Fuller cometeu suicídio”, os ânimos aqueceram e muitos dos residentes acusaram as autoridades de negligência: “Isso é mentira!”, gritaram. “Se não conhecem o seu estado de saúde mental e se não conhecem a sua história, como é que isso determina um suicídio?”, perguntou furiosamente um dos residentes presentes. “É um possível homicídio”. Entre as suspeitas dos ativistas e residentes está a hipótese de se ter tratado de um linchamento: não percebem porque haveria Fuller de cometer suicídio tão perto da câmara e também vincaram que, dias antes, estava a ser discutida a criminalização federal do linchamento.

Os residentes perguntaram sobre a existência de câmaras de filmar no parque onde Fuller foi encontrado, mas os responsáveis da cidade disseram que não existiam. A certo ponto, enquanto garantia de que a cidade ia fazer tudo para identificar filmagens de câmaras ao redor desse perímetro, o gestor da cidade, J. J. Murphy, pediu para se “parar de falar em linchamento”. A resposta foi imediata: “Nem pensar!” Entretanto, no sábado, a Câmara de Palmdale sublinhou em comunicado que iria apoiar o apelo de muitos ativistas e residentes para se realizar uma investigação e autópsia independentes.

No dia 31 de maio ocorreu um caso semelhante em Victorville. Um homem afro-americano de 38 anos, Malcolm Harsch, apareceu também enforcado numa árvore perto da biblioteca municipal da cidade. As autoridades locais, tal como no caso desta semana, dizem não encontrar indícios de que tenha sido um homicídio, mas garantem que vão continuar a investigar. A família tem medo de que a polícia classifique o caso como suicídio para desviar as atenções mediáticas. “A sua causa de morte ainda não foi anunciada à família, mas estamos preocupados que seja rotulada como um suicídio”, disseram em comunicado no último sábado.

Em declarações a um órgão de comunicação local, Victor Valley News, a família refere que havia sangue na camisa de Harsch, mas que “não parecia haver implicações físicas no local para sugerir que houve uma luta ou feridas abertas visíveis”. Segundo a família, o corpo de Malcolm Harsch permaneceu na morgue do condado de San Bernardino durante 12 dias até ser realizada uma autópsia.

Enquanto os apelos de justiça racial ganham cada vez mais força nos EUA, esta semana, o senador Rand Paul impediu que o linchamento se torne um crime de ódio federal. Muito comum entre 1877 e 1950, este tipo de crime implicava normalmente acusações criminais dúbias contra os negros, que eram capturados e sujeitos a tortura. O linchamento terminava com a vítima a ser enforcada numa árvore e, de seguida, queimada.

 

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