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André Breton. O apetite voraz, apoteótico, insaciável

André Breton. O apetite voraz, apoteótico, insaciável

Rita Homem de Mello 12/06/2020 19:57

Em O Amor Louco, a poesia e o erotismo percorrem cada passagem da vida pessoal do escritor aqui narrada. Em certos momentos, a poesia chega a dissolver-se na noção de beleza, tão crucial para o escritor: «A criada é muito bonita: ou melhor, poética.»

O Amor Louco (1937). São três as naturezas imagéticas neste livro: o prazer, a realidade e a imaginação. Três naturezas espontaneamente fundidas, estampadas no que Breton definiu de “escrita automática”, uma escrita sem filtros onde se adensa a mais pura fantasia poética e os seus excessos. «Ora devemos confessar que são esses excessos que acima de tudo interessam ao poeta.» (p.147)

Breton, o homem que em 1924 escreveu «O Manifesto Surrealista» vira-nos do avesso neste livro, estropiando qualquer convencionalismo. Deparamo-nos com imagens nada convencionais, de caracter altamente sexual, mas abordadas num tom onde qualquer possível perversão apenas se deixa tapar por um fino lençol de linho virgem numa noite tórrida de verão. É o caso por exemplo do cacto (p.121) «As crianças, deliciadas, visam de longe a planta, e devemos confessar que não há mais perturbante maravilha do que essa secreção assim produzida. É impossível não se lhe associar não só já a ideia do leite materno, como também a da ejaculação.» Aqui, o cacto é apenas um dos vários exemplos em que uma imagem nos pode surgir como flash de outras tantas, despoletando inúmeros pensamentos em camadas. «A surpresa provocada por uma imagem nova ou por uma nova associação de imagens deve ser encarada como elemento primordial do progresso das ciências físicas, pois só o espanto consegue excitar a lógica, sempre tão fria, e obrigá-la a estabelecer novas associações.» escreveu M. Juvet em 1933 na sua Structure des nouvelles théories physiques.

Em O Amor Louco, o desejo é a cratofania do instinto, do inconsciente. Há uma mística salaz indomável que se traduz no regente planetário da corrente surrealista insurgida contra “o culto dessa abjecta trindade que é Deus, Pátria e Família”. Neste livro, a poesia e o erotismo percorrem cada passagem da vida pessoal do escritor aqui narrada. Em certos momentos, a poesia chega a dissolver-se na noção de beleza, tão crucial para o escritor, (p.27) «A criada é muito bonita: ou melhor, poética.»

A beleza, a par e passo com a poesia, ocupa um eixo central neste império de erotismo e loucura, porque se para o escritor, a beleza gera beleza, o desejo louco gera o desejo louco. «A beleza convulsiva terá de ser erótico-velada, explodente-fixa, mágico-circunstancial, ou não será beleza.» (p.28) 

Este é um livro convulsivo, torrencial e na verdade destas três palavras compostas acerca deste fruto que afinal nunca foi proibido porque «Só a tentação é divina» talvez a mágico-circunstancial seja a mais imperiosa. A magia, o delírio, o inexplicável, o inefável, o indizível, o transcendente estremecem num arrepio as vísceras deste inconsciente louco.

O dia vinte e nove de Maio de 1934 é o dia lume da ação do livro. É o dia em que Breton vê pela primeira vez a mulher mais bonita de sempre (p.77) «(…) o seu sorriso, naquele instante, me lembra hoje um esquilo segurando uma avelã verde. E os seus cabelos, chuva clara sobre castanheiros em flor». Sobre esta mulher e a história que a partir daí deliciosamente se tece, Breton chama-nos até si, até Paris e Tenerife, levando-nos como uma sombra em movimento, chegando até, a explicar-nos detalhadamente o seu poema Girassol verso a verso, escrito sobre esse mesmo encontro, decalcando as suas “lacunas” e “debilidades”.

Ao longo da narrativa o leitor vê-se contagiado por uma libertação em constante sobressalto que o acompanha quando é chamado a renunciar ao eticamente estabelecido. Há toda uma adrenalina em constante sobressalto quando não se pode ser devasso, carnal, desregrado «Como renunciar ao poder de fazer surgir, sempre que se queira, o animal de olhar repleto de prodígios, como suportar a ideia de correr o tempo e de não ir acossá-lo lá onde se esconde?» (p.24) Essa adrenalina que Breton nos faz sentir tem apenas um propósito, mostrar ao leitor que ainda está vivo, por isso faz-nos estremecer, encostando-nos à parede a um fio da sua boca enquanto perverso nos questiona «É capaz de dizer qual foi o encontro capital da sua vida? Até que ponto esse encontro lhe deu e lhe dá, a impressão de ser fortuito? Ou necessário?». (p.29)

Pois bem, estas perguntas em cataclismo causam-nos tremores, um certo tipo de espasmos que geralmente são reprimidos pelo espartilho metálico da sociedade. Eu sou capaz de dizer sim, qual o encontro capital da minha vida, da mesma maneira que o leitor também será capaz de o fazer e de confirmar que, mesmo fortuito, repentino, ocasional, esporádico esse encontro foi necessário e talvez seja necessário ser circunstancial para circuncisar o próprio desejo. Cada pergunta deste génio surrealista é uma tentativa de ir ao encontro do nosso inconsciente irado, voluptuoso.

Estas perguntas levantadas como um véu nupcial podem revelar um certo sentido iniciático na medida em que tentam descobrir algo que por mais que se tente esquecer não se poderá apagar «Não há nada encoberto que não venha a descobrir-se, nem oculto que não venha a ser conhecido.» (Mateus, 10,26)

Mas pensar em O Amor Louco é lembrar também Os Frutos da Terra de André Gide publicado em 1897 e, como não podia deixar de ser, Mário Cesariny.

Segundo Borges na sua Biblioteca Pessoal, Gide como Breton «exalta os desejos da carne, mas não na sua plena satisfação. Em textos posteriores, cuja enumeração seria longa, pregou o prazer dos sentidos, a libertação de todas as leis morais, a cambiante «disponibilidade» e o acto gratuito que não corresponde a outra razão senão o apetite.»

Esta ideia de pregação do prazer de que Borges nos fala é um género de escritura rasa do corpo e do sonho, do corpo e da obra de arte, da obra de arte que nos acende e revigora sempre que nos deixamos fulminar. Outro ponto importante a meu ver neste testemunho de Borges sobre Gide, mas que se aplica também a Breton, é o apetite voraz, apoteótico, insaciável a que nos sentimos algemados desde o primeiro momento.  Algemados sim, mas lúcidos pela frontalidade e clareza dos seus pensamentos, que se por um lado são imensamente poéticos, ao mesmo tempo são completamente desprendidos de qualquer convenção. Haverá lá coisa mais poética do que ir a uma feira da ladra com um amigo, no caso, Giacometti, e do nada olhar para certos objetos, deixar-se envolver por eles, arrebatar-se por eles e dar-lhes vida?

Este rebaptismo dos objetos leva-nos automaticamente para o campo do inconsciente, senão porque é que será que tantas vezes nos sentimos fatalmente atraídos por coisas e pessoas que à partida não nos diriam assim tanto e, no entanto, são-nos inexplicavelmente insubstituíveis? Qual é o leitor que ao ouvir uma determinada música que nunca ouviu com outra pessoa só pensa nessa mesma pessoa e a sente florescer magnetizada dentro de si?

Breton dá-nos alguns exemplos, como quando por exemplo, vê (p.48) «uma grande colher de madeira, produto de artesanato, mas, a meu ver, bela, bastante audaciosa de forma – colher cujo cabo, quando poisada sobre a parte convexa, ganhava a altura de um pequeno sapato nela incorporado. Trouxe-a imediatamente comigo.» Não pode haver mais vigor do que dar vida a uma colher e desenhar-lhe um esquiço interior que nos leva a outro esquiço interior e a outro. Dar vida a uma colher, a uma música, a um quadro, a um poema, a um quarto de hotel, a uma máscara é nunca mais ignorar esse esquiço vital, é nunca mais deixar que esse esquiço esmoreça.

Numa altura em que as cidades esmorecem dia após dia, e que a toda a hora são descaracterizadas pelos prédios ou construções manhosas, lembro-me da pequena casa colada à minha aqui na Foz do Douro, que foi abolida para dar lugar a um caixote medonho de vidro. Os novos proprietários dessa casa, que era centenária e que tinha qualquer coisa de assombrado saído da Queda da casa de Usher de Poe, não quiseram ficar com nada do recheio e então fiquei eu com duas arcas maravilhosas que estão agora na sala de estar de onde escrevo.

Uma das arcas tem uma estrela de David nas laterais, enquanto que a outra muito maior, tem uns florões nipónicos pintados em tons pêssego com uma fechadura meia barroca em bronze e uma chave um pouco enferrujada que vinha no fundo juntamente com pequenos soldadinhos de chumbo. Aceitei feliz as arcas que iriam ser, como todas peças da casa, demolidas.

Tudo para dizer que também eu, como Breton com aquela colher de madeira, lhes dei vida e já não imagino a sala sem elas, sem os livros dentro delas, sem o cheiro dentro delas, sem a história que só elas guardam dentro delas. Penso muitas vezes a que família judaica aqui do Porto terão pertencido ou o que terão guardado, escondido, ocultado? Que segredos, lágrimas, cartas de amor, diários? Nem tudo tem que ser útil, prático, vendável, rentável, capitalizável. Não trocaria por nada estas duas arcas que me fazem navegar num mar fantasista que só a mim pertence, e só a mim me desfruta e reconhece. No fundo, dar vida a um objeto, não é mais que dar uma resposta orgânica a um desejo inconsciente.

Depois de “imediatamente” ter trazido consigo a colher, e vejam aqui com que viço, vontade, possessão absoluta do objeto desejado, se robora o” imediatamente” e como a seguir Breton escreve (p.48) «Discutíamos o significado que urge atribuir a tais achados, por mais insignificantes que estes possam parecer. Esses dois objetos que nos tinham passado para as mãos sem sequer virem embrulhados, e cuja existência, minutos antes, ignorávamos, impunham-nos agora um contacto sensorial assaz prolongado, convidavam-nos instantemente a considerar a sua existência concreta, e ao mesmo tempo, desvendavam-nos certas facetas, assaz inesperadas, da sua vida.»

São as fotografias, na maioria de Man Ray, que dão visibilidade a muitas das passagens, das paisagens, dos objetos como o desta colher, de uma máscara de Elmo, de uma flor ou de uma estátua de Eneias com o pai às costas.

Esta colher que “imediatamente” arrebatou Breton sem ele saber ao certo a razão, virá mais tarde a relacionar-se com a sua infância, com o universo da gata borralheira, da Cinderela no fim de festa, do regresso a casa depois do baile e mais tarde ainda, por assimilação viria a relacionar-se com o universo sexual. Breton serve-se do conto infantil para nos fazer ver o carácter assombradamente erótico que a colher lhe suscita (p.61) «Tornava-se assim evidente, dadas estas premissas, que todo o movimento anterior do meu pensamento tivera como ponto de partida a igualdade objetiva: sapata=colher=pénis=molde perfeito desse pénis.» Acaba então por concluir (p.63) que « A necessidade de amar, com tudo o que ela comporta de perturbante exigência sob o ponto de vista da unidade(da unidade-limite) do seu objeto, não descobriu aqui nada de melhor para fazer do que repetir as tentativas do filho do rei, no conto, ao mandar experimentar «o mais bonito sapatinho do mundo» a todas as mulheres do reino. O conteúdo latente, sexual, transparece claramente nas seguintes palavras: «Deixa-me ver- disse, rindo, Cendrillon - se me ficará bem»…«Viu ele então que lhe entrava sem custo e lhe ficava tão justo como se fora de cera.»

Na verdade, Breton estabelece inconscientemente uma união entre a grande colher e o sapato Cinderela, acentuando assim o facto de que só pelo sonho cabriolamos sempre livres de colher em colher, de pensamento em pensamento, de música em música, de poema em poema.

Breton, que muito sorveu de Freud, criticava todo o aparato vazio instituído, exaltava o lavradio onírico como muralha ao objetivismo imperioso e a “escrita automática” como muralha ao esfuçamento significativo.

Enganem-se os que acreditam que os desejos só nos ludibriam, enganem-se os que acreditam que o mundo não pode ser apenas encantamento. «Gostaria de saber-vos loucamente amada.» (p.213)

É assim, com esta frase magistral que Breton termina o seu livro, voltando uma vez mais a fazer-se sentir a um fio do leitor, a um fio dos seus lábios, a um fio dos seus sonhos. Afinal, quem não gostaria de se saber loucamente amado, desejado?

No fundo, só haverá desejo enquanto houver um encantamento louco e sem encantamento, o amor não poderá ser louco, o que é uma pena, porque, digam o que disserem, não há melhor do que estar a dois passos da loucura.

«Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação» dizia Breton, que nunca será entendido como um homem a meio-pau e os olhos, as sombras, os sonhos que se debruçarem sobre ele também não, a menos que a medo não se deixem hastear.

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