23/9/20
 
 
Carlos Gouveia Martins 12/06/2020
Carlos Gouveia Martins

opinião@ionline.pt

A política identitária matters?

Hoje, em Portugal é evidente, para os PCP’s e BE’s desta vida que a nação já não conta, a religião também já não conta, a guerra história entre classes sociais conta cada vez menos (o BE que o diga), mas a cor, a etnia e o género contam muito, contam quase tudo porque são a parte mais importante da nossa esquerda radical. É o seu cavalo maior de batalha, esta que é a maior das suas ditas e desditas “causas fraturantes” e “identitárias”.

Vivemos, com cada vez maior frequência, vários picos de clara manifestação identitária onde cá, no nosso Portugal, já não se assiste só de cadeirão ao que se vive com maior frequência em países como os Estados Unidos da América (EUA) ou, na nossa Europa, ao que se lê sobre a extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) na terra de Angela Merkel. Sobre este caso, quando se pensa que é só teoria, que não “toca” na política real em votos, recordemos que em fevereiro deste ano de 2020, a extrema-direita alemã da AfD permitiu a eleição de um líder regional pela primeira vez na Alemanha.

Mas voltemos ao início. Uma política identitária, dizem os livros e explicam alguns académicos, é quando as posições políticas são baseadas meramente nas perspetivas de determinados grupos sociais, pretendendo adquirir maior visibilidade e notoriedade social através do género, da orientação sexual, da religião, da etnia, raça, língua ou com base na nacionalidade.

Não é algo novo. Em 1777, Alexander Hamilton, figura particularmente interessante que foi o Primeiro Secretário do Tesouro dos EUA assim como é o autor de um conjunto de ensaios e artigos sobre a Constituição que originaram o “O Federalista”, escreveu enquanto agente político americano sobre “democracia representativa”. Foi dos primeiros, ou pelo menos com esse registo tão vincado, que, através de uma carta refletiva, expôs pontos de vista e reflexões sobre a conjuntura político-social norte-americana questionando os problemas migratórios e o preconceito racial numa tentativa dos founding fathers em alcançar os ideais de soberania popular e perceber qual deveria ser a arquitetura política que os levasse à concretização.

Por estes dias, todo o mundo se manifestou em torno deste tema que é, claro que é, um problema existente na sociedade. Associado livremente em algumas partes do globo - visível através de hashtags como #Blacklivesmatters - ou menos livre de pensamento e mais preso a uma ideologia de esquerda oportunista (como em Portugal) onde erradamente se tentou tirar partido político de algo que é uma verdade de La Palice, como ser-se “anti-racista”, vimos também a colagem a uma irrisória guerrilha anti-capitalismo ou anti-direita com nascença exclusiva numa esquerda política portuguesa maniqueísta. Porém, cá ou acolá, assistimos a uma globalização de manifestação identitária.

Em Portugal, há várias matérias que podem merecer análise sobre estas ações de hoje, sem recorrer ao passado histórico que por si só traria muitas respostas da nossa ação enquanto Nação. Primeiro, permitam, sobre a opressão e ataque moral que a autoridade policial no pacato Portugal assistiu. Inconcebível, desonesto e moralmente lamentável. O assassinato de George Floyd, um homem afro-americano que perdeu a vida em Minneapolis no dia 25 de maio de 2020, estrangulado por um polícia americano branco (acompanhado de uma oficial americano de origem asiática, para que conste e pode comprovar-se nas imagens), trouxe a palco várias equiparações e comparações infelizes com os nossos agentes portugueses. Foco importante global: Lamentável atitude de violência dos agentes da polícia americana, factualmente. Lamentável atitude e, agora, que todos os honestos esperam ver os envolvidos julgados e condenados pelo que fizeram. Porém, pensemos: A polícia norte-americana e o seu modus operandi instalado de maior carga de violência é comparável à atuação dos policiais portugueses? Desde quando? Só a brincar é que podemos dizer tal coisa e, só sendo desonesto intelectualmente (ui, tantos), é que podemos usar essa comparação para incriminar e julgar as nossas forças de segurança. Portugal assistiu a muitos casos de clara vergonha alheia. De cartazes ridículos que caberá ao ministério público julgar após queixa da PSP até frases ditas de civis na cara (grande atitude de calma das forças policiais) e replicadas pelas nossas televisões nacionais de manifestantes claramente errantes. Portugal não se compara aos EUA. Quem atuar nessa base de princípio, está a enganar-se a si próprio.

Porém, neste nosso país há um autêntico festival político de identidades e crença na política identitária. Basta ver, nesta semana de manifestação em que se apregoava nas ruas o combate ao racismo, e que triste lamento esse, as palavras (essas sim, claramente racistas) da Deputada Joacine Katar Moreira que, ironicamente, discursava numa manifestação… anti-racista. Portugal inteiro viu. Portugal inteiro se auto-silencia perante a atuação racista de uma Deputada portuguesa. Todos erramos, esperemos que Joacine Katar Moreira peça desculpa como (e bem, às vezes) apela a que se faça justiça contra quem bipolariza um discurso de ódio que só favorece os extremistas (de direita e de esquerda) e ofusca os tão necessários moderados.

Podemos aceitar o silêncio ideológico, mas há também o caso do fim de ciclo que a esquerda “identitária” fez aos ensinamentos de Karl Marx. Hoje, em Portugal é evidente, para os PCP’s e BE’s desta vida que a nação já não conta, a religião também já não conta, a guerra história entre classes sociais conta cada vez menos (o BE que o diga), mas a cor, a etnia e o género contam muito, contam quase tudo porque são a parte mais importante da nossa esquerda radical. É o seu cavalo maior de batalha, esta que é a maior das suas ditas e desditas “causas fraturantes” e “identitárias”. No resto, acabou-se. O PCP e o BE deixaram o seu líder ideológico Marx a falar sozinho em relação ao combate sobre a exploração que apregoava existir e ao combate pela sociedade igualitária entre o Capital e o Trabalho, de Marx e Engels. Acabou-se a luta de classes que definia perante o mundo uma relação de guerrilha permanente contra a exploração provocada pelo capitalismo que só se eliminaria com a abolição da propriedade privada pela revolução. Não é coisa pouca: É a base teórica de Karl Marx, meus caros camaradas. Foi um pequeno esquecimento, uma pequena falha que aparentemente usaram no dia-a-dia político por considerarem os clássicos do marxismo ultrapassados face à sociedade pós-industrial.

Temos ainda outro caso flagrante. Estas manifestações evidentes no nosso mundo ocidental não fazem de Portugal uma exceção. Basta ver que existe cá um caso concreto, com a recente transformação do Livre em partido identitário. É mais clara e evidente história nacional política de personalização da política, com a consequência inevitável de trazermos para a esfera de debate público todas as angústias, ódios e ressentimentos pessoais. É um erro desta ex-esquerda que agora é meramente identitária com pouco acrescento de soluções para os problemas da totalidade dos portugueses. A prova da insignificância vê-se nas sondagens em que os portugueses mostram recusa por este tipo de política.

Esquecendo a incongruência de alguma parte da esquerda portuguesa, a nível ideológico histórico e a nível social atual, foquemos na prática e na manifestação que assistimos.

Neste caso, e focado no discurso identitário (nunca será ideológico) “anti-racista”, sobre questões de fundo que não se debate porque vai embater de frente nos problemas sociais, na exclusão que existe em todas as sociedades de maior ou menor intensidade e na marginalização que as políticas sociais às vezes pouco mitigam, há e sempre houve uma ocultação partidária de vontade e compromisso efetivo.

É verdade que há um silêncio quase permanente político sobre estas questões.

Sem dúvidas, há fontes de conflito social que são “identitárias”. Permitam-se refletir convosco próprios se um negro rico como Barack Obama ou Michael Jordan, um Académico brilhante como o economista Sir William Arthur Lewis, não é cada vez menos negro nos discursos dos “identitários” ao passo que um negro pobre é injustamente cada vez mais negro nos olhos dos estudiosos antropólogos inspirados na Universidade de Chicago e nos estudos ainda hoje apregoados de Robert Park. Ou, outro exemplo, na etnia cigana: Há ciganos menos ciganos aos olhos da sociedade porque como Quaresma brilham de trivela nos relvados de futebol face a ciganos mais ciganos porque vivem dentro da sua cultura e nos seus princípios em quase todos os concelhos do nosso país.

Todos temos de lidar com a cor da pele, como um branco na África do Sul (não conta?). O Racismo é inaceitável, mas só a melhoria de toda e qualquer condição social é eficaz para combater estas desigualdades. Esta é a política identitária que Matters. A que conta. A que devemos assistir, trabalhar e batalhar.

Sobre balanços identitários de política, porque ousámos comparar o que somos aos americanos, vejamos como olhos de ver o que sucedeu nos EUA na eleição presidencial de 8 de novembro de 2016 que fez Donald Trump ser o 45º Presidente dos estadunidenses.

Foi a clara política identitária que foi a grande – talvez a maior – causa do desastre do Partido Democrático nessas eleições presidenciais de 2016. Recordemos que foi quando Hillary Clinton falava só para as mulheres, só para os latinos, apenas para os grupos LGBT, só para os vizinhos mexicanos… tinha, do lado oposto, bem ou mal, um Donald Trump a falar para todos os americanos.

Podemos discutir a ignorância e impreparação de alguns temas que falou, o mau exemplo de comportamento sexista do passado ou até matérias de gestão do então candidato Trump. Podemos afirmar com alguma confiança que o hoje Presidente Americano falava apenas para brancos, discursava com ideias só para os ricos, que tinha chavões para captar apenas os nascidos e criados nos 50 estados daquele país. Em sentido oposto, podemos afirmar, com igualmente alguma razão, que pouco falou para os americanos segregados, para os americanos mais pobres e para os americanos que escolheram aquele país das oportunidades para constituir família e contribuir diariamente para a ainda economia mais forte do Mundo.

Porém, as palavras aparentemente abrangentes e agregadoras, não “identitárias”, associadas a um discurso generalista e a uma retórica oca mas global têm em democracia muito valor. Inclusive, têm valor para acabar com ela, com a própria democracia.

Os erros de comparação entre países, de realidades, culturas e histórias diferentes são um erro colossal. Copiar manifestações fazendo copy-paste de realidades não funciona. Não devemos diminuir esse erro numa sociedade que se quer evoluída e pensante.

Assim, igualmente, como temos de ter a consciência crítica em como a bipolarização entre o discurso de ódio e segregação, defendido pela extrema-esquerda e pela extrema-direita de igual modo, vão deixar pouco espaço aos moderados que devem ser aqueles em quem qualquer raça, etnia, nacionalidade, género ou orientação sexual deve confiar a construção de políticas sociais integradores e que mitiguem as barreiras sociais que nos separam todos os dias e que aumentam o fosso económico das famílias.

A dificuldade económica, a ausência de casa ou trabalho, a discriminação por determinada orientação de princípio ou sentimento não têm cor. Ou não deviam ter. O nosso empenho deve valer para todos. Inclusive, no perigo das políticas identitárias que só têm dividido e apelado à separação e ódio.

Que se trabalhe para que todos Matters sem esquecer que isso não significa ou deve retirar peso ao que, em países como nos EUA, se defendeu e manifestou esta semana.

 

 

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