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José Paulo do Carmo 12/06/2020
José Paulo do Carmo

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O vírus não usa relógio

Qual é a diferença de uma pessoa estar sentada num bar à noite ou sentada num café durante o dia com outras pessoas? O vírus é algum vampiro que tem medo da luz e só aparece de noite para nos infernizar o juízo? Não percebem que estão a matar uma série de empresas sérias, que estão a levar para a insolvência muitos empresários e famílias e que estão a alimentar festas ilícitas, sem o mínimo de condições de segurança e higiene? 

O vírus não usa relógio… mas parece. Tem cor política e profissão. Tem gostos e escolhas. Preferências, filhos e enteados…Só assim se explica o inexplicável. Este desconfinamento tem bandalheira escrito na testa, mas tem também intencionalidade, o que torna tudo isto mais insensato. Mais injusto. Manifestações em pleno estado de emergência e fora dele, sim, assim como ajuntamentos das claques de futebol e festas (desde que sejam ilegais) ou desde que sejam do menino do regime no Campo Pequeno para a trupe ir toda bater palmas e tirar umas fotografias (mandam-se umas bocas à Ministra da Cultura no backstage só para não dar muito nas vistas e siga a banda ). Já os empresários da indústria do entretenimento nada, para esses o silêncio, a indiferença, o ostracismo. Como se não existissem ou não prestassem para nada.

Chegamos ao cúmulo de ter já tudo alinhavado para daqui a um mês e pouco recebermos uma final 8 da Liga dos Campeões com diversos voos vindos de fora, extensas comitivas e tudo o que rodeia oito das mais fortes equipas do futebol europeu. Para esses já há regras e disponibilidade, dá jeito para tirar mais umas fotografias, agora os bares e as discotecas não contam. Não fica bem ir tirar uma selfie por lá. É uma vergonha aquilo a que temos assistido. Os restaurantes não podem ter lotação superior a 50% sem barreiras impermeáveis entre as pessoas, mas podemos ir protestar às dezenas uns em cima dos outros para a frente de um edifício que ocupámos ilegalmente. Enquanto isso dezenas e dezenas de festas ilegais promovem-se nas redes sociais perante a indolência de quem manda.

Qual é a diferença de uma pessoa estar sentada num bar à noite ou sentada num café durante o dia com outras pessoas? O vírus é algum vampiro que tem medo da luz e só aparece de noite para nos infernizar o juízo? Não percebem que estão a matar uma série de empresas sérias, que estão a levar para a insolvência muitos empresários e famílias e que estão a alimentar festas ilícitas, sem o mínimo de condições de segurança e higiene? Não é preferível termos os bares e as discotecas com um plano claro de desconfinamento, abrindo por fases mas permitindo que comecem a operar? Já chega de tanta incoerência. É preferível ter as pessoas a beberem nas bombas de gasolina e em armazéns obscuros? Façam regras, fiscalizem, criem condições para que a retoma seja feita em segurança mas façam-no como fizeram para todas as outras áreas. É insustentável continuarem a ter calendários para tudo menos para este tipo de negócios.

Segundo sei, a AHRESP apresentou uma calendarização para um desconfinamento gradual, que começa pela abertura de bares e espaços ao ar livre bem como a abertura de discotecas com lotação limitada e sem pistas de dança. É altura de pararem de assobiar para o lado e definirem o formato cumprindo todas as regras. Salvaguardar a segurança e a saúde pública permitindo a estes negócios sobreviver antes que seja tarde de mais. É um escândalo ver as ruas pejadas de gente a beber copos e não permitir que o façam dentro de espaços criados para o efeito e que podem assegurar outro tipo de condições. É surreal permitirem-se manifestações e ajuntamentos e depois não se poder festejar os santos populares e os bares e discotecas continuarem fechados. Não se entende. Parece que as esplanadas podem ter música e sardinhas até a uma certa hora mas depois, quando o relógio bate, trancas à porta que o bicho mau vem aí… Esse sacana dorminhoco que só acorda ao fim do dia…

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