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Arnaldo Trindade. “Nunca perguntei a um artista se era de esquerda ou de direita”

Arnaldo Trindade. “Nunca perguntei a um artista se era de esquerda ou de direita”

Hugo Geada 12/06/2020 09:23

O homem que lançou alguns dos mais importantes discos da história da música portuguesa e principal editor de José Afonso abriu o livro ao i.

Foi uma das personagens mais importantes do percurso musical de José Afonso. Arnaldo Trindade é o fundador da editora Orfeu e responsável por recrutar o músico para a discográfica em que o cantautor e poeta acabaria por editar grande parte da sua discografia, nomeadamente discos essenciais como Cantigas do Maio, de onde surge Grândola Vila Morena, ou Venham Mais Cinco. Com ele, o i conversou sobre as controvérsias com a Movieplay e sobre a sua relação com Zeca Afonso… perdão, José. Arnaldo Trindade nunca gostou que lhe chamassem Zeca.

Como começou a trabalhar com Zeca?

O Zeca chegou aqui depois de ter percorrido todas as capelinhas, todas as editoras. Depois de lançar os Vampiros [1963], um tema proibido, todas as editoras recusavam trabalhar com ele, tinham medo. Ele tinha por editar o álbum Cantares do Andarilho, [1968] essa fita chegou-me através do pai do Rui Pato, que era o músico que o acompanhava na altura, e que era muito amigo do Zeca... eu não gostava que lhe chamassem Zeca [risos]. Não gostava nada, dizia-lhe que Zeca era só para os amigos de infância. Mas ouvi essa demo e gostei tanto que achei que devíamos assumir a responsabilidade e levar esse trabalho para a frente. Como a nossa firma era independente e não tinha inclinações políticas, nós gravávamos aquilo que achávamos que era bom. Apesar de sermos todos animais políticos, não queríamos saber qual era a inclinação política do artista. Pessoalmente éramos o que éramos, agora como entidade não. Portanto, não tivemos esse problema quando recebemos o Zeca, que foi o começo de uma grande amizade. Considero-o um génio da música, como da poesia e como pessoa. Escrevia música sem qualquer tipo de instrução musical. Um amigo, professor da Universidade de Évora que trabalhou com o José em Amesterdão, fez um estudo sobre ele e percebeu que estava tudo correto segundo os cânones da música. E a poesia fabulosa dele ainda está pouco estudada.

Para o sucesso que alcançou, sobretudo a partir de Cantigas do Maio, foi fundamental também a colaboração de José Mário Branco. Que participação é que ele teve nesse disco?

O Zé Mário produziu o disco, mas o disco foi composto pelo Zé Afonso. O trabalho do Zé Mário, um indivíduo muito evoluído musicalmente e com um background académico, e como produtor agarrava na música de uma maneira diferente. O Zé Afonso vinha das baladas. Ouve-se em álbuns seguintes uma grande influência da música africana. No Cantigas do Maio [1971] a produção do Zé Mário Branco é mais evoluída [do que nos álbuns precedentes] e hoje é considerado um dos maiores discos de sempre portugueses. É verdade que foi um dos primeiros discos de ouro em Portugal?

Nesse ano lançámos três discos de ouro. O do Conjunto Maria Albertina, feito sobretudo para exportação, o José Cid, com o seu álbum homónimo, e o Cantigas do Maio, do José Afonso.

Que também não fez sucesso apenas em Portugal?

Ele é mais conhecido na Galiza do que em Portugal. Tanto assim que o melhor parque de Santiago de Compostela é o Parque José Afonso. Isto deve-se a ele cantar em galego e ter gravado um disco nessa língua. Ele tinha um acompanhamento de um cantautor galego chamado Benedito, que também gravei.

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